Licensa

28/11/2014

VISÃO DE CLARICE LISPECTOR - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Clarice
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são joias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Discurso de Primavera, 1977

ACORDAR, VIVER - Por Carlos Drummond de Andrade

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Farewell, 1996

A UM AUSENTE - Por Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Farewell, 1996

EXPLICAÇÃO - Por Carlos Drummond de Andrade

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.

Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país,
[esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.

Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.

Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Alguma poesia, 1930

Canção de Itabira - Por Carlos Drummond de Andrade

(A Zoraida Diniz)

Mesmo a essa altura do tempo,
um tempo que já se estira,
continua em mim ressoando
uma canção de Itabira.

Ouvi-a na voz materna
que de noite me embalava,
ecoando ainda no sono,
sem que faltasse uma oitava.

No bambuzal bem no extremo
da casa da minha infância,
parecia que o som vinha
da mais distante distância.

No sino maior da igreja,
a dez passos do sobrado,
a infiltrada melodia
emoldurava o passado.

Por entre as pedras da Penha.
os lábios das lavadeiras
o mesmo verso entoavam
ao longo da tarde inteira.

Pelos caminhos em torno
da cidade, a qualquer hora,
ciciava cada coqueiro
essa música de outrora.

Subindo ao alto da serra
(serra que hoje é lembrança),
na ventania chegava-me
essa canção de bonança.

Canção que este nome encerra
e em volta do nome gira.
Mesmo que o silêncio a repete,
doce canção de Itabira.

(Carlos Drummond de Andrade. Corpo, 1984)

25/11/2014

O velhinho visita a fazenda - Por Carlos Ribeiro

Em 60 anos de carreira, calcula-se que ele tenha escrito mais de 15.000 crônicas, das quais 600 ganharam reedição em livros. Nos textos, pôde trabalhar temas caros a ele, como as casas, o tempo, a figura feminina. “E o que revelam as casas de Rubem Braga do próprio Rubem Braga? O que dizem do homem que as sente e do escritor que as registra? Já se disse algo sobre isto: a consciência do tempo, a percepção histórica, a recordação dos mortos e das ternuras findas, enfim, todo esse conjunto de elementos que remetem a uma melancolia do tempo perdido tão comum aos escritores que viveram, no século XX, a transição de uma sociedade ainda fortemente agrária para uma sociedade industrial, na qual coexistiam e ainda coexistem o arcaico e o moderno. Pode-se dizer que, de certa forma, a casa significa, para o cronista, um elo fundamental entre o passado e o futuro. Uma espécie de linha do tempo sem a qual tudo cai no esquecimento”, escreve Carlos Ribeiro no prefácio do livro.

É um velhinho de ar humilde, que tem sua casa em um subúrbio do Rio; ninguém dá nada por ele. Vale, entretanto, muitas centenas de milhares de cruzados — pois não é certo que o homem vale pelo que tem?

Gosta de viajar pelo interior do Estado do Rio, às vezes até Minas ou Espírito Santo — sempre de ônibus ou de trem. Conversa devagarinho com as pessoas que vai encontrando, gosta de falar sobre lavoura — “diz que a safra de milho este ano está muito grande, não é? O preço já caiu para um terço…”

Sua conversa agrada; ele quer saber quantos alqueires tem aquela fazenda — “muita mata? e o gado?” — e vai-se informando, sabendo das coisas. Não se interessa pelas fazendas prósperas; adora histórias de fazendeiros que estão estragando a propriedade, viúvas roubadas pelo administrador, metidas em negócios na cidade — e de repente se interessa por uma fazenda. Fonte

Meu Ideal Seria Escrever... Rubem Braga

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.
A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.
Saiba tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

VIR A SER - Por Padre Fábio de Melo

Eu procuro por mim.
Eu procuro por tudo o que é meu e que em mim se esconde.
Eu procuro por um saber que ainda não sei, mas que de alguma forma já sabe em mim.
Eu sou assim...
processo constante de vir a ser.
O que sou e ainda serei são verbos que se conjugam sob áurea de um mistério fascinante.
Eu me recebo de Deus e a Ele me devolvo.
Movimento que não termina porque terminar é o mesmo que deixar de ser.
Eu sou o que sou na medida em que me permito ser.
E quando não sou é porque o ser eu não soube escolher. Fonte

Meu Sonho - Por Cecília Meireles

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar. Fonte

Você é o que ninguém vê - Por Martha Medeiros

Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. 
Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. 
Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. 
Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima. 
Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia. 
Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê. Fonte

Desassossego

E ela só queria um lugar aconchegante nesse mundo de utopias,
Algo que lhe soasse em tom de liberdade e com sabor adocicado,
Nada além da paz de espírito, da compreensão de si e de todos.


