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31/10/2014

Minha Busca - Por Frank Viana Carvalho

Minha Busca
Frank Viana Carvalho
Setembro de 1999


Eu sei que posso buscá-lo no mundo inteiro
Ou talvez sozinho, lá na oficina de carpinteiro ...
Em Nazaré, de onde ele saiu e nunca mais voltou
Por isso minha busca começa ali, aonde vou ...

Distante, tento analisar aquela aldeia obscura
Para entender o porquê de minha procura
Em busca de um super homem, rico e letrado
Ou um rei de sangue azul, respeitado...

Confronto-me (porém) com o filho de uma camponesa
Que nunca teve uma “comida fina” em sua mesa
Procuro um livro? Não, ele nunca escreveu
E um cargo público? Ele jamais exerceu...

Também soube que nunca foi à Universidade
Embora desse aulas para os doutores da cidade
Procurei ver os bens, a influência, o nome da família
Mas não havia nada, nem terras, nem carro, nem mobília ...

Contaram-me que na vida usou muita coisa emprestada
Começando por um jumentinho naquela breve jornada
E até mesmo um barco, pãezinhos, e vejam: uma sepultura
De Arimatéia, imagino – o corpo inerte, na rocha dura ...

Seguindo os seus passos, soube de uma numerosa multidão
A quem ele, com seu jeito humano, demonstrava compaixão
Naquele grupo tinha de tudo: riqueza, pobreza, doenças, loucura
E ele tinha a resposta para todos: fé, amor, paz e cura ...

Encontrei uma cruz no alto de uma montanha
Onde o fizeram sofrer – uma dor indescritível, tamanha
Só não menor que o abandono dos amigos, naquele dia
E a morte veio ... o seu corpo sozinho, na noite fria ...

Mas no terceiro dia a morte venceu e um rei se tornou
E soberano salvador, maravilhoso, a todos resgatou
Seu nome foi exaltado, trazendo a muitos felicidade
E sua influência, sua história correu por toda a humanidade ...

Assim, para guiar meus passos, me fazer compreender sua história
Ele, para mudar minha vida, e estarmos juntos, um dia, na glória
Naquele momento da minha busca, já sentindo minha alma desamparada
Deixou-me descobrir que estava ao meu lado durante toda a jornada ...

Procura-se um amigo... "Vinicius de Moraes "

Não precisa ser homem:
basta ser humano, basta ter sentimentos,
basta ter coração.
Precisa saber falar e calar,
sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia,
da madrugada, de pássaros, de cães, de sol,
da lua, do cantar da chuva e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém,
ou então sentir falta de não ter esse amor.


Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão,
nem é imprescindível que seja de segunda.
Pode ter sido enganado, pois,
todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro,
nem que seja de todo impuro,
mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e,
no caso de assim não ser,
deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas,
seu principal objetivo deve ser o de amigo.


Deve sentir pena das pessoas tristes e
compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar
dos mesmos gostos,
que se comova quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples,
de orvalhos, de grandes chuvas e
das recordações da infância.
Precisa-se de um amigo para não enlouquecer,
para contar o que se viu de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das
realizações, dos sonhos e da realidade.


Precisa-se de um amigo que diga
que vale a pena viver,
não porque a vida é bela,
mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado no
passado em busca de memórias perdidas.
Que bata em nossos ombros,
sorrindo ou chorando,
mas que nos chame de amigo,
para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Fico - Por Frank Viana Carvalho

(Frank Viana Carvalho, setembro de 1993)

Não sei se fico ou se não fico,
não sei se fico ou se vou
Para onde vou se não fico?
Ou se fico: onde estou?

Dom Pedro resolveu ficar:
não sei bem porque ficou.
Se não ficasse, o que ia mudar?
Mas o “fico”, o que mudou?

Mudar, não mudou nada.
Por isso Dom Pedro ficou:
uma colônia escravizada,
É o que o “fico” nos deixou?

Foi a vontade de partir,
do “fico”, a grande herança,
Deixar o Brasil e seguir;
ficar, só na lembrança.

Hoje, com a presidência dividida:
não sabe se fica ou se vai.
Se não fica, se estrumbica,
se fica, acha que cai;

Indeciso, bastou o imperador,
Na dúvida, não precisa ficar.
Certeza, eu tenho do clamor
de alegria, que o povo vai dar.

Mas o fico a muitos desespera,
sem saber se ficam ou se vão.
Assim, no compasso de espera,
para melhorar a situação:

Não sei se fico ou se não fico,
não sei se fico ou se vou
Para onde vou se não fico?
Ou se fico: onde estou?

