Licensa

21/12/2016

Almas Perfumadas - Carlos Drummond Andrade

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.

Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser Abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave de sua presença soprando nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está conosco, juntinho ao nosso lado.

E a gente ri grande que nem menino arteiro. Tem gente como você que nem percebe como tem a alma Perfumada! E que esse perfume é dom de Deus.

08/12/2016

SENSIBILIDADE, UM DOM DE POUCOS


 

Por que Tolstoi foi Tolstoi? Ou melhor, como Tolstoi conseguiu escrever o que escreveu? Ou então Victor Hugo? Ou então Miguel Cervantes? Ou então Goethe? Ou então Machado de Assis? Ou então Kafka? Como esses sujeitinhos tiveram a capacidade de expressar tantos sentimentos, situações e pensamentos humanos e de maneira tão viva e transformadora? Fonte
Teriam eles alguma capacidade especial, ou seria apenas fruto de muito trabalho? Um grande amigo certa vez me disse ser a sensibilidade a grande diferença entre os grandes escritores e as pessoas “meramente comuns”. Achei essa resposta bastante convincente.

Pouquíssimas pessoas teriam capacidade de escrever, por exemplo, Grandes Expectativas. Somente um espírito aguçado e extremamente sensível às relações humanas e às formas como as pessoas de realidades sociais distintas interagem como o de Dickens poderia, de forma tão realista, narrar a estória de Pip.

Há um certo senso comum impregnado em quase todo mundo (suspeito e já ouvi dizer ser decorrência de ideias de Nietzsche, outro com indubitável sensibilidade ao mundo) de que qualquer indivíduo, com empenho e esforço próprio suficiente, poderia chegar aonde quisesse e, por exemplo, escrever um grande clássico. Mas duvido, com todas as forças, que haja 5 vivalmas capazes de escrever um livro do porte e da profundidade sentimental de Crime e Castigo, de Dostoievski.

Trata-se de um dom: o dom da sensibilidade. Pouquíssimos o têm. Parte significativa dos autores destaca-se por uma sensibilidade um pouco maior que a média e por muito esforço. Não se pode negar ser o esforço importante, pois a sensibilidade, sozinha, não leva a lugar nenhum. Mas os grandes autores, os clássicos, aqueles que jamais serão esquecidos, além de esforço, podemos ter certeza de que tinham uma sensibilidade absurda. Pode até ser que muitos deles tenham sido infelizes por esse motivo.

Muito se diz que essa sensibilidade nasce de uma vida atribulada e cheia de sofrimentos. Salinger, outro com uma sensibilidade descomunal, discorda disso e menciona Walt Withman, talvez o maior poeta norte-americano, como exemplo de vida pacata e comum, mas cujos versos influenciaram e influenciam inúmeros poetas.

A nós, meras pessoas com sensibilidade comum, cabe desfrutar da leitura e dos dons dos grandes escritores.

Nem tudo se pode ver, ouvir ou dizer – Betty Milan

Um músico me escreve contando que pertence a uma grande orquestra, mas não tem prazer no trabalho por causa dos colegas. Não suporta o despotismo, a vaidade, a prepotência, a arrogância e a mania de grandeza de alguns. O convívio com “egos inflados” é demasiadamente penoso, e ele me pergunta o que fazer.

Eu, que sempre faço a apologia do ato generoso da escuta, sugiro ao músico que faça ouvidos moucos. Lembro que ele tem o privilégio de escutar os sons mais sutis e sabe ouvir o silêncio. Não precisa dar ouvidos ao que não interessa. Inclusive porque egos inflados estão em toda parte e a luta contra eles não leva a nada. Evitar a luta de prestígio é um bem que nós fazemos a nós e aos outros.

Para viver, nem tudo nós podemos ver, escutar ou dizer. Isso é representado, desde a Antiguidade, pelos três macacos da sabedoria. Cada um cobre uma parte diferente do rosto com as mãos. O primeiro cobre os olhos, o segundo, as orelhas e o terceiro, a boca. A representação é originária da China. Foi introduzida no Japão, no século VIII, por um monge budista. A máxima que ela implica é “não ver, não ouvir e não dizer nada de mau”. Foi adotada por Gandhi, que levava sempre consigo os três macaquinhos, o cego, o surdo e o mudo – Mizaru, Kikazaru e Iwazaru.

Eles ensinam a não enxergar tudo o que vemos, não escutar tudo o que ouvimos e não dizer tudo o que sabemos. Noutras palavras, ensinam a selecionar e a conter-se. Isso é decisivo para uma atitude construtiva, mas não é fácil. Somos impelidos a focalizar o que nos prejudica – impelidos por um gozo masoquista ao qual temos de nos opor continuamente. Só a consciência disso permite não sair do caminho em que a vida desabrocha.

Seleção e contenção tornam a existência mais fácil. Desde que que não sejam um efeito da repressão, como na educação tradicional, e sim do desejo do sujeito – um desejo vital de se opor às forças do inconsciente que podem nos fazer mal. Isso implica a humildade de aceitar que o inconsciente existe e nós não somos donos de nós mesmos.

A ideia não é nova. Data da descoberta da psicanálise por Freud, no fim do século XIX, mas continua a ser ignorada porque é difícil nos livrarmos do ego. Sobretudo numa sociedade como a nossa, que tanto valoriza, e que não condena a vaidade, a prepotência, a arrogância. Pelo contrário, estimula-as para se perpetuar. Revista Veja, 12/01/2011