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20/11/2014

O que é uma pessoa feliz? Rubem Alves*

De vez em quando um leitor me faz uma pergunta via e-mail. Sobre os assuntos mais variados: religião, psicanálise, casos amorosos... Podendo eu respondo.
Um leitor me fez a pergunta "O que é uma pessoa feliz?" Pensei: "Essa é fácil". Ele já me havia enviado duas cabeludas, cujas respostas inevitavelmente iriam fazer algumas pessoas franzir a testa em desaprovação. Mas esta, "o que considero uma pessoa feliz?", é fácil. Afinal de contas sou um psicanalista; devo ter conhecimento especializado sobre o assunto. Mas bastou que eu parasse para pensar, e descobri que ela é, talvez, a pergunta mais difícil que pode ser feita.
Posso responder à pergunta de maneira geral e abstrata: uma pessoa é feliz quando faz o que lhe dá prazer e quando vive uma relação de amor-amizade com alguém. Essa definição, que considero verdadeira, nunca se realiza. A gente não está nunca fazendo só o que gosta. A vida nos obriga a fazer muitas coisas desagradáveis, a engolir sapos. Eu mesmo tenho, em meu estômago, vários sapos vivos, não digeridos, que continuam a mexer e a coaxar. Além disso, essa relação de amor-amizade só acontece em momentos ou períodos curtos. Ela é logo interrompida por uma série de fatores indesejáveis que nos tornam intolerantes, irritadiços, rabugentos, distantes. Essa transformação se revela na mudança da música da fala.
Mas há uns trabalhos que a gente faz não pela alegria que o trabalho dá, mas por causa do produto final. Uma pessoa que trabalhe por causa do dinheiro que vai ganhar é o exemplo típico. Para tal pessoa, o que importa não é o que ela está fazendo, se é marcenaria, construção, ensinar, psicanalisar, vender drogas, advogar, fabricar colchões ou chicletes. Ela trocaria prazerozamente o que está fazendo por outra atividade totalmente diferente, desde que a outra lhe desse mais dinheiro. Melhor seria se ela ganhasse na loto - R$40.000.000,00 - para não precisar mais trabalhar pelo resto da vida. para tais pessoas o trabalho não é brinquedo; é trabalho forçado. Elas não sabem que o preço dessa inatividade rica é o tédio. Estão condenadas à infelicidade. Sobre isso leia os Manuscritos filosóficos de Marx, de 1844.
Segundo, é preciso que a gente ame e seja amado. Amar e ser amado é isso: pensar numa pessoa ausente e sorrir. Ficar feliz sabendo que ela vai voltar. Ter alguém que escute e dê colo, sem dar conselhos. Andar de mãos dadas conversando abobrinhas. Olhar nos olhos da pessoa e sentir que eles estão dizendo: "Como é bom que você existe!". Jogar frescobol com ela. Ser, simplesmente, sem pensar que há um par de olhos nos vigiando para nos cobrar algo. Conversar madrugada afora, sem pensar em sexo.
Guimarães Rosa disse mais ou menos o seguinte: "A coisa não está nem na partida e nem na chegada. Está na travessia". A felicidade não acontece no final, depois da transa, depois do casamento, depois do filho, depois da formatura, depois de construída a casa, depois da riqueza, depois da viagem. A felicidade acontece no dia-a-dia. Felicidade é fruto na beira do abismo. É preciso colhê-lo e degustá-lo agora. Amanhã, ou ela já caiu, ou você já caiu...
* Escritor. Teólogo. Educador
Fonte: Correio Popular online, 20/02/2011

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