Licensa

24/02/2014

Aprender - Por José Moran

Aprender não é simples, nem igual e há muitos obstáculos e caminhos
Hoje temos inúmeras possibilidades de aprender, se queremos aprender. Quem deseja conhecer algum assunto sobre qualquer área, encontra inúmeros materiais impressos, digitais, vídeos, cursos gratuitos, pagos e comunidades.
Cada um pode escolher o método que mais se adapta à sua personalidade: aprender sozinho, aprender com colegas, aprender com alguém mais experiente; aprender lendo, vendo, ouvindo, fazendo, debatendo; aprender estando física e virtualmente com outros ou não; aprender de forma mais intencional ou livre, mais formal ou informal, mais imediata ou mediata. No entanto, por que tantos não aproveitam essas maravilhosas oportunidades de aprender?
É possível aprender com tudo, com o espetacular e o trivial, com as realizações e com os fracassos. As mesmas informações e experiências que para uns são estimulantes, para outros podem ser indiferentes ou prejudiciais.
Conteúdos bons, metodologias adequadas, professores competentes são importantes para que os alunos aprendam. Uns aprendem pontualmente – em um determinado tempo, curso, atividade – e depois desistem ou mudam seu foco rapidamente, enquanto outros conseguem construir um percurso mais constante, mais rico, mais complexo que os torna mais interessantes, sábios e “professores” num sentido amplo. Aprender de verdade não é só um processo cognitivo; é também um processo vivencial e emocional constante e profundo, que uns desenvolvem e aperfeiçoam com o passar dos anos, enquanto outros, por inúmeras razões, oscilam e até desistem.
Sabemos que aprender é um processo pessoal e social - aprendemos pela observação, interação, pelas experiências compartilhadas - mas nesse contexto social, cada um aprende de forma diferente. Por que uns, nos mesmos espaços, com os mesmos docentes, aprendem mais e outros menos? Reconhecendo a importância da aprendizagem social, colaborativa, há um conjunto de fatores pessoais que interferem significativamente na aprendizagem, principalmente de longo prazo. 

