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09/01/2014

Análise do livro: A Paixão de conhecer o mundo de Madalena Freire - Por Rosemary Corrêa Galvão de Castro Batista


Através da leitura do livro de Madalena Freire é possível acompanhar uma prática em que os princípios norteadores do trabalho são claros e definidos e, principalmente, teoria e prática aparecem indissociáveis.

Percebe-se claramente que sua experiência pedagógica é sempre baseada no campo de referência do seu grupo, no atendimento das necessidades de suas crianças, e seu livro é resultado de um processo de evolução do seu pensamento pedagógico. 

Seu trabalho traz alguns pontos importantes que é preciso destacar, a fim de que os professores possam refletir sobre eles e, quem sabe, procurar compreendê-los melhor, não só com o trabalho por ela apresentado, mas também por meio das várias referências que a autora faz no decorrer de seus relatos. Sua marca bastante significativa é trabalhar com a criança como ser capaz de aprender e, por isso, como sujeito que está no centro do processo ensino / aprendizagem. Sabemos que as práticas pedagógicas nas escolas brasileiras, de um modo geral, e nas escolas de educação infantil, em particular, denunciam uma concepção de criança como sendo um ser "incapaz" tanto para planejar, avaliar, como para pensar os demais momentos do processo de aprendizagem, e, em vez de ser sujeito da educação, acaba apenas executando tarefas que o professor pensa para elas.

Madalena Freire rompe com isso, acreditando e fazendo da criança um sujeito que é capaz de construir seu processo de conhecimento. Isso foi e é possível porque a educadora mostra conhecer como a criança pensa o mundo e o que impulsiona seu desenvolvimento. Não basta boa vontade, dedicação e carinho; é preciso também um suporte teórico sem o qual não é possível refletir a própria prática. Desta maneira, a prática e a teoria tecerão esse "tecido" espiralado que é o processo de conhecimento. 

O papel do professor, apresentado pela autora, passa de figura catalisadora, necessária no início do trabalho, para o de professora organizadora das atividades. "Organizadora no sentido de quem observa, colhe os dados, trabalha em cima deles, com total respeito aos educandos que não podem ser puros objetos da ação do professor" (Freire, p. 21).

O brincar é entendido como atividade principal da criança da educação infantil, o que significa que é através do brincar que o mundo se abre para a criança, que as possibilidades de interpretação da realidade se apresentam, e, por isso, é nessa atividade que a criança mais desenvolve seu raciocínio e outras funções psicológicas superiores, como a memória lógica, a atenção voluntária, o controle da vontade. Daí a necessidade da observação atenta do professor sobre a conduta das crianças nas "brincadeiras livres". É a partir dessa observação que o professor tem a oportunidade de entrar em contato com a riqueza de interesses apresentada pelas crianças. Por meio das reflexões sobre suas observações, o professor poderá prover, sob a forma de atividades, o "alimento", as respostas aos interesses buscadas por uma criança ou pelo grupo. Além disso, a observação envolve também a necessidade de estudar, de saber o porquê de as crianças se comportarem de certa maneira, ou se interessarem por determinados jogos, por exemplo.

"A busca de conhecimento não é para a criança preparação para nada, e sim vida aqui e agora” (Freire, p. 50). (...) Todo esse processo de busca e descobertas nos desvela o processo educativo, "a educação como ato de conhecimento" que nunca se esgota é permanente e vital" (Freire, p. 54) 

O encadeamento de atividades em torno de um tema gerador aponta a necessidade de se romper com as atividades fragmentadas e alienadas que acabam por impedir o desenvolvimento infantil. No processo de descobertas tudo anda junto. Não existem compartimentos estanques: ciências, artes plásticas, alfabetização, etc. As descobertas invadem todas as áreas. Sua forma de trabalho permite que a criança concilie a curiosidade com o conhecimento a respeito da realidade. 

Madalena Freire mostra sempre a sua preocupação de marcar bem para as crianças que elas estão descobrindo, conhecendo, aprendendo, e que tudo o que foram aprendendo deve ser socializado. 

Nesse sentido, o objetivo da educação, portanto, não consistirá na transmissão de verdades, informações, demonstrações, modelos, etc. e sim em que o aluno aprenda por si próprio, sob a orientação segura e intencional do professor, a conquistar essas verdades, mesmo que tenha que realizar todos os tateios pressupostos por qualquer atividade real. A atividade em grupo incentivada por Madalena Freire, é importante porque a própria atividade grupal tem um aspecto integrador, visto que cada membro do grupo apresenta uma faceta da realidade. O conjunto de relações de reciprocidade e de cooperação, ao mesmo tempo moral e racional, raramente é assegurado pela autoridade do professor, ou pelas lições, informações, modelos que ele possa sugerir ou apresentar, mas pela vida social entre os próprios alunos e pelo autogoverno. 

Diante disso tudo, acredito ser fundamental a leitura deste livro por todos aqueles que trabalham direta ou indiretamente na área educacional. 

É comum ouvir professores que não acreditam haver possibilidade de mudanças na forma de se conduzir a prática pedagógica. Que este livro sirva não de modelo, mas de possibilidade, de luz, caminho para que cada um de nós possa pensar nossa atuação como educadores e que também nós possamos redescobrir "A paixão de conhecer o mundo". 

Texto escrito em 1995 para uma disciplina do curso de Pedagogia - UNESP Marília.
Conheça um pouco do livro

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