Tinha fases como a lua,
Queria o brilho das estrelas,
Almejava a imensidão do Universo,
Mas era dentro de si que encontrava não as certezas,
Porém o vazio e o emaranhado de 'porquês'.


Talvez fosse ela uma desajustada nesse mundo tão supérfulo,
Ou talvez ela buscasse aquilo que lhe fosse "invisível para os olhos";
Apenas uma certeza tinha ela:
A de que era necessário ter paciência e esperar o vento vir buscá-la. Fonte

23/11/2014

As setas do caminho - Por Jussara Hoffmann.

Um dos aspectos mais fascinantes do Caminho de Santiago é o fato de todo o trajeto estar demarcado por setas amarelas que guiam os caminhantes. O trajeto completo do Caminho Francês ultrapassa 800 Km. As setas foram criação dos peregrinos, mas foram oficializadas em 1984 e, hoje, são reforçadas periodicamente por um grupo de voluntários. Além deles, muitos que fazem o caminho reforçam e criam novas setas, com fitas, pedras e de outras maneiras.
As setas estão por todo caminho, a tal ponto que é difícil perder o rumo. Elas estão desenhadas nos muros das casas, no chão, nas árvores, nas pedras, nas cercas... Basta procurar por elas de trechos em trechos ou nas encruzilhadas do caminho.
O que elas dizem de mais forte é que estamos indo na direção certa. Seguindo-as, muitos peregrinos, a pé, a cavalo, de bibicleta, cada um do seu jeito e a seu tempo, chega a Santiago há milhares de anos.
As setas também nos dizem que fazemos parte de uma experiência da humanidade, que muitos outros já viveram ou estão vivendo. Mesmo o peregrino solitário sente-se acompanhado, porque elas indicam que outros já passaram por ali e outros tantos passarão. De início, chegamos a dividar que elas estarão demarcando o caminho todo do tempo, por tantos quilômetros, e temos de confirmar nos mapas dos dias, aprendemos a confiar de tal maneira nas setas que não precisamos mais procurar por elas, como se viessem ao nosso encontro, e magicamente, nos acompanhassem. Nesse momento, então, o desconhecido, o inesperado, não assustam mais, porque temos a confiança de que as setas nos manterão no rumo certo. Fonte
Avaliar para promover: As setas do caminho. Jussara Hoffmann.

Avaliar: respeitar primeiro, educar depois - Por Jussara Hoffmann

Diz Marques (2001, p.12), que “na fala, a palavra que digo ou me escapa está dita. Não há como fugir ao fato. Mas na escrita posso apagá-la, suprimi-la ou substituí-la. No ato de escrever sinto-me dono de meu próprio texto. Posso mudá-lo a qualquer momento, destruí-lo até. Quando porém ele ganha mundo, quando passa ao domínio público, sinto que me fugiu, emancipou-se, escapou de meu alcance”. Como diz o autor, quando se publica um texto, não se sabe o destino que ele terá, que indiscrições sofrerá, ou se será útil ou não a alguém. Diz, entretanto, Benincá (2002), que é tarefa essencial de educadores a de constituir memórias de sua trajetória profissional. O registro reflexivo é um “olhar para dentro”, de onde emergem as intenções das ações, o contexto ressignificado pelos sujeitos que viveram essas ações.
Dando continuidade aos meus estudos e pesquisas e após uma série de programas de formação de professores, escrevi mais dois livros que narram toda essa trajetória: "O jogo do contrário em avaliação" (2005), atualmente na 8ª ed./2013 e "Avaliar: respeitar primeiro, educar depois" (2008), já na 5ª ed./2013. Também fiz parte, como co-autora de outras quatro publicações no Brasil, na Espanha e em Portugal.
(...)
Esta é uma parte das minhas memórias... até aqui. Depois de uma longa experiência como educadora e de ouvir que “não dá para mudar” porque os “outros” não deixam, venho convidando toda gente, nos últimos tempos, a me acompanhar no jogo do contrário em avaliação, o que venho alcançando com surpreendente sucesso, com muitos adeptos entre os professores que têm coragem de ousar, de inventar, de transformar a educação em nosso país. Fonte

