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11/05/2014

Filme "Em Um Mundo Melhor*"


O ator sueco Mikael Persbrandt é o protagonista de Em Um Mundo Melhor.
Como ser uma pessoa boa, ética e justa em um mundo onde a maldade, a injustiça e a falta de humanidade muitas vezes parecem prevalecer? Essa é a pergunta que a diretora dinamarquesa Susanne Bier nos faz em "Em Um Mundo Melhor" (2010), longa-metragem premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. A diretora de 51 anos tem uma filmografia bastante sólida com 12 filmes no currículo. Entre eles, destacam-se: Corações Livres (2002), Brødre (2004) e Depois do Casamento (2006). Em Um Mundo Melhor marca a quarta parceria de Bier com o roteirista Anders Thomas Jensen, com quem divide os créditos pelo roteiro do filme. 
O roteiro de "Em Um Mundo Melhor" impressiona pela sua maturidade e pela maneira com que cada fração da história se comunica e se completa, criando uma unidade de sentido. O filme é centrado em duas famílias. No primeiro núcleo familiar, temos Anton (Mikael Persbrandt), um médico que trabalha na África e que está se divorciando de Marianne (Trine Dyrholm). Ao que tudo indica, Anton estava mantendo um caso extraconjugal e foi descoberto pela esposa. O filho de casal, Elias (Markus Rygaard), tem doze anos e sofre bullying na escola. A outra família é formada por Claus (Ulrich Thomsen) e Christian (William Jøhnk Nielsen), pai e filho respectivamente. Christian tem a mesma idade de Elias. A mãe do pré-adolescente morreu de câncer e agora pai e filho têm que superar essa perda juntos. Christian, no entanto, não consegue se relacionar com Claus. Elias e Christiam se conhecem na escola e iniciam uma amizade. 
Cada personagem do filme é desenvolvido com extremo cuidado e carinho pelo roteiro. Anton nos é apresentado exercendo a sua função de médico na África, em uma região dominada pela miséria, pela aridez e pela falta de recursos. O trabalho do personagem revela a humanidade e a preocupação social do mesmo. Podemos afirmar que os dois grandes opostos do filme são: Anton e o jovem Christian. Enquanto o primeiro acredita no poder da não-violência e de compreensão do próximo, o segundo se sente impelido a fazer justiça com as próprias mãos, respondendo uma agressão com outra agressão. Não é injustificável o espírito vingador e rebelde de Christian, uma vez que ele parece enxergar como o mundo é cruel e injusto. Quando ele se utiliza de uma arma para punir o agressor do amigo, ele quer fazer o certo, ele quer corrigir uma injustiça. No entanto, o garoto acaba ficando cada vez mais sombrio e violento. 
Elias (Markus Rygaard) e Christian (William Jøhnk Nielsen) são melhores amigos no filme.
Dividido entre a filosofia pacífica do pai e a atitude vingativa do melhor amigo, está o doce Elias. O personagem encanta por ser naturalmente bom e ético. O menino, que aparentemente não tem amigos e sofre com a distância do pai e o divórcio, encontra em Christian uma alternativa para a sua solidão. O medo de perder a amizade de Christian, é o que faz Elias se tornar vulnerável à violência do amigo. É tocante como o filme retrata a cumplicidade infantil. Claus e Marianne compartilham a mesma dificuldade de se comunicar com os filhos. Claus é um personagem impotente diante do ódio avassalador e da indiferença do filho. Já Marianne sofre por não conseguir perdoar o marido, que além de ser um excelente pai, lhe faz muita falta. 
Susanne Bier revela-se uma mestre em explorar as emoções dos personagens, por vezes diante de situações limites. Em várias cenas, é possível compreender tudo que um personagem está sentindo apenas pelo olhar do mesmo e pela maneira com que a diretora conduz a cena, muitas vezes apostando nos closes ou mesmo na instabilidade da câmera. Podemos destacar o momento em que Anton tem que prestar socorro a um terrível criminoso, líder de uma milícia que aterroriza a região em que o médico trabalha. Nesta cena, é palpável a hesitação e o conflito interno do personagem. Em outra cena extremamente forte, em que Marienne tem uma atitude cruel com Christian, é nítido que ela se arrepende quase instantaneamente, percebendo a gravidade do que falou.
Não apenas a direção dos atores é fenomenal, mas também os próprios atores. Os jovens William Jøhnk Nielsen e Markus Rygaard podem ser considerados grandes revelações. Se o primeiro impressiona pela intensidade de sua atuação, o segundo nos conquista pela naturalidade de sua performance. Já o ator sueco Mikael Persbrandt é o coração do filme. Sua interpretação é precisa, contida e seu personagem emana humanidade e sensatez. Trine Dyrholm, que chegou a ganhar alguns prêmios por sua performance, dá um show em cada cena em que aparece. A atriz dinamarquesa estará no próximo filme de Bier, previsto para estrear em 2012. Por fim, Ulrich Thomsen completa o quinteto de atores principais e confere, ao seu personagem,fragilidade e vulnerabilidade. 
Um dos grandes êxitos de Em Um Mundo Melhor é a sua excelente direção de fotografia, que explora perfeitamente a intensidade e multiplicidade das cores da ensolarada e árida África, assim como a beleza das paisagens dinamarquesas. A narrativa é ainda pontuada por uma trilha sonora bela e minimalista. É interessante constatar que os roteiristas optaram por uma resolução otimista do filme, para o que poderia ser um final trágico. Ainda que um final "mais realista" fosse mais impactante, fico feliz com a escolha da dupla Bier-Jensen, já que, com isso, eles parecem nos dizer que é possível acreditar em um mundo melhor. Fonte

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