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17/05/2014

Sementes do Nosso Quintal

Quando começamos a trilhar o caminho deste projeto nos deparamos com um conflito e uma delicada conversa entre cultura e educação. Fomos questionados pelas instituições governamentais que não compreenderam a relação de um projeto que trata de educação com a cultura.
Não foram poucos os argumentos que tivemos que elaborar para deixar claro que se tratava de um trabalho justamente sobre a cultura na educação. Percebemos ao longo desses anos de dedicação a este projeto que há uma carência enorme de cultura na educação e de educação na cultura e acreditamos ser esse um dos grandes buracos do nosso sistema educacional:
Por que cultura e educação são tratados como temas ou áreas distintas? Por que a cultura não faz parte do cotidiano das escolas? Por que os educadores não assumem mais sua bagagem cultural como um precioso insumo para o seu trabalho? 
Se somos seres nascidos, imersos e produtores de cultura, temos que nos educar a partir dela e nela. É a partir da cultura que nos conhecemos, conhecemos nossa identidade, nossa comunidade, nosso país, nossos desejos e potenciais. Como desejar, amar e cuidar de nosso bairro, cidade, país, planeta, se não for pela identificação com a cultura que faz desabrochar um sentimento de amor e pertencimento.
Na minha opinião essa deve ser a base de uma educação coerente, sensível, criativa e forte. 
Propomos este diálogo permanente. Gostaríamos de ouvir a opinião de vocês e exemplos concretos que demonstram como é rico e possível vivenciar a nossa cultura desde os primeiros anos. Fonte

SINOPSE E ROTEIRO
O filme retrata o cotidiano de uma escola de educação infantil sem precedentes que, através do pensamento-em-ação de sua idealizadora, a controversa e carismática educadora Therezita Pagani, nos revela o potencial estruturante da educação infantil verdadeira, firme e sensível.
Somos levados a uma escola onde a criança está acima de métodos e fórmulas de se educar. Onde natureza, música, arte, conflitos, magia e cultura popular regem o encontro das crianças, que convivem diariamente entre diferentes faixas etárias.
Sementes do Nosso Quintal” é, antes de tudo, um filme que trata da vida de todos nós, através de uma escola.
ROTEIRO
A Te-arte, assim como a vida de um modo geral, não segue roteiros, planejamentos, rótulos, currículos ou métodos. Segue o rumo da experiência humana no seu ciclo de desenvolvimento, com todos os elementos que a compõe, ou seja, um arsenal de possibilidades e relações que não se encaixam em pré-roteiros, e muito menos em currículos pedagógicos pré-estabelecidos.
Criar um roteiro para apresentar uma experiência com esse teor humano não foi tarefa fácil. Acrescente a isso o trabalho de anos de captação de imagens (450 horas captadas) que olhou para a criança com uma mistura de encantamento e espanto, tentando entender e apreender mais do que simplesmente mostrar. 
“Tínhamos em mãos um material riquíssimo: a infância sendo contada a partir de um escola que a entende e a respeita como tal. Como roteirizar tudo isso? Como contar uma história? Como apresentar essas relações assim como elas se dão: em alguns momentos em aparente desorganização, porém, em profundo sentido para as crianças? A opção foi por um roteiro que olhasse para a infância em primeiro plano, sendo amparada, respaldada e conduzida por mãos experientes, firmes e solidárias.”, explica Renata Meirelles.
Por isso o filme inicia com um aparente “caos” que, apesar de estar presente no espaço escolar, fala de assuntos comuns ao ser humano: estranhamento, desconstrução, morte, construção e alimentação. Trata-se de uma introdução, ou batismo de fogo, ao espaço diegético: o universo escolar, onde a vida destes seres em formação de valores e em franquíssima convivência ocorre, nunca isenta de conflitos.
Aos poucos o filme nos coloca ao lado de alguns personagens com quem reciclamos o barro, mexemos na lama, encaramos um ganso solto, observamos e nos esquivamos da experiência da morte, brincamos, cantamos, dançamos, experimentamos sabores, choramos e vivenciamos sentimentos, desafios, questionamentos e os ciclos da cultura popular brasileira. Nunca seguindo uma lógica rígida, mas trazendo nuances do subjetivo e do imaginário, assim como é a infância.
A música, outro elemento fundamental no dia-a-dia da escola e, no pensamento-em-ação de Therezita, na formação e desenvolvimento do ser humano, é outro elemento de transcendência que perpassa o filme. Ela ocorre o tempo todo, e não é nunca inibida. Seja da habilidade afro-brasileira ancestral do mestre popular Tião Carvalho, músico maranhense que há 30 anos é educador na escola, seja de um casal de pais músicos eruditos, da apresentação de um grupo paulistano que faz música com o próprio corpo ou da sanfona junina, a música é produzida o tempo todo pelas crianças, na sua relação com o seu corpo, com o corpo do outro, dos elementos naturais ou culturais. Segundo Therezita,
a música é o primeiro elemento do ser humano para que ele se conheça, conheça seu ritmo interno, e o espaço que essa música deve ocupar.” 
Nesse sentido, os inúmeros momentos musicais da escola (da afinação de um instrumento ao um verdadeiro sarau de música erudita às oito da manhã, passando por uma roda de bumba meu boi e pelo esquentar do coro de um tambor de crioula) são relacionados com as fases do desenvolvimento infantil narrados e pontuados no roteiro: adaptação > rotina > a criança em si > a escola em si > educar-transformar>ciranda das memórias.
Quanto ao tempo do filme, que muitos comentam ser longo, ele também refletiu o tempo da infância, que é um tempo estendido, um tempo outro, um tempo do imaginário, e nos convida a nós adultos, a deixar os atropelos e a correria das tarefas um pouco de lado para brincar, contemplar e imaginar, e resgatar a nossa criança interior.

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