A motivação acontece quando algo nos seduz, atrai e mobiliza para concentrar-nos em seu conhecimento, domínio, fruição. Há uma margem enorme de respostas diferentes dos aprendizes aos mesmos estímulos e propostas de um professor ou mentor. Aprendemos o que nos interessa, o que mexe conosco, o que está ligado a motivações profundas, expectativas, desejos, sonhos.
Alguns não aprendem porque de alguma forma, em algum momento da vida, acreditaram e permanecem na crença de que não vale a pena aprender, porque as experiências de escola e/ou família foram muito dolorosas (desvalorização, bullying, ensino burocrático, frustração de expectativas). Não acreditam que podem fazer algo diferente, não tem autoestima suficiente para acreditar no futuro. Internalizaram que são incompetentes, que nasceram sem sorte, que o futuro é para só para alguns - os mais expertos - e tantas outras crenças que os adultos, de muitas formas, lhes passaram ou que foram percebidas com negativas. Aprender para eles não tem sentido porque lhes falta o principal: acreditar no seu potencial, ter uma visão de futuro, sentir que vale a pena viver hoje e amanhã como desafio fascinante e possível de realizações cada vez maiores. A falta de esperança é o maior empecilho para aprender. Nenhuma metodologia é capaz de surtir efeito enquanto o “aluno” se sinta afundando num pântano de crenças, vivências, experiências negativas de mundo, de vida.
As experiências dessas vivências para uns têm um efeito dinamizador, enquanto que para outros, pelo contrário, contribuem para sua imobilidade. Não são as informações e experiências que determinam como aprendemos, mas como as processamos, as assumimos, as internalizamos. Vemos isso continuamente em todos os campos, por exemplo, em pessoas que sofrem abusos: Umas conseguem superá-los, no curto ou médio prazo, encontrando forças para buscar apoio, para enfrentar novos desafios, enquanto outras permanecem enredados nas teias da impotência, da humilhação ou da culpa e se arrastam com esses pesos, que os perturbam, machucam e desanimam.
Quando alguém se sente valorizado, apoiado e estimulado tem muita mais chances de sair do estado de desânimo, desvalorização ou desespero em que se encontra. O melhor que podemos fazer pelos alunos é conhecê-los, dar-lhes apoio afetivo de verdade, oferecer-lhes as alternativas possíveis para que cada um possa evoluir a partir de onde se encontra, do momento de vida que enfrenta, das dificuldades que sente e das suas expectativas futuras. Ninguém é indiferente a quem lhe dá apoio, esperança, confiança, mesmo que momentaneamente não o verbalize.
Para aprender, além da motivação, é importante estar focado: O aluno precisa priorizar, organizar-se, fazer escolhas. Se ficamos brincando sem parar com nossos amigos no Whatsapp ou assistindo horas de programas de entretenimento na TV ou jogando compulsivamente, inviabilizamos grande parte do nosso tempo disponível para a aprendizagem mais intencional e organizada. Hoje é muito fácil perder o foco, porque estamos conectados sem parar com múltiplos aparelhos, telas, solicitações. Num Facebook ligado, há um devir contínuo de mensagens, solicitações, imagens e “curtições”, que, no mínimo nos distraem. O foco é fundamental para aprender mais. Quem não tem foco, pode aprender muitas coisas, mas não o que naquele momento é importante para os objetivos previstos ou para as exigências formais esperadas.
Além da motivação e do foco, há caminhos metodológicos diferentes que se ajustam melhor à cada um e são mais eficazes. Uns alunos são mais pragmáticos, gostam de situações reais, de desafios complexos. Outros gostam de refletir, pensar, comparar. Uns se dão bem com textos longos, outros se assustam já ao ver o seu tamanho. Uns são mais autônomos; outros precisam ser mais ajudados por colegas e professores.
As atividades e materiais precisam estar próximos do mundo onde cada aluno se encontra e do que o sensibiliza mais. Não podemos dar tudo igual para todos e este é um campo fascinante para educadores e organizações, porque há um conhecimento bem mais consolidado sobre metodologias ativas que equilibram atividades em grupos e individuais, a colaboração e a personalização. Aprender sempre precisa do envolvimento do aluno, de que se mobilize, pesquise, deseje ir além do mínimo socialmente esperado. Infelizmente muitos só querem aprender para “passar”, para ser “aprovados”, para ter uma certificação.
Aprendemos de formas diferentes. Por isso as instituições educacionais precisam fazer escolhas que não sejam engessadas nem simplistas. Hoje faz mais sentido oferecer metodologias mais ativas, focadas em atividades, desafios, com apoio de materiais interessantes, mas isso pode ser feito de várias formas, de acordo com a cultura de cada instituição e dos seus valores, sempre dialogando com os interesses dos aprendizes.
Além da motivação, do foco e das metodologias, é decisiva também a força de vontade, a atitude de perseverar no projeto de vida. Alguns se motivam no curto prazo, mas não persistem por longo tempo. A vida não é uma corrida de cem metros, é uma maratona (para a maioria) e cheia de obstáculos. Em cada etapa há ênfases diferentes, ritmos diferentes, situações que exigem atenções diferentes. Algumas aprendizagens são de curta duração (um treinamento, um curso com objetivos muito específicos) enquanto que outras são mais amplas, cumulativas, que se integram, superpõem e reelaboram sucessiva e progressivamente ao longo dos anos. As aprendizagens mais importantes se realizam de forma constante e no longo prazo, se reelaboram continuamente num projeto de vida multidimensional.
Aprendemos mais e melhor se persistimos sempre na atitude ativa, confiante e permanente de integrar as múltiplas conexões que a vida nos oferece, simples e complexas, físicas e virtuais. Aprendemos de verdade, quando percebemos que nossa vida é o grande projeto de aprendizagem, e que cada experiência, vivência, encontro e fracasso são oportunidades fascinantes de evoluir, crescer, amadurecer sempre mais. Tudo isso contribuirá para que nossa vida seja mais produtiva, enriquecedora e plena.
Aprender não é simples, não é igual e há muitos obstáculos e caminhos.
Vale a pena.
O mesmo acontece com Ensinar.
Papirus, 21ª ed, p. 27-29, texto revisto e ampliado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário