Licensa

26/04/2015

Último discurso de Martin Luther King

Frequentemente imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados por aquilo que é dominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que chamamos de morte.
Freqüentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não num sentido angustiante.
Freqüentemente pergunto a mim mesmo que é que eu gostaria que fosse dito então, e deixo aqui com vocês a resposta.
Se vocês estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembre-se de que não quero um longo funeral. Se vocês conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe 
- para não falar muito;
- para não mencionar que eu tenho trezentos prêmios, isto não é importante;
- para não dizer o lugar onde estudei.
Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que
- eu tentei dar minha vida a serviço dos outros;
- eu tentei amar alguém;
- eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo;
- eu tentei visitar os que estavam na prisão;
- eu tentei vestir um mendigo;
- eu tentei amar e servir a humanidade.
Sim, se quiseres dizer algo, digam que
EU FUI ARAUTO:
- arauto de justiça;
- arauto de paz;
- arauto do direito.
Todas as outras coisas triviais não têm importância.
Não quero deixar atrás
- nenhum dinheiro;
- coisas finas e luxuosas.
Só quero deixar atrás
- uma vida de dedicação.
E isto é tudo o que tenho a dizer:
SE EU PUDER
- ajudar alguém e seguir adiante;
- animar alguém com uma canção;
- mostrar a alguém o caminho certo;
- cumprir meu dever de cristão;
- levar a solução para alguém;
- divulgar a mensagem que o Senhor deixou;
então,
MINHA VIDA NÃO TERÁ SIDO EM VÃO.

Mentira - Rui Barbosa

"Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o Padre Vieira, que não chegou a conhecer o Dr. Urbano dos Santos, o próprio sol mentia ao Maranhão, e diríeis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentiras nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados aos caudilhos, mentira de caudilhos e apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vezes não sabem se estão, ou não estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindoiros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que, à força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso."
Associação Comercial do Rio de Janeiro
Obras Completas de Rui Barbosa. 
V. 46, t. 1, 1919. p. 31

Medo - Juliana Duzzo

Medo de falar, de ouvir...
De falar muito e muito pouco, de ouvir o que não se quer, ou o que se queria ouvir, mas imaginava que jamais ouviria.
Medo de encarar...
Medo de encarar os medos, medo de dizer oi, de dizer tchau...
Medo de rir na hora errada e chorar de assustada.
Medo de não saber o que dizer... de ir, de ficar, de não saber se ficar, se ir...
Medo de discar o último dígito, alguém atender e não se saber o que falar...
Medo de discar e não atender nunca mais.
Medo de ter medo. Medo de ter coragem de fazer a coisa errada. Ou, a coisa certa e acertar. Mas mesmo assim sofrer, mesmo assim chorar.
Medo de tudo, medo do escuro, medo da luz, da noite, do dia, da tarde...
Medo do telefone, do e-mail, do carteiro, dos conhecidos, dos amigos, dos parentes, dos pais.
Medo de qualquer um que possa dizer o que não se quer ouvir.
Ou dos que não dizem o que se precisa dizer.
Medo de se enganar, ou de já saber demais, mesmo sem nada saber.
Medo de ti.
Medo de mim.

Saudade - Kátia Simone Menegat

Lembrar das coisas ruins, das que me fizeram sofrer, dos sonhos não realizados, eu não queria. Para que sofrer com coisas inúteis, como o acidente que sofremos há muitos anos, a mentira que nos contaram, como quando nos difamaram? Eu não queria.

Se eu pudesse, esqueceria daquele amor não correspondido, das brigas que me fizeram sofrer, das pessoas que por mim passaram e causaram muitos estragos. Lembrar, eu não queria. 
Mas por que, então? Porque guardamos um espaço em nossa mente e coração para a imagem de quem não gostamos, de quem desprezamos, de quem não queremos ouvir falar? Por que ainda memorizamos seus rostos, e também os acontecimento passados e tão nocivos ao nosso presente, que só nos fazem sofrer? Sinceramente, eu não queria. 
As lembranças que ficam não podem ser apagadas, embora muitas vezes as tentamos mascarar. E aquela pessoa, aquele acontecimento, aquilo que queríamos esquecer vai estar sempre lá, mesmo que não a queiramos. E eu, realmente, não os queria. 
Mas a memória tem seu valor, e é isso que faz com que lembremos das coisas boas que vivemos, apesar dos acontecimento ruins; das pessoas maravilhosas que encontramos, apesar daquelas com quem nos desencontramos; e dos momentos preciosos pelos quais passamos, apesar daqueles que apenas passaram por nós. 
Mesmo que haja o mau, haverá sempre o bom a ser lembrado, e mesmo que existam coisas que queríamos esquecer, sem o que lembramos, quem haveríamos de ser? Sem nossas lembrança, esqueceríamos de muitas coisas, mas mais do que isso,desconheceríamos o significado de uma coisa que nos faz crescer,idealizar, sonhar e sorrir: a saudade. 
Dizer que não quero lembrar é, então, dizer que não a queria.

