Licensa

12/10/2014

ENQUANTO

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio 
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé 
para ver como é; 
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas 
e correr pelos interstícios das pedras, 
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas; 
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, 
órfãs de pais e de mães, 
andarem acossadas pelas ruas 
como matilhas de cães; 
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto 
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente, 
num silêncio de espanto 
rasgado pelo grito da sereia estridente; 
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio 
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas 
amassando na mesma lama de extermínio 
os ossos dos homens e as traves das suas casas; 
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade, 
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia, 
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: 
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA. 

António Gedeão 
Obra Poética 
Lisboa, Ed. João Sá Couto, 2001 

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