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30/01/2014

Tire suas dúvidas sobre o Autismo

Padre captura universo especial de su hijo autista en proyecto fotográfico | Juventud Fotográfica
O Dr. Leandro Teles é um dos mais conceituados Neurologistas brasileiros da atualidade.
Jovem, acessível e com um currículo alicerçado em experiências acadêmicas e profissionais vividas em uma das principais faculdades de medicina do país.
FORMAÇÃO ACADÊMICA
Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Residência Médica em Neurologia Clínica no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
Médico Preceptor (atividade docente) do Departamento de Neurologia do HC-FMUSP nos anos de 2010-2011 e 2011-2012
Preceptor Homenageado pelos Formandos do curso de Medicina em 2010
Mais de 100 aulas ministradas ao curso de Medicina da Faculdade de Medicina da USP.
Co-autor de artigos científicos e livros textos em Neurologia Clínica
Membro efetivo da ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA (ABN)

Quatro características fundamentais do autismo

Padre captura universo especial de su hijo autista en proyecto fotográfico | Juventud Fotográfica
O processamento sensorial é quase sempre um desafio para crianças com autismo e, para mim, é o ponto de partida para tudo que queremos fazer para ajudá-los. Muitas crianças com autismo apresentam hipossensibilidade (Sensibilidade menor que a normal em relação a estímulos externos.) ou hipersensibilidade (Sensibilidade exagerada) a estímulos do dia a dia como sons, texturas, cheiros e outros estímulos vestibulares ou proprioceptivos. Mais do que meras irritações, sensibilidades amplificadas podem causar dor física, náusea, ansiedade e muitos outros sintomas. Pessoas cujos sistemas sensoriais estão organizados de forma típica conseguem processar milhares de estímulos sensoriais simultâneos sem esforço, mas uma criança com autismo muitas vezes não consegue processar mais que um por vez. Eu aconselho os pais a lidar com as questões sensoriais primeiro, especialmente quando estiverem tentando entender o que está causando comportamentos negativos ou atípicos. Para uma criança cujos sistemas sensoriais estão desordenados, todo o seu ambiente parece ser hostil. Não é possível se chegar a qualquer aprendizado ou socialização significativos se a criança não é capaz de tolerar o bombardeio sensorial acontecendo ao seu redor no que parece, para nós, um simples dia de vida comum.

Atrasos ou dificuldades na linguagem oral são comuns no autismo. Nossa sociedade valoriza imensamente a palavra falada, mas para muitas crianças que são não verbais, minimamente verbais, que possuem um pequeno vocabulário ou apresentam dificuldade com a pragmática linguística, é essencial que nós as ajudemos a criar um meio de comunicação funcional, qualquer que seja esse meio. A comunicação pode ser realizada através de sistemas de figuras, língua de sinais, teclado para digitar a mensagem ou ainda a própria fala, pois, sem um meio de comunicação funcional, a criança não consegue expressar seus desejos e necessidades. Tente imaginar como seria a sua vida sem o acesso aos meios de comunicação e equipamentos que você considera necessários, e quanto tempo você conseguiria ficar sem esses meios antes de ficar sobrecarregado com frustração, ansiedade e raiva.

Habilidades de interação social comprometidas em sua criança com autismo frequentemente a deixam confusa. A falta dessas habilidades de interação social pode levar ao isolamento, mas a boa notícia é que há muitos recursos e oportunidades para ensinar as habilidades de pensamento social que levam às nossas ações sociais. Algumas escolas estão começando a reconhecer que o “QE” – quociente de inteligência socioemocional de uma pessoa – é tão importante para o sucesso na vida quanto a inteligência cognitiva. Já podemos ver algumas aulas curriculares para o desenvolvimento da inteligência socioemocional na escola.

A autoestima e uma perspectiva positiva de si mesmo são geralmente afetadas de forma negativa pelos desafios do autismo. Todos nós desejamos ser aceitos por quem somos, ao invés de sermos constantemente destrinchados e avaliados por nossas peculiaridades e dificuldades, ou sermos desmontados para termos nossas partes consertadas. A criança com autismo apresenta diversos desafios que podem ser superados em um processo terapêutico e educacional. Ela vai precisar de anos de orientação especializada para alcançar um lugar confortável no mundo, mas ela não precisa ser consertada, e o objetivo não é torná-la uma pessoa “normal”. Para ajudar uma criança com autismo a acreditar que ela poderá ser um adulto independente, produtivo e bem-sucedido, precisamos ajudá-la a desenvolver o sentido de sua pessoa como um todo e demonstrar o quanto apreciamos o que há nela para celebrar e admirar, assim como o quanto ela pode ser um exemplo a ser seguido por nós. Amamos e a guiamos a criança com a mesma aceitação de sua “pessoa como um todo” que gostaríamos que os outros tivessem por nós. Fonte

