Licensa

24/01/2015

A Garça Velha - Monteiro Lobato

Certa garça nascera, crescera e sempre vivera à margem duma lagoa de águas turvas, muito rica em peixes.
Mas o tempo corria e ela envelhecia. Seus músculos cada vez mais emperrados, os olhos cansados - com que dificuldade ela pescava!
- Estou mal de sorte, e se não topo com um viveiro de peixes em águas bem límpidas, certamente que morrerei de fome. Já se foi o tempo feliz em que meus olhos penetrantes zombavam do turvo desta lagoa...
E de pé num pé só, o longo bico pendurado, pôs-se a matutar naquilo até que lhe ocorreu uma ideia.
- Caranguejo, venha cá! - disse ela a um caranguejo que tomava sol à porta do seu buraco.
- Às ordens. Que deseja?
- Avisar a você duma coisa muito séria. A nossa lagoa está condenada. O dono das terras anda a convidar os vizinhos para assistirem ao seu esvaziamento e o ajudarem a apanhar a peixaria toda. Veja que desgraça! Não vai escapar nem um miserável guaru.
O caranguejo arrepiou-se com a má notícia. Entrou na água e foi contá-la aos peixes.
Grande rebuliço. Graúdos e pequeninos, todos começaram a pererecar às tontas, sem saberem como agir. E vieram para a beira d'água.
- Senhora dona do bico longo, dê-nos um conselho, por favor, que nos livre da grande calamidade.
- Um conselho?
E a matreira fingiu refletir. Depois respondeu.
- Só vejo um caminho. É mudarem-se todos para o poço da Pedra Branca.
- Mudar-se como, se não há ligação entre a lagoa e o poço?
- Isso é o de menos. Cá estou eu para resolver a dificuldade. Transporto a peixaria inteira no meu bico.
Não havendo outro remédio, aceitaram os peixes aquele alvitre - e a garça os mudou a todos para o tal poço, que era um tanque de pedra, pequenininho, de águas sempre límpidas e onde ela sossegadamente poderia pescá-los até o fim da vida.
Moral da Estória:
Ninguém acredite em conselho de inimigo. Fonte

Escolher pela pacificação

Veja como nossas sociedades se organizam sobre a tal luta pela sobrevivência, supervalorizando o “deus” mercado, permitindo que a economia fundamente nossas “castas” e hierarquias, formatando mentes, fundamentando valores, doutrinando jovens que passarão a vida tentando adequar-se a um sistema que poderá premiá-los, quem sabe, ungindo-os como fieis e valorosos soldados.

Quem vive preocupado com a própria sobrevivência não sente, não cria, não pensa, não vê. Ou você acha que existe outra razão para que as tais preocupações sempre estejam na pauta de quem cria as causas que ocuparão nossas mentes?

Precisamos retomar a dimensão da simplicidade, que não está em nada, não é uma meta a ser conquistada porque é um estágio interior. Não está fora, jamais estará, mas dentro. Você não tem mais problemas do que as outras pessoas, não se auto vitimize, apenas enxergue como reclama demais, grita demais, sofre além do necessário. É por isso que não consegue ver.

Pare de se pre-ocupar. Suas preocupações não resolverão nada. Pare. Entregue-se a fluxo natural que encaminha todas as coisas , eloquente em significados, sábio em cada desfecho. Com o tempo tudo ficará claro e a paz será seu árbitro, mas, agora é importante que entenda: enquanto andar preocupado estará mais distante de enxergar as soluções. Permanecerá confuso em seus próprios devaneios.
Independente dos cenários, pacificar-se é uma escolha sua, um caminho que pode ser seu. Fonte

CÍRCULO -

O círculo
é astuto:
enrola-se
envolve-se

autofagicamente.