21/11/2014

OS SONHOS E OS PROFESSORES - Por Augusto Cury

Professores, vocês não precisam de sonhos para ter eloquência, metodologia, conhecimento lógico. Nem precisarão de sonhos para gritar com os alunos, implorar silêncio em sala de aula, dizer que não terão futuro se não estudarem.
Mas precisarão de sonhos para transformar a sala de aula num ambiente prazeroso e atraente, que educa a emoção dos seus alunos, que os retira da condição de espectadores passivos para se tornarem atores do teatro da educação.
Precisarão de sonhos para esculpir em seus alunos a arte de pensar antes de reagir, a cidadania, a solidariedade, para que aprendam a extrair segurança na terra do medo, esperança na desolação, dignidade nas perdas.
Precisarão de sonhos para serem poetas da vida e acreditarem na educação, apesar de as sociedades modernas a colocarem em um dos últimos lugares em suas prioridades.
Precisarão de sonhos espetaculares para terem a convicção de que vocês são artesãos da personalidade e saberem que sem vocês nossa espécie não tem esperança, nossas primaveras não têm andorinhas, nosso ar não tem oxigênio, nossa inteligência não têm saúde.
Cury, Augusto, 1958
Nunca desista de seus sonhos / Augusto Cury. - Rio de Janeiro: Sextante, 2007.

20/11/2014

Ortografia na sala de aula

No módulo "Ortografia na sala de aula", tratamos de questões relativas ao ensino e à aprendizagem da norma ortográfica, um tema que constitui motivo de preocupação para pais, professores e alunos.Tradicionalmente, a ortografia tem sido concebida nas escolas como uma mera questão de repetição e de memorização. Em uma perspectiva distinta, compreendemos que a norma ortográfica deve ser considerada como um objeto de conhecimento que pode ser analisado, refletido, discutido e... compreendido.

O que é uma pessoa feliz? Rubem Alves*

De vez em quando um leitor me faz uma pergunta via e-mail. Sobre os assuntos mais variados: religião, psicanálise, casos amorosos... Podendo eu respondo.
Um leitor me fez a pergunta "O que é uma pessoa feliz?" Pensei: "Essa é fácil". Ele já me havia enviado duas cabeludas, cujas respostas inevitavelmente iriam fazer algumas pessoas franzir a testa em desaprovação. Mas esta, "o que considero uma pessoa feliz?", é fácil. Afinal de contas sou um psicanalista; devo ter conhecimento especializado sobre o assunto. Mas bastou que eu parasse para pensar, e descobri que ela é, talvez, a pergunta mais difícil que pode ser feita.
Posso responder à pergunta de maneira geral e abstrata: uma pessoa é feliz quando faz o que lhe dá prazer e quando vive uma relação de amor-amizade com alguém. Essa definição, que considero verdadeira, nunca se realiza. A gente não está nunca fazendo só o que gosta. A vida nos obriga a fazer muitas coisas desagradáveis, a engolir sapos. Eu mesmo tenho, em meu estômago, vários sapos vivos, não digeridos, que continuam a mexer e a coaxar. Além disso, essa relação de amor-amizade só acontece em momentos ou períodos curtos. Ela é logo interrompida por uma série de fatores indesejáveis que nos tornam intolerantes, irritadiços, rabugentos, distantes. Essa transformação se revela na mudança da música da fala.
Mas há uns trabalhos que a gente faz não pela alegria que o trabalho dá, mas por causa do produto final. Uma pessoa que trabalhe por causa do dinheiro que vai ganhar é o exemplo típico. Para tal pessoa, o que importa não é o que ela está fazendo, se é marcenaria, construção, ensinar, psicanalisar, vender drogas, advogar, fabricar colchões ou chicletes. Ela trocaria prazerozamente o que está fazendo por outra atividade totalmente diferente, desde que a outra lhe desse mais dinheiro. Melhor seria se ela ganhasse na loto - R$40.000.000,00 - para não precisar mais trabalhar pelo resto da vida. para tais pessoas o trabalho não é brinquedo; é trabalho forçado. Elas não sabem que o preço dessa inatividade rica é o tédio. Estão condenadas à infelicidade. Sobre isso leia os Manuscritos filosóficos de Marx, de 1844.
Segundo, é preciso que a gente ame e seja amado. Amar e ser amado é isso: pensar numa pessoa ausente e sorrir. Ficar feliz sabendo que ela vai voltar. Ter alguém que escute e dê colo, sem dar conselhos. Andar de mãos dadas conversando abobrinhas. Olhar nos olhos da pessoa e sentir que eles estão dizendo: "Como é bom que você existe!". Jogar frescobol com ela. Ser, simplesmente, sem pensar que há um par de olhos nos vigiando para nos cobrar algo. Conversar madrugada afora, sem pensar em sexo.
Guimarães Rosa disse mais ou menos o seguinte: "A coisa não está nem na partida e nem na chegada. Está na travessia". A felicidade não acontece no final, depois da transa, depois do casamento, depois do filho, depois da formatura, depois de construída a casa, depois da riqueza, depois da viagem. A felicidade acontece no dia-a-dia. Felicidade é fruto na beira do abismo. É preciso colhê-lo e degustá-lo agora. Amanhã, ou ela já caiu, ou você já caiu...
* Escritor. Teólogo. Educador
Fonte: Correio Popular online, 20/02/2011