Quanto tempo temos? Por Frank Viana Carvalho


Quanto tempo temos? Não muito, dirão alguns.
Mas temos muito tempo, se com ele realizamos
aquilo que é necessário e fundamental.
Mas o tempo é qualquer coisa que se corta num momento súbito,
quase sempre sem aviso.


O que são algumas horas, se o que queríamos eram três dias?
E o que significa um ano e meio se queríamos apenas seis meses?
O tempo é apenas tempo ou é o vento que corre em nossos cabelos?
Eu prefiro acreditar que o tempo é a água que escorre em nossas mãos...


A verdade é que não temos muito tempo
se a ele não dedicamos o melhor de nós mesmos.
Não temos tempo se corremos numa busca sem sentido,
se não colocamos no instante exato toda a nossa força,
nossos sentimentos, nosso valor e a nossa razão.


Reunidos, os homens inventaram o relógio e o calendário,
mas jamais atingirão ou conseguirão alcançar
com essas medidas o seu tempo, o meu tempo,
aquele que me pertence e aquele que é só seu.


Não podemos possuí-lo, mas podemos gastá-lo.
Não podemos guardá-lo, mas podemos usufrui-lo.
A gente continua vivendo em meio a um tempo conturbado,
perdendo tempo e contando o tempo.


Mas não seria mais sábio se,
ao invés de contar a nossa vida pelos dias, meses e anos,
contássemos pelos amigos, sorrisos, abraços e vitórias?
Diriam: Há quanto tempo você está aqui?
E nós responderíamos – trinta amigos, dez abraços,
duzentos sorrisos e milhares de vitórias.

Frank Viana Carvalho, em 27 de março de 2013

“Mestres Escultores” Por Frank Viana Carvalho

Até que sejamos mestres
o que somos de fato?
Somos aprendizes ensinando?
Ou somos mestres aprendendo?

Somos rios regando as margens
e levando água aos sedentos?
Ou somos árvores que dão sombra
e oferecemos frutos aos famintos?

Lapidamos e esculpimos as pedras,
transformando em cristais reluzentes,
os olhos ávidos pelo saber,
as mentes prontas a aprender...

Vamos à cátedra inspirados ou motivados

na verdade em constante transformação,
Como a água do rio corrente
por todos os lugares por onde passa...

Se não somos, estamos.
E se estamos, transformamos,
acertando, muitas vezes,
e errando, quem sabe?
Mas até o erro é aprendizado,
pois também mostra o caminho,
de ensinar mais e melhor,
de aprender enquanto ensinamos.

Se formos capazes de sempre aprender,
se formos capazes de sempre nos renovar,
então chegaremos ao final da nossa jornada
felizes por ter cumprido a nobre missão.”

Esta poesia fiz em homenagem aos Professores em 15 de Outubro de 2014.

21/10/2014

O QUE A ESCOLA DEVERIA APRENDER ANTES DE ENSINAR?

A escola fragmentada, dividida em disciplinas e grades curriculares, e distante da vida dos professores e alunos, se deparar, a cada dia, com um mundo que faz perguntas cada vez mais globais e urgentes, como a necessidade de considerar o todo, o planeta, a cidade. Quais os desafios da educação no mundo contemporâneo? 
Fonte: CPFLCultura

Gente ...

Gente é mais ou menos como rio:
Tem os que gostam de perigo e se lançam de grandes alturas
Tem os de muitos braços que atiram pra todos os lados
Tem os de muitos redemoinhos que comem bois e gente
Tem os que gostam demais de si e viram lago
Tem os que só sabem correr parados
São os empoçados os pantaneiros os alagados
Tem os que transam com a terra formando ilhas
O fundo de alguns é de pedra. Tem os de peixes coloridos
Outros têm água clarinha. E tem gente córrego seco
E tem gente riacho escuro. Alguns a terra engole vivos
E tem até rio que corre pra trás
O rio que eu sou nasceu em janeiro

Viviane Mosé

Doenças - Por Viviane Mosé

Muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão
mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema
pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa
palavra boa é palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima
lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema
palavra suor é melhor do que palavra cravo
que é melhor do que palavra catarro
que é melhor do que palavra bílis
que é melhor do que palavra ferida
que é melhor do que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema

Viviane Mosé

16/10/2014

Documentário: "QUANDO SINTO QUE JÁ SEI"

Direção: Antonio Sagrado, Raul Perez, Anderson Lima
Produção: Brasil, 2014 (78 minutos)
Sinopse: O documentário “Quando sinto que já sei” registra práticas educacionais inovadoras que estão ocorrendo pelo Brasil. A obra reúne depoimentos de pais, alunos, educadores e profissionais de diversas áreas sobre a necessidade de mudanças no tradicional modelo de escola.Projeto independente, o filme partiu de questionamentos em relação à escola convencional, da percepção de que valores importantes da formação humana estavam sendo deixados fora da sala de aula. Durante dois anos, os realizadores visitaram iniciativas em oito cidades brasileiras – projetos que estão criando novas abordagens e caminhos para uma educação mais próxima da participação cidadã, da autonomia e da afetividade.