Depois
explode
— galáxias! —

abre-se
vivo
pulsa

multiplica-se

divindadecírculo
perplexa
(perversa?)

o unicírculo
devorando
tudo.
FONTELA, Orides. Poesia reunida (1969-1996). São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006. 376 p. (Coleção Ás de colete, v. 12) 14,5x21,5 cm. capa dura.Capa e projeto gráfico: Elaine Ramos. ISBN 85-7503-138-4 – 85-7503-478-2 (Cosac Naif) e 85-7577-254-6 (Viveiros de Castro). Col. Bibl. Antonio Miranda

FALA - ORIDES FONTELA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

17/01/2015

529 mil alunos ficaram com nota zero na redação do Enem 2014, diz MEC

Tema da redação foi publicidade infantil
(Foto: Reprodução/TV Globo)
O Ministério da Educação divulgou na tarde desta terça-feira (13) o balanço final da edição de 2014 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Segundo a pasta, prestaram o exame 6.193.565 candidatos (71% do total de 8.721.946 inscritos).
Entre os alunos participantes, 529.374 obtiveram nota zero na redação da prova (8,5% dos candidatos). Deste número, foram anuladas 248.471 redações. O MEC informou ainda que 250 candidatos tiveram nota mil na redação – a máxima possível. Além disso, pouco mais de 35 mil alunos obtiveram notas entre 901 e 999.
(...)
Queda na média
Ainda segundo o MEC, a média das notas em redação teve uma queda de 9,7% em relação ao Enem de 2013 entre os alunos que estão concluindo o ensino médio. Em matemática, a queda foi de 7,3% em relação ao exame anterior.
Sobre a queda nas médias das notas de matemática e redação em relação ao ano passado, o ministro da Educação, Cid Gomes, afirmou que não considera que seja algo "tão significativo".
(...)
Segundo Cid Gomes, o tema da redação deste ano (publicidade infantil) não foi tão debatido pela mídia e pela sociedade brasileira quanto o tema de 2013 (lei seca). 
(...)
Nota da redação
O tema da redação do Enem 2014 foi "Publicidade infantil no Brasil". A nota de redação vai de 0 a 1.000 pontos. Um bom texto para ganhar nota 1.000 deve cumprir bem cinco competências exigidas pela redação do Enem. Cada competência tem cinco faixas que vão de 0 a 200 pontos.
Competência 1: Demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita.
Competência 2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
Competência 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
Competência 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários à construção da argumentação.
Competência 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
Cada redação do Enem foi corrigida por dois corretores de forma independente. A nota total de cada corretor corresponde à soma das notas atribuídas a cada uma das cinco competências.
Se houvesse discrepância entre as notas dos dois corretores por mais de 100 pontos, ou se a diferença de suas notas em qualquer uma das competências fosse superior a 80 pontos, a redação iria para um terceiro corretor.
Caso houvesse discrepância entre o terceiro corretor e os outros dois corretores, ou caso houvesse discrepância entre o terceiro corretor e apenas um dos corretores, a nota final seria a média aritmética entre as duas notas totais que mais se aproximaram. 
Se a nota do terceiro corretor tivesse diferença equidistante das notas dos outros dois corretores, ou se fosse completamente diferente, a redação seria avaliada por uma banca de três avaliadores para escolha da nota definitiva. Fonte

Mais Devagar - Conto Zen

Um jovem atravessou o Japão em busca da escola de um famoso praticante de artes marciais. Chegando ao dojo, foi recebido em audiência pelo Sensei. 
- O que você quer de mim? perguntou-lhe o mestre 
- Quero ser seu aluno e tornar-me o melhor karateca do país. Quanto tempo preciso estudar? 
- Dez anos, pelo menos.
- Dez anos é muito tempo respondeu o rapaz . E se eu praticasse com o dobro da intensidade dos outros alunos? 
- Vinte anos. 
- Vinte anos! E se eu praticar noite e dia, dedicando todo o meu esforço? 
- Trinta anos.
- Mas, eu lhe digo que vou dedicar-me em dobro, e o senhor me responde que a duração será maior? 
- A resposta é simples. Quando um olho está fixo aonde se quer chegar, só resta um para se encontrar o caminho. Fonte

16/01/2015

Hoje completamos 1000 posts!!!!

