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06/05/2014

A dor na sociedade do espetáculo - Por Liziê Moz Correia*

Grave acidente na avenida. O jovem condutor está morto. A família chega ao IML para fazer o reconhecimento do corpo. Choro. As câmeras focam o rosto da mãe. Um repórter, ávido, pergunta se o rapaz era bom filho. Mais lágrimas. Mais audiência.
Em outro ponto da cidade, uma moça chora na praça de alimentação do shopping center. Brigou com o namorado. Romperam o relacionamento, já o sabemos. Ela entrara na internet poucos minutos antes, para mudar seu status no Facebook e falar de suas desventuras amorosas a mais de 500 “amigos”.
E a dor vai, aos poucos, se transformando em espetáculo na nossa sociedade. As emissoras de televisão já não sobrevivem sem o sofrimento alheio. Por um gosto um tanto quanto mórbido que temos em ver o drama dos outros, ou pelo sentimento de satisfação na comparação da desgraça do próximo com a nossa, fato é que observamos diariamente às angústias alheias como quem assiste a uma atração circense.
O enfoque que a mídia dá aos problemas das pessoas, com a dramatização que os torna atraentes para o público, ao mesmo tempo, banaliza a dor e a torna algo piegas e imaturo. De repente, parece que o drama tem de permear todos os acontecimentos da nossa vida, de forma teatral, num show aberto ao público. O sofrimento parece estar em voga – é romântico – e a incapacidade de lidar com os problemas parece ter virado padrão comportamental. Precisamos de remédios ou de uma bebida e contar com o consolo virtual nas redes sociais.
Na TV, as lágrimas estão na pobreza denunciada pelos telejornais, a mesma que conhecemos no nosso dia-a-dia e a qual ignoramos, nas novelas em que o galã trai a mocinha, mas vai morrer de desilusão se ela deixá-lo, nos bang-bangs dos programas policiais, que usam a violência urbana para se promover. Isso sem falar nos programas no estilo “É Namoro ou Amizade?”, nos quais a solidão das pessoas é moeda de troca para um encontro com um belo desconhecido ou o vexame do desprezo em rede nacional.
Será que com essa glamourização das nossas penas perdemos a capacidade de refletir sobre nossas emoções? Os sites de relacionamento estão abarrotados de mensagens carregadas de pesar e ressentimentos – que, a propósito, pouco ou nada comovem os amigos virtuais, cuja grande maioria nem conhecemos pessoalmente. Mas o circo para a comoção pública precisa se armar. Aceitamos, sem maiores questionamentos, que um jornalista vá meter um microfone sob o nariz de uma mãe desesperada por perder um filho; afinal, queremos espetáculo.
Choraremos junto com as famílias do Nordeste, assistindo à reportagem do telejornal das 20h, arrasados de pena porque falta-lhes água. Mas não votaremos, nas próximas eleições, no candidato que proponha uma solução para o problema. Porque secamos as lágrimas; o show acabou. E mais uma vez, as nossas mazelas serviram de ocasião para um sensacionalismo barato.
Olhando para trás, para uma sociedade que passou, será que não sentimos nem uma pontinha de saudade daquela elegância simples de nossos avós? Da roupa suja que se lavava em casa, da dor que se sofria sozinho (ou então na companhia de uns poucos e fiéis amigos), e até mesmo dos amores que eram mantidos em segredo, sem alardes ou crises existenciais? Aprendemos dos antigos o sábio provérbio: “as grandes dores são mudas”, no tempo em que os desgostos não serviam para cenas, as pessoas pareciam mais equilibradas e mentalmente saudáveis e a vida, discretamente, de alguma forma, sempre seguia em frente.

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