19/11/2014

O que é que você faria? Por Rubem Alves

O escritor Rubem Alves publicou no Correio Popular, de Campinas, caderno C, página C-2, de 18 de julho de 2004, uma bela crônica intitulada O que é que você faria? Consideramo-la muito oportuna. Embora longa (quase uma página), destacamos ao leitor o teor principal. Ele traz uma estória no artigo e usa um exemplo médico, desculpando-se pela comparação, para citar como é importante a maneira de dizer as coisas ou, se quisermos, como dizemos e a quem. Pois esta maneira pode destruir vidas e sonhos.
A estória citada pelo escritor comenta o relacionamento de um casal que muito se ama. Ela desenvolveu um câncer no seio e teve que extraí-lo, mas isso não abalou o relacionamento do casal, apesar das dores e aflições. Em cinco anos, o outro seio também foi afetado, mas o bom e amigo médico que antes a atendera já havia morrido.
Procuraram outro médico, mas este, completamente insensível às dores do casal e especialmente da mulher, ao vê-la sem um seio, já exclamou friamente: “Mas a senhora já não tem um seio... Seu caso é muito mais grave do que eu imaginava”.
E o escritor, comentando a própria estória, colocou em seu texto: “Fico a me perguntar: Por que é que ele falou o que falou? Não falou para informar mulher e marido de uma coisa que não soubessem. Eles sabiam que ela não tinha um seio. Também não falou para certificar-se de algo que estava vendo mas não via bem, por ser ruim dos olhos, pois ele enxergava muito bem. E qual a razão do seu frio, imediato e cruel diagnóstico. Para que falou isso? Era necessário? Não, não era necessário. Seu diagnóstico em nada contribuiu para o tratamento daquela mulher. Ou será que ele falou assim por inocência? Não imaginava o veneno que suas palavras carregavam? Não imaginava o efeito de suas palavras sobre aquela mulher despida, sem um seio, humilhada, amedrontada. Se falou por inocência digo que o dito médico só pode ser um idiota que nada conhece sobre os seres humanos”.
E continua: “Crueldade não é algo que somente existe nas câmaras de tortura. Ela se faz também com palavras. Há palavras cruéis que apagam a tênue chama da esperança. (...)” E pergunta em seguida: “(...) qual é o lugar, nos currículos de medicina, onde tanta coisa complicada se ensina, para uma meditação sobre a compaixão? É na compaixão que a ética se inicia e não nos livros de ética médica. Ah! Dirão os responsáveis pelos currículos – compaixão não é coisa científica. Não entra na descrição dos casos clínicos. Não pode ser comunicada em congressos. Portanto, não tem dignidade acadêmica. Certo. Mas acontece que não somos automóveis a serem consertados por mecânicos competentes. Somos seres humanos. Amamos a vida, queremos viver. Sofremos de dores físicas e de dores da alma: o medo, a solidão, a impotência, a morte. O que esse médico fez não tem conserto. Uma vez feito a ferida sangra. Palavras não podem ser recolhidas. O sofrimento foi plantado.(...)” Fonte

14/11/2014

Manoel de Barros – 1916 - 2014

Retrato do artista quando coisa
A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas. Fonte

13/11/2014

Imagine - John Lennon

Imagine Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazer
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que sou um sonhador
Mas não sou o único
Tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade do Homem
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que sou um sonhador
Mas não sou o único
Tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só Fonte