24/01/2014

Lenda

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Conta uma lenda que um velho sábio foi procurado por alguns membros de uma aldeia para que lhes dessem um ensinamento. O sábio perguntou: “As pessoas da aldeia sabem sobre aquilo que vou falar?” Responderam que não. O sábio então disse: “Neste caso, não adianta eu ir, pois não entenderiam minha mensagem”. Imediatamente retrucaram: “Eles sabem, sim”. “Se eles já sabem —argumentou o sábio—, minha presença é dispensável”. Os aldeões pensaram um pouco e disseram: “Na verdade, alguns sabem e outros não”. O sábio afirmou: “Ora, então os que sabem ensinem os que não sabem”. Diante do impasse, os aldeões finalmente convenceram o sábio a ir para a vila uma vez que conseguiriam expressar a motivação mais profunda da solicitação: “Alguns sabem mais, outros sabem menos, mas o que queremos mesmo é saber com o senhor”. 
Trecho de um Artigo publicado na Revista de Educação AEC n. 143 (abril-junho de 2007)

14/01/2014

"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar" Por Zygmunt Bauman

O sociólogo polonês radicado na Inglaterra Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados e produtivos da atualidade. Aos 84 anos, escreveu mais de 50 livros. Dois dos mais recentes, “Vida a crédito” e “Capitalismo Parasitário” chegam ao Brasil pela Zahar. As quase duas dezenas de títulos já publicados no País pela editora venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico. Pode-se explicar o apelo de sua obra pela relativa simplicidade com que esmiúça aspectos diversos da “modernidade líquida”, seu conceito fundamental. É assim que ele se refere ao momento da História em que vivemos. Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultariam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranóia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas. E cada um por si. “Nossos ancestrais eram esperançosos: quando falavam de ‘progresso’, se referiam à perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. Nós estamos assustados: ‘progresso’, para nós, significa uma constante ameaça de ser chutado para fora de um carro em aceleração”, afirma. Em entrevista à ISTO É, por e-mail, o professor emérito das universidades de Leeds, no Reino Unido, e de Varsóvia, na Polônia, falou também sobre temas que começou a estudar recentemente, mas são muito caros aos brasileiros: tráfico de drogas, favelas e violência policial.
O que caracteriza a “modernidade líquida”?
ZYGMUNT BAUMAN - Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida.
As pessoas estão conscientes dessa situação?
ZYGMUNT BAUMANAcredito que todos estamos cientes disso, num grau ou outro. Pelo menos às vezes, quando uma catástrofe, natural ou provocada pelo homem, torna impossível ignorar as falhas. Portanto, não é uma questão de “abrir os olhos”. O verdadeiro problema é: quem é capaz de fazer o que deve ser feito para evitar o desastre que já podemos prever? O problema não é a nossa falta de conhecimento, mas a falta de um agente capaz de fazer o que o conhecimento nos diz ser necessário fazer, e urgentemente. Por exemplo: estamos todos conscientes das consequências apocalípticas do aquecimento do planeta. E todos estamos conscientes de que os recursos planetários serão incapazes de sustentar a nossa filosofia e prática de “crescimento econômico infinito” e de crescimento infinito do consumo. Sabemos que esses recursos estão rapidamente se aproximando de seu esgotamento. Estamos conscientes — mas e daí? Há poucos (ou nenhum) sinais de que, de própria vontade, estamos caminhando para mudar as formas de vida que estão na origem de todos esses problemas.
Para ler a entrevista na íntegra - clique aqui

12/01/2014

Sequestro do ônibus 174

OCUPA SP

Ah! Desgraçados!

Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: "a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando".
Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguém se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça.
Bertolt Brecht
Clarin.com HD

O sequestro do ônibus 174 é um episódio marcante da crônica policial do Rio de Janeiro, no Brasil. No dia 12 de junho de 2000, às quatorze horas e vinte minutos, o ônibus da linha 174 (atual 158) (Central-Gávea) da empresa Amigos Unidos ficou detido no bairro do Jardim Botânico por quase 5 horas, sob a mira de um revólver, por Sandro Barbosa do Nascimento, vítima da antiga Chacina da Candelária.

Após um tempo, Sandro libera também uma mulher chamada Damiana Nascimento Souza. Damiana já tinha sofrido dois AVCs e, naquele momento, passou mal novamente tendo um terceiro derrame. Segundo uma reportagem da Revista Época, o derrame "deixou-a sem a fala e sem os movimentos do lado esquerdo do corpo. (...) Desde então, caminha com dificuldade, comunica-se por escrito e apenas dois motivos a fazem deixar a casa humilde, no topo do Morro da Rocinha: ir ao médico e depositar flores no cenário da tragédia".

