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08/02/2014

A Águia que (quase) virou galinha - Paráfrase do livro "A Águia e a Galinha" de Leonardo Boff

A ideia desta estória não é minha. Meu, é só o jeito de contar... É sobre uma águia que foi criada num galinheiro e foi aprendendo sobre o jeito galináceo de ser, de pensar, de ciscar a terra, de comer milho, de dormir em poleiros...

E na medida em que a águia ia aprendendo a ser galinha, ia esquecendo as poucas lembranças que lhe restavam do passado. É sempre assim: todo aprendizado exige um esquecimento... E a águia desaprendeu - o cume das montanhas, os vôos nas nuvens, o frio das alturas, a vista se perdendo no horizonte, o delicioso sentimento de liberdade...

Como não havia ninguém que lhe falasse dessas coisas e convivendo com as galinhas que cacarejavam sempre os mesmos catecismos, ela acabou por acreditar que não passava de uma galinha com alguma perturbação hormonal: tudo nela era grande demais em relação às outras galinhas; aquele bico curvo era sinal certo de acromegalia... e desejava muito que o seu cocô tivesse o mesmo cheiro do cocô das outras galinhas...

Um dia, apareceu por lá um homem que vivera nas montanhas e vira o voo orgulhoso das águias. Quando viu aquela águia presa naquele galinheiro, perguntou a ela:

- O que é que você faz aqui?

- Este é meu lugar, ela respondeu. Todo mundo sabe que galinhas vivem em galinheiros, comem milho, ciscam o chão, botam ovos e finalmente viram canja: nada se perde, utilidade total...

- Mas você não é uma galinha, ele disse. Você é uma águia.

- De jeito nenhum, retrucou ela. Águia voa alto e eu nem sequer voar sei! Pra dizer a verdade, nem quero, a altura me dá vertigens. É mais seguro ir andando, passo a passo dentro deste galinheiro...

E não houve argumento que mudasse a cabeça da águia esquecida. Até que o homem, não aguentando mais ver aquela coisa triste - uma águia transformada em galinha - agarrou a ave à força e a levou até o alto de uma montanha.

A pobre águia começou a cacarejar de terror, mas o homem não teve compaixão: jogou-a no vazio do abismo...

Foi então que o pavor, misturado às memórias que ainda moravam em seu corpo, fez as asas baterem, a princípio em pânico, mas pouco a pouco com tranquila dignidade, até se abrirem confiantes, reconhecendo aquele espaço imenso que lhe fora roubado.

E ela finalmente compreendeu que o seu nome não era galinha, mas Águia... Fonte

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