O início de tudo aconteceu em 14 de janeiro de 2012. Motivada em tentar partilhar com minha irmã Luciana as experiências vividas na direção / coordenação de uma escola pública, iniciei. Não sabia absolutamente "nada" sobre como postar, criar layout, inserir link, vídeo, imagem, arquivos, etc. Ajudada por minha filha Letícia, na época com 12 anos, fui aventurando-me. Percebi que nesse espaço poderia contar minha história profissional, como também a de muitos educadores que fizeram e ainda fazem parte da minha carreira. 
Em pouco tempo "nasceu" uma blogueira! Não imaginava quanto prazer esse trabalho me traria. Em 2012, ainda como diretora, partilhei muitas experiências e atividades desenvolvidas na escola que eu liderava.  A partir de 2013, passei a trabalhar na Secretaria da Educação e em função disso as postagens tomaram outro "rumo". Passei a registrar não mais práticas, mas somente textos, vídeos e materiais ligados a educação e simultaneamente criei outro blog para registrar as atividades desse novo local de trabalho. Clique aqui para conhecer. 
O Segundo blog foi criado em 20 de janeiro de 2013 e possui até a presente data 775 posts. Os números assustam! Somando-se os posts dos dois blogs são 1775 posts. Se observarmos o número de visitantes verificaremos que 303.267 pessoas acessaram esse blog e 155.278 o blog da Secretaria da Educação totalizando 458.545 visitantes. Agradeço a todos que visitaram e principalmente aqueles que contribuíram estabelecendo uma interlocução comigo.

Você recebe da vida o que dá – Por Flávio Siqueira


Quem fica preocupado com o destino do dinheiro que está doando, não está doando, está investindo. E está procurando uma boa desculpa pra não ter que se desfazer do próprio dinheiro. Nem deveria “doar”. Doação só é doação quando damos e nos desprendemos daquele valor. Quando aquele valor, que normalmente já é uma ninharia, deixa de fazer parte da nossa vida. O dinheiro da doação não é mais seu. Se com o dinheiro da doação o sujeito vai comprar comida ou vai cheirar tudo, isso não lhe diz mais nenhum respeito. Essa responsabilidade será cobrada do sujeito, pela vida, no momento certo. Entendo que é razoável se preocupar com o destino do dinheiro de doações, mas o que eu quero aqui é chamar atenção para o fato de que não podemos controlar tudo. Quem vai lhe garantir que o dinheiro que você costuma doar para aquela instituição pela qual você põe a mão no fogo já não pagou um jantar chique e particular – ou quaisquer outros benefícios particulares – para algum dos responsáveis pela instituição? A doação é um exercício de desapego. Ela deve beneficiar mais quem doa do que quem recebe. Todas as pessoas que lhe pedem dinheiro ou qualquer tipo de doação são como professores que vêm lhe ensinar e lhe conceder uma oportunidade para você exercitar e praticar a generosidade. E tenho acreditado cada vez mais que quando uma pessoa muito debilitada vem nos pedir ajuda, temos OBRIGAÇÃO de ajudar só por termos tido a bênção de não estarmos naquela situação. As igrejas sempre são muito criticadas pelo modo como impõe aos fiéis certa obrigação quanto à doação. É fato que muitas delas extrapolam. Mas primeiramente, devemos reconhecer que há plena coerência em esperar dos fiéis alguma retribuição financeira para a manutenção da estrutura da igreja em troca do conforto espiritual que oferecem ao povo gratuitamente. Em segundo, devemos saber que muitas delas também trabalham fortemente com a caridade, de uma forma muitas vezes anônima, justificando ainda mais o estímulo à doações (lembrando que oferecer conforto espiritual aos outros também é uma forma de caridade). Deus realmente não precisa de dinheiro, mas há muita gente que precisa. E por fim, depois que descobri que até certas ordens iniciáticas possuem recolhimento de donativos, passei a entender melhor o dízimo evangélico. Embora SIM, muitos líderes evangélicos tenham feito fortuna com o dízimo alheio, também é verdade que as igrejas oferecem uma grande oportunidade às pessoas de exercitarem sua generosidade, num estímulo a uma postura mais humana e menos egoísta por parte do indivíduo. E nem sempre doação é mera doação. Muitas vezes você pode ajudar MUITO uma pessoa comprando o que ela tem pra vender, mesmo que você não precise do que ela está vendendo. Você pode pegar o item comprado e dar para qualquer um, depois. O importante é ajudar quem está ali batalhando pela vida, muitas vezes em situações de precariedade financeira. Uma comprinha que para você é casual pode salvar o dia de quem está precisando de uns trocados. Enfim, são pontos de vista que pode nos ajudar a sermos menos mesquinhos e calculistas e mais generosos e úteis. 

"Bata Nela!"

Vídeo mostra reação surpreendente de meninos ao serem incentivados a bater em menina
Em campanha anti-violência contra a mulher, jornalista italiano pede que garotos de seis a onze anos deem um tapa em menina desconhecida. E a resposta foi unânime: “Não”. Já os motivos variam – e surpreendem!
"O que acontece quando colocamos um menino diante de uma menina e pedimos para que ele bata nela?" Com este questionamento em mente, o jornalista italiano Luca Lavarone decidiu reproduzir a cena em questão frente às câmeras com meninos de seis a onze anos, em um minidocumentário recém-divulgado e intitulado “Slap her!” (Bata nela!).
Para iniciar o experimento, Luca pergunta aos meninos qual o nome, idade e o que querem ser quando crescer. “Bombeiro”, “Jogador de Futebol”, “Padeiro”, “Policial”, “Pizzaoilo”, disseram sem titubear.
Na sequência, Martina, uma garota tão jovem quanto eles, entra em cena. A postos, diante dela, eles seguem respondendo às perguntas do câmera...
- O que você gosta nela?
- Eu gosto dos olhos.
- Dos sapatos e das mãos.
- Seus olhos, seus cabelos.
- Só do cabelo, eu juro!
- Tudo..
A garota se depara inclusive com um pedido de namoro. Na sequência, eles são incentivados a acariciar Martina e, depois, a fazer uma careta para a garota.
Mas eis que todos são surpreendidos com seguinte pedido: “Bata nela”. E sem hesitar, a resposta é unânime: “Não”. Logo em seguida, o jornalista questiona um a um sobre a negativa. E as respostas surpreendem: “Porque ela é uma menina, não posso fazer isso”, “Porque ninguém deveria bater em meninas”, “Não quero machucá-la”, “Jesus não quer que a gente bata nos outros”, “Primeiramente, não posso agredi-la, porque ela é bonita e é uma menina. Como dizem, ‘meninas não devem apanhar, nem com uma flor’”, “Porque sou contra a violência”, “Porque sou homem”.
Com o experimento, Luca pretendia descobrir a reação de crianças em relação à violência contra a mulher, entender como isso muda ao longo do amadurecimento e conscientizar. Fonte

15/01/2015

A Escolinha do Mar (História Infantil de Ruth Rocha)

Nesta escola, as aulas são muito diferentes.
Faz muito tempo que essa história se passou.

DAS PEDRAS - Por Cora Coralina


Ajuntei todas as pedras 
que vieram sobre mim. 
Levantei uma escada muito alta 
e no alto subi. 
Teci um tapete floreado 
e no sonho me perdi. 

Uma estrada, 
um leito 
uma casa, 
um companheiro. 
Tudo de pedra. 

Entre pedras 
cresceu a minha poesia. 
Minha vida... 
Quebrando pedras 
e plantando flores. 

Entre pedras que me esmagavam 
Levantei a pedra rude 
dos meus versos. 