12/10/2014

De Quem é o Presente?

Perto de Tóquio vivia um grande samurai idoso que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama. Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se. 
Desapontados pelo fato de que o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: - Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós? 
- Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?
- A quem tentou entregá-lo - respondeu um dos discípulos. 
- O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos - disse o mestre - Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir... 

AS BALAS

Dá o Outono as uvas e o vinho 
Dos olivais o azeite nos é dado 
Dá a cama e a mesa o verde pinho 
As balas dão o sangue derramado 
Dá a chuva o Inverno criador 
Às sementes dá sulcos o arado 
No lar a lenha em chama dá calor 
As balas dão o sangue derramado 
Dá a Primavera o campo colorido 
Glória e coroa do mundo renovado 
Aos corações dá amor renascido 
As balas dão o sangue derramado 
Dá o sol as searas pelo Verão 
O fermento ao trigo amassado 
No esbraseado forno dá o pão 
As balas dão o sangue derramado 
Dá cada dia ao homem novo alento 
De conquistar o bem que lhe é negado 
Dá a conquista um puro sentimento 
As balas dão o sangue derramado 
Que as balas só dão sangue derramado 
Só roubo e fome e sangue derramado 
Só ruína e peste e sangue derramado 
Só crime e morte e sangue derramado. 

Manuel da Fonseca
José Fanha (org.) 
DE PALAVRA EM PUNHO 
Porto, Campo das Letras, 2004 

ENQUANTO

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio 
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé 
para ver como é; 
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas 
e correr pelos interstícios das pedras, 
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas; 
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, 
órfãs de pais e de mães, 
andarem acossadas pelas ruas 
como matilhas de cães; 
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto 
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente, 
num silêncio de espanto 
rasgado pelo grito da sereia estridente; 
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio 
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas 
amassando na mesma lama de extermínio 
os ossos dos homens e as traves das suas casas; 
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade, 
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia, 
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: 
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA. 

António Gedeão 
Obra Poética 
Lisboa, Ed. João Sá Couto, 2001 

11/10/2014

Ensine os seus filhos a lidar com as diferenças

De: Teresa Paula Marques, psicóloga clínica/psicoterapeuta 
In: Certa – 29.Julho-10 Agosto 2008

(...) 
O tema “diversidade” é hoje muito abordado, sobretudo em meio escolar. As crianças podem ser diferentes em áreas que vão desde alguma deficiência física ou mental até excesso de peso, passando pela cor da pele, isto é, tudo o que possa fugir das características-tipo da sala de aula e da escola.
Assim, é na escola que se pode privilegiar a educação dos comportamentos sociais de aceitação dos outros ditos “diferentes”, tendo os professores um importante papel.

Uma questão de auto-estima
Acontece com alguma frequência que é o outro, o “diferente”, que inicia um processo de auto-exclusão, que passa por evitar os momentos de recreio ou apenas juntar-se aos outros, que também não se sentem iguais aos demais colegas. Certo é que este comportamento resulta de uma auto-estima baixa, muitas vezes motivada por mensagens transmitidas pela família, também ela vítima de alguma exclusão social. Aliás, quem lida diariamente com crianças de tenra idade facilmente se apercebe de que não excluem ninguém. É-lhes completamente irrelevante se o colega é pobre, negro, de outra religião, cego ou surdo. A solidariedade e a generosidade das crianças são imensas! Em regra, aproximam-se e tentam ajudar como podem.
Para que a relação resulte em amizade, é preciso, antes de tudo, não se auto-excluir, o que passa primeiramente por um processo de aceitação das suas próprias características, de forma que não se transforme numa criança complexada. A atitude mais correta não é tentar eliminar as diferenças ou negá-las, mas aprender a viver com elas ou a ultrapassá-las. Os complexos resultam da associação de dificuldades surgidas por ocasião do desenvolvimento psicológico com a eventual deficiência, que, juntamente aos preconceitos dos outros, a marcam como “diferente”. Certo é que entre os mais pequenos encontramos casos muito distintos, desde a criança preocupada com as suas sardas até à vítima de um verdadeiro defeito físico, de uma doença que a limita a atividades restritas em certos domínios.