Um dos momentos de maior tensão foi quando o assaltante andou de um lado para o outro com um lençol na cabeça de Janaína. Segundo ela, Sandro afirmou que iria contar de um até cem, e quando chegasse no fim da contagem, ele a mataria. Sandro contava pulando os números e, ao chegar no número cem, fez a refém se abaixar e fingiu dar-lhe um tiro na cabeça. Após isso, fez ameaças: "delegado, já morreu uma, vai morrer outra".

A agonia dos passageiros do ônibus carioca que faz a linha 174 teve início às 14h20 de segunda-feira. No bairro do Jardim Botânico, fez sinal o assaltante Sandro do Nascimento. Com bermuda, camiseta e um revólver calibre 38 à mostra, ele pulou a roleta e sentou-se próximo a uma das janelas. Vinte minutos depois, um dos passageiros conseguiu sinalizar para um carro da polícia que passava pela rua. O ônibus, então, foi interceptado por dois policiais. Nesse momento, o pânico já se havia instalado. O motorista e o cobrador abandonaram o veículo e alguns passageiros também conseguiram escapar, pulando pelas janelas e pela porta traseira. Dez passageiros, porém, foram tomados como reféns pelo sequestrador. Luciana Carvalho foi uma das primeiras que teve a arma colocada na cabeça. Sandro a levou para a frente do ônibus e queria que ela dirigisse o veículo. Foi ali que o sequestrador fez o primeiro disparo, um tiro contra o vidro do ônibus, feito para intimidar os fotógrafos e cinegrafistas no local.

Willians de Moura, que na época era estudante de administração, foi o primeiro refém a ser liberado, ficando outras dez pessoas que eram todas do sexo feminino. Após a liberação de Willians, Sandro apontou a arma na cabeça de Janaína Neves e a fez escrever nas janelas, com batom, frases como: "Ele vai matar geral às seis horas" e "ele tem pacto com o diabo".

Momentos de tensão e diálogo fizeram cenário entre as reféns e Sandro por muito tempo. Às dezoito horas e cinquenta minutos no horário de Brasília, Sandro decidiu sair do ônibus, usando a professora Geísa Firmo Gonçalves como escudo. Ao descer, um policial do BOPE tentou alvejar Sandro com uma submetralhadora e acabou errando o tiro, acertando a refém de raspão no queixo. Geísa acabou também levando outros três tiros nas costas, disparados por Sandro.

De acordo com o Instituto Médico Legal, Geisa foi alvejada quatro vezes. A primeira vez, pela arma do policial. O que deveria ter sido o tiro letal no marginal feriu de raspão o queixo da moça. A reação do bandido foi se abaixar, usando a jovem como escudo. Ao mesmo tempo, disparava à queima roupa atingindo seu tronco e o meio das costas.

Com sua refém morta, Sandro foi logo imobilizado enquanto uma multidão correu para tentar linchá-lo. Ele foi colocado na viatura com outros policias segurando-o. Sandro foi morto por asfixia ali dentro. Segundo sua tia Julieta Rosa do Nascimento, a assistente social Yvone Bezerra e a mãe Dona Elza da Silva (a única pessoa que participou de seu enterro), Sandro não era capaz de matar ninguém, mas de acordo com a polícia do Rio, Sandro tinha um comportamento nervoso e agressivo e chegou a quebrar o braço de um policial e morder outros ao tentar, supostamente, tirar uma arma deles. Após alegações de que a morte de Sandro foi ocasional, os policiais responsáveis pela morte de Sandro foram levados a julgamento por assassinato e foram declarados inocentes. Em novembro de 2001, a linha 174 mudou de número para 158.

Geísa Firmo Gonçalves foi enterrada em Fortaleza — CE, no cemitério do Bom Jardim. Seu enterro foi acompanhado por mais de 3.000 pessoas.

Publicado em 02/01/2011

11/01/2014

O tempo - Por Mário Quintana

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A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas! 
Quando de vê, já é sexta-feira! 
Quando se vê, já é natal... 
Quando se vê, já terminou o ano... 
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. 
Quando se vê passaram 50 anos! 
Agora é tarde demais para ser reprovado... 
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas... 
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo... 
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. 
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. 
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

UTOPIA - Por Carlos Alberto Rodrigues Alves

paz
Um dia, a paz e a justiça
coroarão nossos belos mundos sonhados
Um dia, a paz e a justiça
se beijarão como eternos namorados
Um dia, a paz e a justiça
sepultarão os mais temidos arsenais
Um dia, a paz e a justiça
serão as ternas verdades finais
Um dia, a paz e a justiça
tirarão de nossos lábios a palavra guerra
Um dia, a paz e a justiça
brindarão este nosso céu chamado terra
Um dia, a paz e a justiça
exterminarão as feias faces da fome
Um dia, a paz e a justiça
serão de todas as nações, o novo nome
Um dia, a paz e a justiça
irão celebrar, alegremente, nossa utopia
Um dia, a paz e a justiça
farão nascer da noite escura, o sol do novo dia.
Parece incrível, mas isto pode acontecer
a partir de cada um de nós.

