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11/10/2014

Ensine os seus filhos a lidar com as diferenças

De: Teresa Paula Marques, psicóloga clínica/psicoterapeuta 
In: Certa – 29.Julho-10 Agosto 2008

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O tema “diversidade” é hoje muito abordado, sobretudo em meio escolar. As crianças podem ser diferentes em áreas que vão desde alguma deficiência física ou mental até excesso de peso, passando pela cor da pele, isto é, tudo o que possa fugir das características-tipo da sala de aula e da escola.
Assim, é na escola que se pode privilegiar a educação dos comportamentos sociais de aceitação dos outros ditos “diferentes”, tendo os professores um importante papel.

Uma questão de auto-estima
Acontece com alguma frequência que é o outro, o “diferente”, que inicia um processo de auto-exclusão, que passa por evitar os momentos de recreio ou apenas juntar-se aos outros, que também não se sentem iguais aos demais colegas. Certo é que este comportamento resulta de uma auto-estima baixa, muitas vezes motivada por mensagens transmitidas pela família, também ela vítima de alguma exclusão social. Aliás, quem lida diariamente com crianças de tenra idade facilmente se apercebe de que não excluem ninguém. É-lhes completamente irrelevante se o colega é pobre, negro, de outra religião, cego ou surdo. A solidariedade e a generosidade das crianças são imensas! Em regra, aproximam-se e tentam ajudar como podem.
Para que a relação resulte em amizade, é preciso, antes de tudo, não se auto-excluir, o que passa primeiramente por um processo de aceitação das suas próprias características, de forma que não se transforme numa criança complexada. A atitude mais correta não é tentar eliminar as diferenças ou negá-las, mas aprender a viver com elas ou a ultrapassá-las. Os complexos resultam da associação de dificuldades surgidas por ocasião do desenvolvimento psicológico com a eventual deficiência, que, juntamente aos preconceitos dos outros, a marcam como “diferente”. Certo é que entre os mais pequenos encontramos casos muito distintos, desde a criança preocupada com as suas sardas até à vítima de um verdadeiro defeito físico, de uma doença que a limita a atividades restritas em certos domínios.

O papel da família
O meio familiar tem um grande peso para a criança. Assim, se os pais assumirem uma atitude desdramatizada em relação à situação, tal atitude irá refletir-se na sua personalidade e, consequentemente, na relação com as outras crianças, favorecendo uma relação de confiança entre elas. Assim sendo, há que procurar um meio de aceitação plena da “diferença” daquela criança sem cair na tentação de a superproteger.
A superproteção, em regra, fragiliza-nos e deixa-nos pouco preparados para a vida. Uma criança que possui uma característica que a torna diferente das demais, ao ser vítima de superproteção, irá tender a associar os dois fatores e a considerar-se incapaz para fazer uma vida autônoma. Na escola colocar-se-á à margem dos colegas, não participando nos jogos de equipe, não indo a visitas de estudo, etc.
Claro que algumas doenças físicas impõem limitações reais que a criança tem de aprender a gerir. Uma criança diabética não poderá descurar a sua dieta mesmo numa festa escolar com uma mesa repleta de iguarias. Há que reter a necessidade de adaptação dos diversos atores sociais: pais, professores, colegas, amigos e da própria criança, evitando dramatizar a situação, o que pode levar à auto-exclusão.

Promover a auto-aceitação
Muitos pais inquietam-se com a necessidade de os filhos usarem óculos e interrogam-se como é que eles irão conseguir adaptar-se a esta situação. Se a criança tem essa necessidade, não se deve hesitar: deve usá-los! Ela tem de aprender a aceitar essa situação e sem dúvida que tudo passa pela aceitação dos outros que estão à sua volta. Fabricantes e oculistas têm todo o tipo de armações, adaptadas ao gosto e às formas do rosto de cada um, o que indica que a rejeição dos óculos mais frequente obedece a outros motivos.

Todos juntos
Já todos nós ouvimos falar em escolas especiais, com métodos de ensino adaptados para que as crianças com problemas conseguissem ter sucesso escolar. De há uns anos a esta parte tudo mudou.
As nossas escolas passaram a integrar crianças com deficiência, o mesmo que dizer que numa turma de alunos ditos “normais” pode existir um ou mais alunos com algum grau de deficiência. O programa escolar é igual para todos, muito embora possam ter que existir algumas adaptações em termos de método. O objetivo que está na base destas mudanças prende-se com o estimular da aceitação das diferenças por parte das outras crianças.

Efeito de Halo
Uma única deficiência física é muitas vezes por nós associada a defeitos ao nível do carácter, pelo que os especialistas falam do "efeito de Halo” Assim, uma criança que seja gaga pode ser vista pelos outros como menos inteligente, o que em regra não corresponde à verdade — trata-se, única e simplesmente, de um preconceito. É preciso, por isso, ensinarmos as nossas crianças desde muito cedo a aceitar e a integrar no seu grupo de brincadeiras meninos e meninas que possam ter alguma particularidade que os diferencie a nível mental ou físico.

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