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06/02/2015

Biblioteca Verde (fragmentos) - Por Carlos Drummond de Andrade

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres. 
São só 24 volumes encadernados 
em percalina verde. 
Meu filho, é livro demais para uma criança. 
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo. 
Quando crescer eu compro. Agora não. 
Papai, me compra agora. É em percalina verde, 
só 24 volumes. Compra, compra, compra. 
Fica quieto, menino, eu vou comprar. 
(...) 
Chega cheirando a papel novo, mata 
de pinheiros toda verde. Sou 
o mais rico menino destas redondezas. 
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo.) 
Ninguém mais aqui possui a coleção 
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo. 
Antes de ler, que bom passar a mão 
no som da percalina, esse cristal 
de fluida transparência: verde, verde. 
Amanhã começo a ler. Agora não. 
Agora quero ver figuras. Todas. 
Templo de Tebas, Osíris, Medusa, 
Apolo nu, Vênus nua... Nossa 
Senhora, tem disso tudo nos livros? 
Depressa, as letras. Careço ler tudo. 
(...) 
Mas leio, leio. Em filosofias 
tropeço e caio, cavalgo de novo 
meu verde livro, em cavalarias 
me perco, medievo; em contos, poemas 
me vejo viver. Como te devoro, 
verde pastagem. Ou antes carruagem 
de fugir de mim e me trazer de volta 
à casa a qualquer hora num fechar 
de páginas? 
Tudo o que sei é ela que me ensina. 
O que saberei, o que não saberei 
nunca, 
está na Biblioteca em verde murmúrio 
de flauta-percalina eternamente.

ANDRADE, Carlos Drummond de. ”Biblioteca Verde” apud. MARIA, Luiza de. A palavra mágica.10ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2003 (29-31). 

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