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22/04/2015

Palavras - Manoel de Barros

Palavra dentro da qual estou a milhões 
de anos é árvore. 
Pedra também. 
Eu tenho precedências para pedra. 
Pássaro também. 
Não posso ver nenhuma dessas palavras que 
não leve um susto. 

Andarilho também. 
Não posso ver a palavra andarilho que 
eu não tenha vontade de dormir debaixo de uma árvore. Que eu não tenha vontade de olhar com 
espanto, de novo, aquele homem do saco 
a passar como um rei de andrajos nos 
arruados de minha aldeia. 

E tem mais uma: as andorinhas, 
pelo que sei, consideram os andarilhos 
como árvore.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

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