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26/08/2016

Reflexões sobre Inclusão: o Yakhupã que não sabia correr.

Os nativos da tribo Yakhupã eram muito felizes. Viviam da caça e da colheita dos frutos da floresta. Eram famosos em todas as outras tribos pela velocidade com que corriam. Amavam correr! Desde cedo esta era a brincadeira mais comum: apostar corrida. 

Seus costumes eram passados de geração a geração por meio de aulas especiais chamadas “sakons”. As principais lições das sakons eram sobre como correr. As últimas também. Sakons diárias sobre como pisar, levantar o pé, colocar o calcanhar no chão, como balançar os braços alternadamente, enfim tudo sobre os movimentos do corpo enquanto um ser humano corre. Havia também várias sakons diferentes sobre tipos de terreno, clima, espécies de gramado e que tipo de corrida serviria para cada condição. Para ser um bom yakhupã: sakons e sakons durante anos.

Certo dia, em uma das corridas diárias, avistaram um pequeno índio debatendo-se nas águas do rio Omunô. Se a filha do chefe não tivesse se jogado na água para tirá-lo de lá, provavelmente teria morrido. 

O menininho foi adotado pelo chefe e passou a ser respeitado por isso. Mas logo se descobriu uma tragédia: o garoto não sabia correr! Reprovou em todos os testes. Teve que frequentar várias vezes todas as sakons e, mesmo assim, não conseguia correr. Andava. Andava bem, mas não corria. Nem sob ameaça. Nem sendo castigado pelo próprio chefe e pelo instrutor das sakons. Alguns diziam que ele jamais seria um yakhupã, mas como era filho do chefe, não poderiam excluí-lo, nada poderia ser feito. Sequer podiam mandá-lo de volta, porque não sabiam de que tribo tinha vindo. 

O menino, que recebera o nome de Tãn (“que anda”, na língua local), sabia jogar a lança com uma excelente pontaria. Mas isso não importava, pois para ser um bom yakhupã, tinha que saber correr. Resultado: mais sakons, ou seja, mais aulas! Ao final de um ano, ele não tinha progredido em absolutamente nada, as sakons foram totalmente inúteis, mas por ser filho do chefe, foi dispensado do ritual de passagem. Tornou-se um yakhupã adulto. Aliás, foi “empurrado” para a vida adulta. Essa artimanha fez com que todos os outros nativos o desprezassem e o tratassem mal. Tinham inveja do tratamento especial que recebera. “Onde já se viu um yakhupã que não corre! Na minha época isso não seria admitido, ele seria sacrificado”.

O ritual de passagem consistia em correr atrás de uma ave especial chamada mutum-guçu que só voava uns dois metros, mas corria rápido. Como a ave cansava logo, o menino conseguia pegá-la. E, pegando-a, tornava-se adulto. Claro, se o menino não cansasse antes. Em seguida a ave era trazida para a tribo que a assava numa fogueira para que todos comessem um pedacinho. E a partir desse dia, o menino já era considerado um homem e tinha todos os direitos e deveres de um adulto. Como Tãn não conseguiu nem chegar perto da ave, foi reprovado.

Além de Tãn, havia outro menino com dificuldades: Karióh. Ele era filho de uma cozinheira da tribo, e mesmo assim, muito magrinho. O coitado reprovou no ritual de passagem, pois não conseguiu correr tempo suficiente para pegar o mutum-guçu. Cansou cedo demais e a ave continuava correndo. Tãn não teve dúvida. Pegou sua lança e num arremesso certeiro matou a ave e a entregou para Karióh. Ninguém aceitou, pois o menino teria que pegar a sua sozinho, por conta própria e não a recebendo morta de outra pessoa. Ainda mais de um yakhupã deficiente que não sabia correr. No ano seguinte Karióh, mais forte depois de intermináveis sakons e uma alimentação mais reforçada, foi aprovado. Pegou na corrida o seu mutum-guçu. Festa na aldeia!