22/04/2015

Palavras - Manoel de Barros

Palavra dentro da qual estou a milhões 
de anos é árvore. 
Pedra também. 
Eu tenho precedências para pedra. 
Pássaro também. 
Não posso ver nenhuma dessas palavras que 
não leve um susto. 

Andarilho também. 
Não posso ver a palavra andarilho que 
eu não tenha vontade de dormir debaixo de uma árvore. Que eu não tenha vontade de olhar com 
espanto, de novo, aquele homem do saco 
a passar como um rei de andrajos nos 
arruados de minha aldeia. 

E tem mais uma: as andorinhas, 
pelo que sei, consideram os andarilhos 
como árvore.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

Meu avô - Manoel de Barros

Meu avô dava grandeza ao abandono. 
Era com ele que vinham os ventos a conversar 
Sentava-se o velho sobre uma pedra nos fundos 
do quintal 
E vinham as pombas e vinham as moscas a 
Conversar. Saía do fundo do quintal para dentro da 
casa 
E vinham os gatos a conversar com ele. 
Tenho certeza que o meu avô enriquecia 
a palavra abandono. 
Ele ampliava a solidão dessa palavra.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

A língua mãe - Manoel de Barros

Não sinto o mesmo gosto nas palavras: 
oiseau e pássaro. 
Embora elas tenham o mesmo sentido. 
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe? 
Seria porque eu não tenha amor pela língua 
de Flaubert? 
Mas eu tenho. 
(Faço este registro 
porque tenho a estupefação 
de não sentir com a mesma riqueza as 
palavras oiseau e pássaro) 

Penso que seja porque a palavra pássaro em
mim repercute a infância 
E oiseau não repercute. 
Pensão que a palavra pássaro carrega até hoje 
Nela o menino que ia de tarde pra 
debaixo das árvores a ouvir os pássaros. 
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux 
Só tinha pássaros. 
É o que me ocorre sobre língua mãe.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

O amor - Manoel de Barros

Fazer pessoas no frasco não é fácil 
Mas se eu estudar ciências eu faço. 

Sendo que não é melhor do que fazer 
pessoas na cama 
Nem na rede 
Nem mesmo no jirau como os índios fazem. 
(no jirau é coisa primitiva, eu sei, 
Mas é bastante proveitosa) 

Para fazer pessoas ninguém ainda não 
Inventou nada melhor que o amor. 
Deus ajeitou isso pra nós de presente. 
De forma que não é aconselhável trocar 
o amor por vidro.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

Eras - Manoel de Barros

Antes a gente falava: faz de conta que 
este sapo é pedra. 
E o sapo eras. 
Faz de conta que o menino é um tau. 
A gente agora parou de fazer comunhão de 
Pessoas com bicho, de entes com coisas. 
A gente hoje faz imagens. 
Tipo assim: 
Encostado na Porta da Tarde estava um 
Caramujo. 
Estavas um caramujo – disse o menino 
Porque a Tarde é oca e não pode ter porta. 
A porta eras. 
Então é tudo faz de conta como antes?
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. 

O fazedor de amanhecer - Manoel de Barros

Sou leso em tratagens com máquina. 
Tenho desapetite para inventar coisas 
prestáveis. 
Em toda a minha vida só engenhei 
3 máquinas 
Como sejam: 
Uma pequena manivela para pegar no sono. 
Um fazedor de amanhecer 
para usamentos de poetas 
E um platinado de mandioca para o 
fordeco do meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo Platinado de Mandioca. 
Fui aclamado de idiota pela maioria 
das autoridades na entrega do prêmio. 
Pelo que fiquei um tanto soberbo. 
E a glória eternizou-se para sempre em minha existência.
BARROS, M. de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001.