©CORA CORALINA 
In Meu Livro de Cordel, 1998 

A ESCOLA DA MESTRA SILVINA - Por Cora Coralina


Minha escola primária... 
Escola antiga de antiga mestra. 
Repartida em dois períodos 
para a mesma meninada, 
das 8 às 11, da 1 às 4. 
Nem recreio, nem exames. 
Nem notas, nem férias. 
Sem cânticos, sem merenda... 
Digo mal - sempre havia 
distribuídos 
alguns bolos de palmatória... 
A granel? 
Não, que a Mestra 
era boa, velha, cansada, aposentada. 
Tinha já ensinado a uma geração 
antes da minha. 
A gente chegava “- Bença, Mestra.” 
Sentava em bancos compridos, 
escorridos, sem encosto. 
Lia alto lições de rotina: 
o velho abecedário, 
lição salteada. 
Aprendia a soletrar. 
Vinham depois: 
Primeiro, segundo, 
terceiro e quarto livros 
do erudito pedagogo 
Abílio César Borges - 
Barão de Macaúbas. 
E as máximas sapientes 
do Marquês de Maricá. 

Não se usava quadro-negro. 
As contas se faziam 
em pequenas lousas 
individuais. 

Não havia chamada 
e sim o ritual 
de entradas, compassadas. 
“- Bença, Mestra...” 

Banco dos meninos. 
Banco das meninas. 
Tudo muito sério. 
Não se brincava. 
Muito respeito. 
Leitura alta. 
Soletrava-se. 
Cobria-se o debuxo. 
Dava-se a lição. 

Tinha dia certo de argumento 
com a palmatória pedagógica 
em cena. 
Cantava-se em coro a velha tabuada. 
Velhos colegas daquele tempo... 
Onde andam vocês? 

A casa da escola inda é a mesma. 
- Quanta saudade quando passo ali! 
Rua Direita, nº 13. 
Porta de rua pesada, 
escorada com a mesma pedra 
da nossa infância. 

Porta do meio, sempre fechada. 
Corredor de lajes 
e um cheirinho de rabugem 
dos cachorros de Samélia. 
À direita - sala de aulas. 
Janelas de rótulas. 
Mesorra escura 
toda manchada de tinta 
das escritas. 
Altos na parede, dois retratos: 
Deodoro, Floriano. 

Num prego de forja, saliente na parede, 
estirava-se a palmatória. 
Porta de dentro abrindo 
numa alcova escura. 
Um velhíssimo armário. 
Canastras tacheadas. 
Um pote d’água. 
Um prato de ferro. 
Uma velha caneca, coletiva, 
enferrujada. 
Minha escola da Mestra Silvina... 
Silvina Ermelinda Xavier de Brito. 
Era todo o nome dela. 

Velhos colegas daquele tempo, 
onde andam vocês? 

Sempre que passo pela casa 
me parece ver a Mestra, 
nas rótulas. 
Mentalmente beijo-lhe a mão. 
“- Bença, Mestra.” 
E faço a chamada de saudade 
dos colegas: 
Juca Albernaz, Antônio, 
João de Araújo, Rufo. 
Apulcro de Alencastro, 
Vítor de Carvalho Ramos. 
Hugo da Tropas e Boiadas. 
Benjamim Vieira. 
Antônio Rizzo. 
Leão Caiado, Orestes de Carvalho. 
Natanael Lafaiete Póvoa. 
Marica. Albertina Camargo. 
Breno - “Escuto e tua voz vai 
se apagando com um dolente ciciar 
de prece”. 
Alberico, Plínio e Dante Camargo. 
Guigui e Minguito 
de Totó dos Anjos. 
Zoilo Remígio. 
Zelma Abrantes. 
Joana e Mariquinha Milamexa. 
Marica Albertina Camargo. 
Zu, Maria Djanira, Adília. 
Genoveva, Amintas e Teomília. 
Alcides e Magnólia Craveiro. 
Pequetita e Argentina Remígio. 
Olímpia e Clotilde de Bastos. 
Luisita e Fani. 
Nicoleta e Olga Bonsolhos. 
Laura Nunes. 
Adélia Azeredo. 
Minha irmã Helena. 
(Eu era Aninha.) 
Velhos colegas daquele tempo. 
Quantos de vocês respondem 
esta chamada de saudades 
e se lembram da velha escola? 

