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21/02/2015

Livros para gênios? Por Claudio de Moura Castro

 
O Brasil tinha um currículo para gênios. Pena que faltassem alunos à altura. Em uma erupção de bom senso, o MEC produziu algumas diretrizes curriculares que encurtaram e enxugaram os conteúdos. Examinei recentemente um livro de matemática e física, já enquadrado nas novas diretrizes e voltado para alunos de modestíssimas ambições. Li para ver se entendia. Não entendi quase nada. Ou me perdia nas fórmulas ou não via ali algo que se conectasse com o meu mundo. Será que minha vida teria sido mais interessante ou produtiva se houvesse aprendido os princípios supremamente importantes da lei de Pouillet, de Kirchhoff ou o teorema de Binet, o D'Alembert, a extensão do teorema do resto, o plano de ArgandGauss, a divisão de números complexos na forma trigonométrica, o dispositivo de briot-Ruffini e as relações de Girard em uma equação do terceiro grau?

De metade a dois terços dos capítulos de física são dedicados a fórmulas matemáticas. Sobra pouco espaço para explicar o que significam no mundo real ou para que servem. Comparei com um texto americano de física para 1° ano de universidade: tem a mesma matemática, mas explica muito mais o que querem dizer os conceitos. No caso da parte de matemática, jamais se sugere que possa servir para alguma coisa. Em meu curso de doutorado, o conceito tão central de probabilidade merecia inúmeras páginas do livro. Imagino que alunos do secundário requeressem explicação ainda mais pausada. Mas terão de entender o mesmo conceito em cinco linhas e uma fórmula matemática. As fórmulas da hipérbole e elipse são apresentadas em sete páginas. Em um livro americano de 1° ano universitário, o mesmo material é mastigado em 28. A lei de Ohm, peça fundamental da eletricidade, ocupa um quarto de página. Os solenóides (sobre os quais o autor se esquece de dizer que todos os chamam de bobina), os capacitores e transformadores não têm melhor sina. Pergunte-se a qualquer técnico o que é um "curto-circuito" e ouviremos descrições de "pipocos" e fagulhas. O livro diz apenas que "um circuito estará em curto-circuito se interligado por um fio ideal". Fiquei imaginando tal "fio ideal". A eletrônica se perde em fórmulas e em uma abundância de teorias e conceitos que jamais se usam na prática também não ajudam a entender a miríade de equipamentos eletrônicos que nos cercam. De fato, não se fala nos semicondutores transistores que revolucionaram a eletrônica e criaram a informática.

Estamos diante de um precipício que separa duas visões do ensino. Pensava-se que pouco importava saber para que servem as teorias, o importante era o exercício mental de aprender a manipular conceitos abstratos (como os da matemática). Mas qual sentido de percorrer superficialmente e deitar erudição sobre centenas de teorias, o mesmo que se fazia nos lamentáveis livros em que estudei? Era de esperar progresso quase meio século depois. Hoje vimos que não é por aí, e os novos parâmetros curriculares "propõem um currículo baseado no domínio de competências básicas e não no acúmulo de informações" (MEC). São cruciais os conselhos para que o livro "contextualize" o que ensina. Isto é, que "tenha vínculos com os diversos contextos da vida do aluno", que conecte o que está sendo ensinado a problemas, fatos e circunstâncias próximos de sua vida. Sabemos com segurança, o importante é entender em profundidade algumas poucas ideias e não chafurdar em um pantanal de fórmulas e teoremas. Despejei peçonha nos currículos enciclopédicos do passado. Agora, o MEC tomou jeito, mas alguma coisa permanece travada. Um livro para alunos modestos de 2° grau no Brasil é mais árido e difícil que livros usados por universitários americanos. Sobrevive a miragem de que haja alunos capazes de entender e aproveitar o que está nesse livro. (Castro, 2000: 21) Apresentamos, a seguir, os mapeamentos que possibilitaram uma nova postura dos alunos ao considerarem a leitura como um processo e não uma atividade mecânica apenas
CASTRO, Claudio. Livros para gênios? - ponto de vista. In: Veja, São Paulo: Abril, Ed. 1638, ano 33, n° 9, p. 21, março, 2000. 

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