O papel da família
O meio familiar tem um grande peso para a criança. Assim, se os pais assumirem uma atitude desdramatizada em relação à situação, tal atitude irá refletir-se na sua personalidade e, consequentemente, na relação com as outras crianças, favorecendo uma relação de confiança entre elas. Assim sendo, há que procurar um meio de aceitação plena da “diferença” daquela criança sem cair na tentação de a superproteger.
A superproteção, em regra, fragiliza-nos e deixa-nos pouco preparados para a vida. Uma criança que possui uma característica que a torna diferente das demais, ao ser vítima de superproteção, irá tender a associar os dois fatores e a considerar-se incapaz para fazer uma vida autônoma. Na escola colocar-se-á à margem dos colegas, não participando nos jogos de equipe, não indo a visitas de estudo, etc.
Claro que algumas doenças físicas impõem limitações reais que a criança tem de aprender a gerir. Uma criança diabética não poderá descurar a sua dieta mesmo numa festa escolar com uma mesa repleta de iguarias. Há que reter a necessidade de adaptação dos diversos atores sociais: pais, professores, colegas, amigos e da própria criança, evitando dramatizar a situação, o que pode levar à auto-exclusão.

Promover a auto-aceitação
Muitos pais inquietam-se com a necessidade de os filhos usarem óculos e interrogam-se como é que eles irão conseguir adaptar-se a esta situação. Se a criança tem essa necessidade, não se deve hesitar: deve usá-los! Ela tem de aprender a aceitar essa situação e sem dúvida que tudo passa pela aceitação dos outros que estão à sua volta. Fabricantes e oculistas têm todo o tipo de armações, adaptadas ao gosto e às formas do rosto de cada um, o que indica que a rejeição dos óculos mais frequente obedece a outros motivos.

Todos juntos
Já todos nós ouvimos falar em escolas especiais, com métodos de ensino adaptados para que as crianças com problemas conseguissem ter sucesso escolar. De há uns anos a esta parte tudo mudou.
As nossas escolas passaram a integrar crianças com deficiência, o mesmo que dizer que numa turma de alunos ditos “normais” pode existir um ou mais alunos com algum grau de deficiência. O programa escolar é igual para todos, muito embora possam ter que existir algumas adaptações em termos de método. O objetivo que está na base destas mudanças prende-se com o estimular da aceitação das diferenças por parte das outras crianças.

Efeito de Halo
Uma única deficiência física é muitas vezes por nós associada a defeitos ao nível do carácter, pelo que os especialistas falam do "efeito de Halo” Assim, uma criança que seja gaga pode ser vista pelos outros como menos inteligente, o que em regra não corresponde à verdade — trata-se, única e simplesmente, de um preconceito. É preciso, por isso, ensinarmos as nossas crianças desde muito cedo a aceitar e a integrar no seu grupo de brincadeiras meninos e meninas que possam ter alguma particularidade que os diferencie a nível mental ou físico.

O olhar do professor – Rubem Alves

(...) Por isso, lhe digo: Professor: trate de prestar atenção ao seu olhar. Ele é mais importante que os seus planos de aula. O olhar tem o poder de despertar ou, pelo contrário, de intimidar a inteligência. O seu olhar tem um poder mágico!
O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar. Ela continua lá, mas recusa-se a partir para a aventura de aprender. A criança de olhar amedrontado e vazio, de olhar distraído e perdido. Ela não aprende. Os psicólogos apressam-se em diagnosticar alguma perturbação cognitiva. Chamam os pais. Aconselham-nos a mandá-la para uma terapia. Pode até ser. Mas uma outra hipótese tem que ser levantada: que a inteligência dessa criança – que parece incapaz de aprender –, tenha sido petrificada pelo olhar do professor.

Por isso lhe digo, professor: cuide dos seus olhos…

Rubem Alves
Gaiolas ou Asas
A arte do voo ou a busca da alegria de aprender
Porto, Edições Asa, 2004
(excertos adaptados)

A mão - Por Carlos Drummond de Andrade

Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
E nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta 
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos.
A mão cresce mais e faz
do mundo como-se-repete o mundo que telequeremos.
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação por que tudo tem (nova) cor.
Tudo existe por que foi pintado à feição de laranja mágica,
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da Terra domicílio do homem.

Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.

Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Cândido Portinari."
Zé Lins do Rego, Drummond, Portinari, José Olympio, Manuel Bandeira
Carlos Drummond de Andrade, em homenagem ao pintor Candido Portinari que havia deixado de viver em 6 de fevereiro de 1962. Do livro Lição de coisas (1962). In Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1983. Fonte