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12/10/2014

AS BALAS

Dá o Outono as uvas e o vinho 
Dos olivais o azeite nos é dado 
Dá a cama e a mesa o verde pinho 
As balas dão o sangue derramado 
Dá a chuva o Inverno criador 
Às sementes dá sulcos o arado 
No lar a lenha em chama dá calor 
As balas dão o sangue derramado 
Dá a Primavera o campo colorido 
Glória e coroa do mundo renovado 
Aos corações dá amor renascido 
As balas dão o sangue derramado 
Dá o sol as searas pelo Verão 
O fermento ao trigo amassado 
No esbraseado forno dá o pão 
As balas dão o sangue derramado 
Dá cada dia ao homem novo alento 
De conquistar o bem que lhe é negado 
Dá a conquista um puro sentimento 
As balas dão o sangue derramado 
Que as balas só dão sangue derramado 
Só roubo e fome e sangue derramado 
Só ruína e peste e sangue derramado 
Só crime e morte e sangue derramado. 

Manuel da Fonseca
José Fanha (org.) 
DE PALAVRA EM PUNHO 
Porto, Campo das Letras, 2004 

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