09/11/2014

Angra dos Reis - Por Eliane Maria Vani Ortega

Um lugar cercado pela natureza exuberante.
Envolvido pelo morro repleto de belezas.
Pelo mar inconstante.
Pessoas felizes comemoram o fim de um ano.
A chegada de outro.
Risos, brindes.
Fogos de artifício.
Chuva.
O morro repleto de belezas ficou extasiado com tantos fogos.
E com tanta chuva.
Desejou brindar também.
Á chegada de um novo ano. Feliz ano novo!
Brindou sem medo, de maneira impetuosa.
Causou dor, lágrimas.
Separou os amantes.
Calou a voz dos que brindavam.
Feriu os corações dos que ficaram.
Sujou a água do mar.
Silenciou os risos das crianças.
Acho que o morro foi acordado pelos fogos.
Ficou impressionado e resolveu participar da festa.
Talvez não soubesse que seu desejo mataria o sonho das pessoas.
O sonho de permanecerem vivas no ano que se iniciava.
O morro pede perdão por não ter controlado seu desejo.

(Em homenagem às vítimas do deslizamento em Angra dos Reis, em janeiro de 2010)
Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 64 - Maio / 2010

03/11/2014

Cidadezinha - Por Mário Quintana

Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...

Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo...
E fica a torre, sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!...

Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!

Lá toda a vida poder morar!
Cidadezinha... Tão pequenina
Que toda cabe num só olhar...

Mario Quintana. Prosa e verso. 9ª- ed.
São Paulo: Globo, 2005. © by Elena Quintana

Milagre no Corcovado - Ângela Leite


Todas as noites 
de céu nublado
no Corcovado
faz seu milagre
o Redentor:
fica pousado
no algodão-doce
iluminado
como se fosse
de isopor.

Mas todos sabem
que bem de perto
esse Jesus
é um gigante
de mais de mil
e cem toneladas...
Suba de trem,
vá pela estrada,
quem chega lá,
ao pé do Cristo,
vira mosquito.

E olhando em volta
para a cidade
de ponta a ponta
maravilhosa
a gente sente
um arrepio:
o milagre
é o próprio Rio!

Ângela Leite de Souza. Meus Rios.
Belo Horizonte: Formato, 2000.

Carro de Pau - Por Fernando Pessoa


O carro de pau
Que bebê deixou...
Bebê já morreu,
O carro ficou...

O carro de pau
Tombado de lado...
Depois do enterro
Foi alí achado...

Guardaram o carro.
Guardaram o bebê.
A vida e os brinquedos
Cada um é o que é.

Está o carro guardado.
Bebê vai esquecendo.
A vida é pra quem
Continua vivendo...

E o carro de pau
É um carro que está
Guardado num sótão
Onde nada há...



© FERNANDO PESSOA 
In Obra Poética e em Prosa. Vol. I, 1986 
Ed. Lello, Porto 

Cidadezinha cheia de graça - Por Mário Quintana

Casario, 1943
Milton da Costa ( Brasil 1915 – 1988)
óleo sobre madeira, 32 x 41 cm
Coleção Particular


Cidadezinha cheia de graça…
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça…
Sua igrejinha de uma torre só.


Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca, nem um segundo…
E fica a torre sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!…


Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo ( que triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!


Lá toda a vida poder morar!
Cidadezinha… Tão pequenina
Que toda cabe num só olhar…


Em: Mário Quintana, Prosa e verso - série paradidática — Porto Alegre, Editora Globo: 1978

A CANOA - Por Paulo Freire

Em um largo rio de difícil travessia havia um barqueiro que atravessava as pessoas de um lado para o outro...
Em uma das viagens, estavam um advogado e uma professora.
Como quem gosta de falar muito, o advogado perguntou ao barqueiro: 
- Companheiro, você entende de leis? 
- Não. - respondeu o barqueiro... 
E o advogado, compadecido: 
- É pena, você perdeu metade da vida! 
A professora, muito social, entrou na conversa: 
- "Seu" barqueiro, você sabe ler e escrever?
- Não, senhora. - respondeu. 
- Que pena! - disse a mestra - você perdeu metade da vida! 
De repente, uma onda bastante forte vira a canoa e o barqueiro preocupado perguntou:
- Vocês sabem nadar? 
- Não! - responderam eles rapidamente. 
- Que pena - concluiu o barqueiro - vocês estão prestes a perder as suas vidas... 
Com isso, a gente chega a uma importante e sábia conclusão:

Não há saber maior ou menor: Há saberes diferenciados! Aprenda com o talento das outras pessoas!