E a Mestra?... 
Está no Céu. 
Tem nas mãos um grande livro de ouro 
e ensina a soletrar 
aos anjos. 

©CORA CORALINA 
In Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais, 1965 

O dia chamado hoje - A ilusão do tempo

Existo no hoje, descanso minha mente, tento não sobrecarregá-la com miragens e exercito, hoje, a gratidão de quem sabe que tudo é oportunidade para que eu veja o sentido do agora, para que eu aprenda a amar e não me preocupar com nada que seja menor do que esse espaço, onde todas as coisas acontecem, se renovam, se transformam, cabem em um frame, um fragmento de tempo que só sei chamar de hoje. Fonte

A volta

De repente as pessoas foram chegando.

Aquele barulho que rangeu durante toda a madrugada cessou o que dava a entender que a porta estava aberta:

- Pelo menos não me incomodarei mais com ela.

Na verdade, nada me incomoda mais – pensou enquanto percebia as pessoas chegando – Nem as pessoas, barulhos, problemas….

Vendo daqui, lamento por ter me preocupado tanto. Se eu soubesse que simplesmente não valeria a pena…

Alguém segura sua mão:

- Fique tranquilo, estou aqui. – A voz era conhecida, mas ele estava cansado demais para olhar. Ainda mais que os pensamentos não cessavam:

Porque será que consigo sentir a energia das pessoas? Parece que, invisíveis, elas invadem o ar e cada partícula de oxigênio fica impregnada de tudo o que sai de seus corações.

Ouço vozes, mas estou em silêncio. Quanto mais quieto, mais me ouço…

Agora a porta rangeu, parecia sendo fechada.

Se fecharam, é porque todos estão aqui - pensou - O que será que vão fazer depois ?

Que música é essa? Parece vir do estacionamento…

Instrumento de corda, vozes…coral? Deixe-me ouvir…

A melodia que vinha do estacionamento não conflitava com a que ouvia nas vozes dos que se concentravam ali, apesar de serem ouvidas ao mesmo tempo.

Quer dizer que nessas horas a gente ouve música…

Porque será que não percebo mais o tempo? Parece que 40 anos acontecem em um instante. Vejo tudo: As árvores da rua, mãe chorando, brincadeiras de criança, os passos, voltas, idas, vindas, choros, sorrisos…Tudo de volta! Ou será que nunca saíram daqui?

De repente sou que sempre fui e não consigo mais me dissociar em fases. Sou e pronto.

Sinto como se em mim encerrasse o menino que subia em árvores, o adolescente tímido, o homem que cantava, a criança que chorava a noite e o pai que levantava para cuidar. Sou todos eles e aquele que não vou ser: O senhor grisalho, o avô pacificado; estão todos em mim.

Ouve alguém soluçando mas isso não o detém:

É como se o tempo não existisse mais. Sou todos que fui e serei, o tempo agora vive em meu coração. Se o passado e futuro estão no agora, finalmente percebo que não tenho fim.

O volume da música do estacionamento aumenta a medida em que as vozes do quarto diminuem:

Agora sei. Essa música…- Era harmoniosa, parecia som de violino mas sabia que não era - …essa música, eu conheço…

Começa a lembrar dos frequentes sonhos onde era compositor. Neles, as músicas fluíam e se pareciam muito com a que ouvia agora.:

Sou todas as estações e um pouco de cada tempo. Tudo o que fui ainda é, e o que serei reflete em mim. O tempo já foi, e agora vejo tudo em um plano só. Foi hoje que nasci, cresci, amadureci e hoje voltarei para casa.

Não precisava abrir os olhos: ele via.

