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20/09/2014

"Classificados Poéticos" de Roseana Murray

O livro "Classificados Poéticos" de Roseana Murray baseia-se no formato tradicional do classificado do jornal, utilizando palavras comuns dentro deste universo, tais como: vendo, troco, procuro, alugo... Ao utilizar palavras simples, que fazem parte do cotidiano, a autora consegue aproximar-se do leitor e levá-lo à reflexão. Analisando com mais atenção, percebemos os efeitos estilísticos refletidos em seus versos. Sentimentos, anseios, inquietações são retratados, de forma romântica, lúdica e envolvente. A interpretação do que é exposto por Roseana é mais complexo e mais significativo, do que aparenta à primeira leitura. Por um lado, um divertido jogo de palavras, faz alcançar mais rapidamente seu público-alvo, o infanto-juvenil; por outro, a autora consegue atingir os demais leitores, aguçando a curiosidade, levando-os a buscar o sentido implícito em cada verso. A aliteração e a assonância trazem sonoridade ao texto. A metáfora e a antítese corroboram para expressar o jeito sonhador, otimista e sensível da escritora. Cada trecho do poema leva a sensações diferentes. Há perfeita harmonia entre os elementos utilizados, gerando um desejo, quase infantil, de libertar-se dos preconceitos e participar ativamente, desse “mundo de sonhos”.

Roseana Murray sempre se dedicou a escrever para o público infanto-juvenil. Publicou 43 livros, tem poemas traduzidos em 6 línguas e ganhou diversos prêmios, entre eles, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras em 2002 para o livro "Jardins" da Editora Manati, RJ. Além disso, implantou em Saquarema junto com a Secretaria Municipal de Educação, o Projeto "Saquarema, uma Onda de Leitura".

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma festa
onde o homem não mate
nem bicho nem homem
e deixe em paz
as árvores da floresta.

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma dança
e mesmo as pessoas mais graves


tenham no rosto um olhar de criança.
Nesse fragmento, a autora usa como determinante, a esperança de encontrar, no momento atual, um lugar considerado perfeito para viver, sem violência e que proporcione a relação harmônica entre os homens e a natureza. Lugar e tempo são reforçados nesses versos, principalmente através da palavra "onde" que aparece repetidas vezes. Isto é, o "onde" determina em que lugar se está agora, passando a ideia do tempo presente. Embora não tenha utilizado o verbo "procurar" no presente do indicativo que seria uma marca mais forte do tempo atual, optando pela forma "procura-se", ela cria um ar de mistério, pois ao analisarmos o sujeito "algum lugar no planeta", questionamo-nos: que tipo de lugar é esse? Será que existe? É possível encontrá-lo?

Podemos destacar também, a palavra "grave" que tem por definição melódica, um som de frequência baixa e traz para o texto um efeito quase sonoro. Ao mesmo tempo, apresenta um sentido dúbio, por um lado indica a musicalidade, por outro remete a um indivíduo que carrega traços de desânimo, de amargura, de negatividade; dessa maneira, "o olhar de criança", simboliza a pureza, a ingenuidade, a simplicidade para enxergar aquilo que está a sua volta. Ampliando essa visão, deparamo-nos com as palavras "dança" e "festa", que dão ênfase à expectativa musical, pois tanto uma como outra se fortalecem com a música.

As palavras "planeta", "festa", "criança", expressam sentido de movimento, de rotatividade. Mesmo quando Roseana cita "engarrafamento" na parte 2, reforça este conceito: anda, pára, anda...; ou seja, um movimento constante.

O artigo indefinido foi bem valorizado nesta obra e tem forte valor estilístico. Ao destacarmos: "uma festa", "uma dança", "um olhar de criança", notamos que não foi determinado que tipo de festa, de dança, de olhar de criança; pode ser qualquer um que já se encontre em nossa memória, ou algum que tenhamos definido como padrão. O importante é que seu uso sensibilize e envolva o leitor. Como afirma M. Rodrigues Lapa em Estilística da Língua Portuguesa (1991. P.91): "A capacidade estilística do artigo indefinido está na imprecisão que dá às representações. Serve para traduzir a imprecisão e o mistério". Ele também assegura que "a indeterminação e o mistério vão quase sempre acompanhados de movimentos da sensibilidade". Fonte

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