Licensa

15/01/2015

A volta

De repente as pessoas foram chegando.

Aquele barulho que rangeu durante toda a madrugada cessou o que dava a entender que a porta estava aberta:

- Pelo menos não me incomodarei mais com ela.

Na verdade, nada me incomoda mais – pensou enquanto percebia as pessoas chegando – Nem as pessoas, barulhos, problemas….

Vendo daqui, lamento por ter me preocupado tanto. Se eu soubesse que simplesmente não valeria a pena…

Alguém segura sua mão:

- Fique tranquilo, estou aqui. – A voz era conhecida, mas ele estava cansado demais para olhar. Ainda mais que os pensamentos não cessavam:

Porque será que consigo sentir a energia das pessoas? Parece que, invisíveis, elas invadem o ar e cada partícula de oxigênio fica impregnada de tudo o que sai de seus corações.

Ouço vozes, mas estou em silêncio. Quanto mais quieto, mais me ouço…

Agora a porta rangeu, parecia sendo fechada.

Se fecharam, é porque todos estão aqui - pensou - O que será que vão fazer depois ?

Que música é essa? Parece vir do estacionamento…

Instrumento de corda, vozes…coral? Deixe-me ouvir…

A melodia que vinha do estacionamento não conflitava com a que ouvia nas vozes dos que se concentravam ali, apesar de serem ouvidas ao mesmo tempo.

Quer dizer que nessas horas a gente ouve música…

Porque será que não percebo mais o tempo? Parece que 40 anos acontecem em um instante. Vejo tudo: As árvores da rua, mãe chorando, brincadeiras de criança, os passos, voltas, idas, vindas, choros, sorrisos…Tudo de volta! Ou será que nunca saíram daqui?

De repente sou que sempre fui e não consigo mais me dissociar em fases. Sou e pronto.

Sinto como se em mim encerrasse o menino que subia em árvores, o adolescente tímido, o homem que cantava, a criança que chorava a noite e o pai que levantava para cuidar. Sou todos eles e aquele que não vou ser: O senhor grisalho, o avô pacificado; estão todos em mim.

Ouve alguém soluçando mas isso não o detém:

É como se o tempo não existisse mais. Sou todos que fui e serei, o tempo agora vive em meu coração. Se o passado e futuro estão no agora, finalmente percebo que não tenho fim.

O volume da música do estacionamento aumenta a medida em que as vozes do quarto diminuem:

Agora sei. Essa música…- Era harmoniosa, parecia som de violino mas sabia que não era - …essa música, eu conheço…

Começa a lembrar dos frequentes sonhos onde era compositor. Neles, as músicas fluíam e se pareciam muito com a que ouvia agora.:

Sou todas as estações e um pouco de cada tempo. Tudo o que fui ainda é, e o que serei reflete em mim. O tempo já foi, e agora vejo tudo em um plano só. Foi hoje que nasci, cresci, amadureci e hoje voltarei para casa.

Não precisava abrir os olhos: ele via.

As vozes ficavam ainda mais distantes, ainda cantavam algo sobre um vaso na mão de um oleiro, mas estavam distantes.

Os pensamentos cessaram.

A sensação era de leveza, paz , acolhimento inexplicável.

Já não ouvia vozes.

Agora a música estava nítida e nada mais parecia tão importante.

Uma incrível sensação de unidade e a percepção de que o momento seria eterno.

As mãos que seguravam a sua se transformam em abraço.

Não vê ninguém mas sente.

Agora tudo estava em paz.

Tinha voltado para casa. Fonte

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