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05/06/2014

"Filtro solar": a autora por trás do sucesso e controvérsias sobre créditos autorais

Um dos maiores problemas de uma criação cultural, assim como invenções de qualquer espécie, é o de ser disseminada e reconhecida, principalmente em grande escala, por outra pessoa sem o devido crédito ao autor. Mais grave ainda, é deixar que a repercussão alcance esferas globais sem esclarecer de forma veemente a origem do produto e se beneficiar de um conteúdo de qualidade na base do vampirismo.
Algo parecido aconteceu há alguns anos com Pedro Bial e o famoso texto “Filtro Solar”. O texto, uma mensagem otimista para o futuro, foi exibido no último Fantástico de 2003 e, antes do anúncio do vídeo produzido e narrado por Bial, Renata Ceribelli menciona que o mesmo era de autoria de uma cronista americana. Assim mesmo, sem nome, sem qualquer outra referência e, de uma hora pra outra, o texto da “desconhecida” virou mania nacional à época. Até hoje, a grande maioria das pessoas não tem idéia de que o texto não é original, que não foi escrito pelo jornalista que, aliás, tem talento reconhecido no meio, menos quando se aventura a escrever alguma crônica insólita (para dizer o menos). Basta fazer uma busca com os termos “filtro solar” no YouTube para se dar conta de que Mary Schmich fez um aporte generoso e involuntário à carreira de Bial. Não que ele precisasse, mas deve ter sido bem-vindo.
A “estreia” de Filtro Solar no Brasil, o texto já havia sido lido por Antônio Abujamra para uma peça de teatro
Verdade seja dita, Bial produziu o CD Filtro Solar, da Sony Music, com este e outros textos com o mesmo mote, e também associou o seu nome ao de Mary Schmich no livro Filtro Solar, da editora Sextante, de autoria da escritora e tradução do jornalista. O único “if” é que o sucesso foi estrondoso e o crédito à Mary ganhou menos espaço que o merecido. Obras traduzidas, compiladas e versadas para o português de material estrangeiro há aos montes, mas todos sabem que Harry Potter foi escrito por J. K. Rowling e têm pouca idéia de quem o traduz para a edição brasileira – o que, de fato, é primorosamente realizado por Lia Wyler, com o auxílio ocasional da própria Rowling que admira o seu trabalho. A diferença entre Bial e Lia dispensa comentários.
A Mary o que é de Mary
Em 1º. de junho de 1997, Mary Schmich escreveu uma crônica que ficou conhecida como Wear Sunscreen ou Sunscreen Speech, para o Chicago Tribune, na qual incitava as pessoas a viverem sem arrependimentos e cujo tema seria um conselho que ela daria se alguém lhe perguntasse. O curioso é que parece que Mary estaria fadada a ter sua obra equivocadamente atribuída a outras pessoas, antes que se firmasse de fato como a autora legítima do discurso. Assim que a crônica foi publicada, começou a circular na internet como se fosse de autoria do escritor Kurt Vonnegut, para um discurso de abertura no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Quando procurado pelos jornalistas para pronunciar-se sobre o caso, Vonnegut disse ao jornal The New York Times: “O que ela escreveu foi engraçado, esperto e lindo, eu estaria orgulhoso se as palavras tivessem sido minhas”. Em 1998, o texto foi transformado em música sob a direção do australiano Baz Luhrmann (o mesmo do musical Moulin Rouge) e a partir de então se transformou no discurso oficial de cerimônias de formatura pelos Estados Unidos. Chegava finalmente o reconhecimento, ao menos nos países de língua inglesa. Formada em jornalismo pela renomada Stanford, Mary ainda trabalha como colunista do jornal de Chicago e é atualmente a responsável pelo texto da famosa tira Brenda Starr. Fonte

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