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26/09/2014

TREM DE ALAGOAS - Ascenso Ferreira

Composto com a mesma cadência do som do comboio arrastando-se melodiosamente pelos trilhos, o poema de Ascenso além da beleza prosódica traz o registro de um mundo lindo que não mais existe. O entremeio obscuro (entre os iluminados das cidades) onde cabiam suposições mágicas de Caiporas e Pais-da-Mata foi substituído por um universo de certezas de consumo: o mundo iluminado dos shoppings centers onde o que falta pode ser comprado. Sabores de frutas boas de chupar, de amores perdidos no translado e os tesouros das furnas do tempo onde se arqueia nossa lembrança são o doce conteúdo dessa viagem que se torna ainda mais agradável ao entendimento na voz de Paulo Autran. Recomendo a leitura e escuta simultâneas. Bom translado.

TREM DE ALAGOAS
Ascenso Ferreira

“O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar…
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.
Adeus !
- Adeus !
Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar…
- Adeus morena do cabelo cacheado !
Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Na boca da mata
ha furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:
- Ali dorme o Pai-da-Mata
- Ali é a casa das caiporas
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Meu Deus ! Já deixamos
a praia tão longe…
No entanto avistamos
bem perto outro mar…
Danou-se ! Se move,
se arqueia, faz onda…
Que nada ! É um partido
já bom de cortar…
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…
Cana caiana,
cana rôxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar…
- Adeus morena do cabelo cacheado !
- Ali dorme o Pai-da-Matta !
- Ali é a casa das caiporas
- Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…” Fonte

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