Tãn, percebendo que jamais pegaria à unha sua mutum-guçu, numa tentativa de mudar seu sentimento de menino excluído, pediu que houvesse sakons sobre arremesso de lanças a longas distâncias. Se isso acontecesse, ele poderia caçar qualquer ave mesmo de longe. Pediu que os sábios da tribo o ensinassem como cortar melhor as pedras para fazer as pontas das lanças. Implorou por sakons sobre galhos mais apropriados para fazer lanças, o ângulo mais apropriado para cada distância e os pesos que uma lança deveria ter para cada tipo de caça, mas todo mundo riu. Riram, negaram o pedido e carinhosamente disseram: “querido Tãn, nós o aceitamos do jeitinho que você é. Não se preocupe, não somos preconceituosos”.

Mesmo se sentindo desvalorizado, o jovem aprendeu sozinho a caçar e desenvolver técnicas especiais de arremesso de lanças, mas naquela tribo, isso não valia nada. Tãn viveu como deficiente em corridas até o fim de sua vida. Jamais encontrou sua tribo de origem, os Tchunkóps, que em tchunkopês significa: “exímios arremessadores de lanças”. 

Fim.


A história “O Yakhupã que não sabia correr” é uma metáfora da inclusão de crianças com deficiência nas escolas de nosso país. Ela integra o livro “Mediação da aprendizagem na educação especial” da editora IBPEX. É um livro sobre inclusão de crianças com deficiência nas escolas e que foi indicado ao prêmio Jabuti em 2013, o maior prêmio nacional que um livro pode receber. Só a indicação já é considerada como sucesso. 

Nós, autores desse livro, também somos professores. Assim como a maioria dos professores brasileiros, estamos preocupados com a maneira como a inclusão de crianças com deficiência (especialmente as deficiências de ordem cognitiva) está ocorrendo em nossas salas de aula. Talvez essas crianças estejam se sentido como Tãn, pois seus reais potenciais não estão sendo desenvolvidos. Além disso, em nome de uma pseudo “igualdade de direitos” não estamos dando a elas o que mais precisam: uma educação voltada ao desenvolvimento de suas funções cognitivas, de suas habilidades e de seus potenciais. Ou seja, não estamos atendendo às suas necessidades especiais. 

Ao invés disso, a maioria das escolas de nosso país fica dia a dia empurrando goela abaixo o mesmo currículo de todas as outras crianças: conteúdos em excesso e sem utilidade nenhuma para elas, pois na maioria dos casos nem os compreendem. Se o currículo de nossas escolas já está defasado, inapropriado, antiquado e inadequado para o desenvolvimento das crianças que não são do processo de “inclusão”, imagine como está para aquelas. 

Crianças com deficiência precisam de uma escola que potencialize seus pontos positivos, desenvolva suas habilidades, corrija tanto quanto possível suas funções cognitivas deficientes e amplie suas competências para que possam viver melhor e mais felizes. 

Nossas escolas deveriam estar preparadas para dizer: “Não sabe correr? Não tem problema, vamos lhe ensinar a arremessar lanças!”

Desde já queremos afirmar que compreendemos as dificuldades que os professores passam em função da falta de apoio da sociedade e do Estado. Lutaremos sempre para que sejam valorizados, incentivados, melhor remunerados e protegidos de tudo aquilo que possa tirar deles a vontade de transformar vidas.

A mediação da aprendizagem da teoria de Feuerstein pode ser uma grande ajuda no desenvolvimento de crianças com dificiências, pois interfere nos processos cognitivos e não apenas na socialização dos alunos. 

Já passou da hora de rever o processo de inclusão nas escolas. Assim como todas as crianças tem o direito à inclusão, podemos afirmar que muitas não se beneficiarão dela se continuar sendo realizada da forma como está. Podemos mudar. Devemos mudar.

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