As vozes ficavam ainda mais distantes, ainda cantavam algo sobre um vaso na mão de um oleiro, mas estavam distantes.

Os pensamentos cessaram.

A sensação era de leveza, paz , acolhimento inexplicável.

Já não ouvia vozes.

Agora a música estava nítida e nada mais parecia tão importante.

Uma incrível sensação de unidade e a percepção de que o momento seria eterno.

As mãos que seguravam a sua se transformam em abraço.

Não vê ninguém mas sente.

Agora tudo estava em paz.

Tinha voltado para casa. Fonte

Espero...

Espero que antes de ficar rico, você conheça seus limites. Para que, ao se sentir poderoso, possa lembrar que na verdade não é.

Espero que antes de ficar com o corpo ideal, você saiba que mais vale o que está dentro do que fora. Cuide-se, alimente-se com saúde, mas que seja para o bem, não para seguir a moda, tampouco para se apequenar em um corpão.

Espero que antes que seu projeto dê certo, você se acerte consigo. Para que, depois que chegar lá não se perca, nem de você, de quem te ajudou e não esqueça dos caminhos que percorreu.

Espero que antes de encontrar a pessoa certa, você se encontre. Para que ao encontrá-la, não a sobrecarregue com ingrata responsabilidade de te fazer feliz.

Espero que antes de comprar aquele bem, você entenda que bem só é bom se for somente um bem. Para que não chegue o dia em que você olhe para seu patrimônio e lamente por ter perdido tanta coisa por tão pouco.

Espero que antes de se tornar conhecido, você se reconheça, e, conhecendo-se, mantenha os pés no chão.

Espero que antes de conquistar o emprego ideal, você se conquiste. Para que não precise de elogio ou reconhecimento, transformando-se em manipulador.

Espero que antes de se considerar importante, entenda que importância não se mede. Seja humilde, consciente de que importante é aquele que sabe que não é.

Espero que antes de grandes descobertas, você aprenda a perceber o mundo a sua volta em suas nuances, diversidades e complexidades. Assim entenderá que todas as respostas estão acessíveis àquele que simplesmente percebe.

Espero que antes de que suas obras impressionem os homens e te faça parecer grande perante eles, você se reconcilie com quem porventura tenha te ofendido e de fato perdoe. Dessa maneira andará livremente, em paz, reconciliado consigo mesmo e com o mundo.

Que suas conquistas sejam apenas reflexos de suas ações e nunca um fim em si mesmo.

Seus sonhos, reflexo de seus valores.

Seus caminhos, reflexo de quem você é.

Sem máscaras, sem maldade ou necessidade de auto afirmação; com luz nos olhos e a alegria de quem simplesmente percebe as coisas.

Desejo que seu caminho seja bom e suas escolhas fruto de um coração pacificado e nunca auto afirmações para um coração frágil e inseguro.

No fim das contas, todos os caminhos, projetos, realizações, sonhos e conquistas, são apenas reflexos de suas escolhas, daquelas que faz no dia a dia, de cada sim e não, do que elegeu como escala de valores, do que é importante para você e, sobretudo, de como você intimamente enxerga os outros, a vida e a si mesmo.

Quando o seu olhar é bom, todo o resto se iluminará. Se for mau, serão dias de muita escuridão.

É assim que espero. É assim que é. Fonte

11/01/2015

Ouvidos de orvalho


Poema do livro Biografia de uma árvore


Na eternidade, ninguém se julga eterno.
Aqui, nesta estada, penso que vou durar
além dos meus anos, que terei 
outra chance de reaver o que não fiz. 
Se perdoar é esquecer, me espera o pior:
serei esquecido quando redimido.

Não me perdoes, Deus. Não me esqueças.
O esquecimento jamais devolve seus reféns. 

A claridade não se repete. A vida estala uma única vez.

O fogo é uma noz que não se quebra com as mãos.
A voz vem do fogo, que somente cresce se arremessado. 
Não há como recuar depois de arder alto. 
Fui lançado cedo demais às cinzas.

Somos reacionários no trajeto de volta.
Quando estava indo ao teu encontro, 
arrisquei atalhos e travessas desconhecidas. 
Acreditei que poderia sair pela entrada.
Ao retornar, não improviso. 

Minha conversão é pelo medo, 
orando de joelhos diante do revólver,
sem volver aos lados,
na dúvida se é de brinquedo ou de verdade.

O vento faz curva. Não mexo nos bolsos, 
na pasta e na consciência,
nenhum gesto brusco de guitarra, 
a ciência de uma mira
e o gatilho rodando próximo
do tambor dos dentes. 

Derramado em Deus, junto meu desperdício. 

Vou te extraviando no ato de nomear.
Melhor seria recuar no silêncio. 

Cantamos em coro como animais da escureza.
Os cílios não germinaram. 
Falta plantio em nossas bocas, vegetação nas unhas,
estampas e ervas no peito. 
Suplicamos graves e agudos, espasmos e espanto,
compondo esquina com a noite. 

Cantar não é desabafo,
mas puxar os sinos 
além do nosso peso,
acordando a cúpula de pombas. 

Somos fumaça e cera,
limo e telha,
névoa e leme.
O inverno nos inventou.

Não importa se te escuto 
ou se explodes meus ouvidos de orvalho: 
morre aquilo que não posso conversar? 

Ficarei isolado e reduzido, 
uma fotografia esvaziada de datas. 
Os familiares tentarão decifrar quem fui 
e o que prosperou do legado.
Haverei de ser um estranho no retrato
de olhos vivos em papel velho. 

Escrevo para ser reescrito. 
Ando no armazém da neblina, tenso, 
sob ameaça do sol. 
Masco folhas, provando o ar, a terra lavada.
Depois de morto, tudo pode ser lido. 

Vejo degraus até no vôo. 
Tua violência é a suavidade.
Não há queda mais funda
do que não ser o escolhido, 
amargar o fim da fila, 
ser o que fica para depois,
o que enumera os amigos 
pelos obituários de jornal, 
o que enterra e se retrai no desterro, 
esfacela a rosa ao toque
na palidez das pétalas e velas, 
vistoriando cada ruga 
e infiltração de heras entre as veias, 
nunca adulto para compreender.

Não há nada de natural na morte natural.
Divorciar-se do corpo, tremer ao segurar
as pernas, acomodar-se no finito
de uma cama e deitar com o tumulto 
que vem de um túmulo vazio. Fonte

10/01/2015

O PODER ULTRAJOVEM - Por Carlos Drummond de Andrade

I
NO RESTAURANTE
— QUERO LASANHA.

Aquele anteprojeto de mulher — quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia — entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.

O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.

— Meu bem, venha cá.

— Quero lasanha.

— Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.

— Não, já escolhi. Lasanha.

Que parada — lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:

— Vou querer lasanha.

— Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.

— Gosto, mas quero lasanha.

— Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede fritada bem bacana de camarão. Tá?

— Quero lasanha, papai. Não quero camarão.

— Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?

— Você come camarão e eu como lasanha.

O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:

— Quero uma lasanha.

O pai corrigiu:

— Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.

A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:

— Moço, tem lasanha?

— Perfeitamente, senhorita.

O pai, no contra-ataque:

— O senhor providenciou a fritada?

— Já, sim, doutor.

— De camarões bem grandes?

— Daqueles legais, doutor.

— Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo?

— Uma lasanha.

— Traz um suco de laranja pra ela.

Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.

— Estava uma coisa, hem? — comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. — Sábado que vem, a gente repete... Combinado?

— Agora a lasanha, não é, papai?

— Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?

— Eu e você, tá?

— Meu amor, eu...

— Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.

O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com fôrça total, o poder ultrajovem.


Texto extraído do livro “O poder ultra jovem”, Ed. José Olympio – Rio de Janeiro, 1972, pág. 3.
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