10/01/2014

Hipocondríaco sem remédio - Humberto Werneck

Foi eu abrir a minha caixinha de pílulas, no café da manhã, e ele esticar o pescoço para xeretar, tomado de súbita excitação:

— O que temos aí?

Tínhamos ali uns poucos e modestos fármacos, como ele gosta de dizer, não mais que três bolotinhas brancas — e, diante do espetáculo pífìo, meu amigo pôs no rosto uma expressão de superioridade próxima do desprezo. Sacou sua própria caixinha - palavra reles demais para descrever o estojo de metal esmaltado que, por simples ação de presença, reduziu a nada o recipiente de plástico plebeu onde os meus ridículos comprimidos se comprimiram ainda mais, cobertos de vergonha farmacológica. Um botãozinho, plec, descortinou teatralmente a profusão de pílulas, de diferentes cores, formatos e tamanhos, para os mais variados males, presentes, futuros e passados, sem excluir os imaginários. Como um lapidário com seus brilhantes e rubis, ele espalhou as gemas sobre a mesa e foi fazendo as apresentações: esta é para isto, esta para aquilo...

Cada qual tem nesta vida um assunto em que se sente mais à vontade, e o desse meu amigo é remédio. Mas não qualquer um. Não ousem falar com ele de chás, florais, homeopatia. Muito menos de medicamentos baratos, a seu ver incapazes, já por motivos econômicos, de surtir efeito: é preciso que haja sofrimento monetário. Remédio sem bula? Meu amigo não passa sem essa literatura de terror em que o nome mais simples de personagem tem sete sílabas.

Faz mais fé nas pílulas coloridas do que nas brancas, nas cápsulas do que nos comprimidos e, sobretudo, nas pastilhas efervescentes, que nem entraram ainda no organismo e já estão, com suas borbulhas, mostrando serviço. É ver uma injeção e dar o braço a picar. Gosta de remédio que arde - sinal de que está fazendo efeito. "Zé Febrinhà', como costumamos chamá-lo, carrega seu termômetro aonde quer que vá. Adora consulta médica, ocasião em que o assunto é ele, só ele e suas entranhas, e se anima todo durante o interrogatório a respeito da caxumba na infância. É com entusiasmo futebolístico que fala de suas passagens por salas de cirurgia, nas quais vem deixando seus miúdos, das amígdalas ao prepúcio, do apêndice à vesícula biliar.

— Estou indo aos poucos — anuncia ele orgulhosamente.

Dia desses, ao telefone, enveredou pelo relato de seu despertar após a cirurgia de vesícula. Ao abrir os olhos, a primeira coisa que percebeu, sobre o criado-mudo, foi um potinho de plástico em cujo interior transparecia uma pedra escura e informe.

— Maior pedregulho, meu! — disse ele, feliz como garimpeiro que acaba de recolher na bateia um graúdo diamante. Poucos homens já vi gabarem-se com tão segura vaidade no quesito tamanho. Ou — que ele não me leve a mal — galinha cacarejar com tanto júbilo ao botar um ovo.

O seu entusiasmo não diminuiu nem mesmo quando, incorporando o meu ocasional espírito de porco, observei que uma ostra é capaz de feito bem maior, já que produz pérolas, não calhaus fuliginosos.

— Você não sabe de nada — desdenhou ele, em seu pétreo orgulho mineral, e entrou a falar da fita de vídeo que encontrou ao lado do potinho, ao voltar da anestesia: 0 filme, sem cortes, da sua cirurgia. A primeira peça, espera meu amigo, de uma videoteca ambientada exclusivamente em suas entranhas.

Cerveja na mão e cumbuca de amendoim ao lado, ele já pôs para rodar incontáveis vezes essa produção intimista, e, cinéfilo visceral, se compraz em descrever as passagens mais emocionantes da extração de sua vesícula.

— Finalmente há uma prova de que você tem vida interior — disse eu.

— Você vai ver na primeira vez que vier aqui em casa — retrucou ele, não sei se como promessa ou ameaça.

Como alguém que gostou mais do livro que do filme, meu amigo preferiu a pedra ao vídeo.

— Já me abriram várias vezes — deu-se à pachorra de explicar — e nunca encontraram nada bom, só coisas inaproveitáveis. Agora acharam essa pedra. Pode não ser uma pérola, como você diz, mas dá para guardar de lembrança.
(9/1/2010)
O texto acima foi extraído do livro "O espalhador de passarinhos & outras crônicas", Ed. Dubolsinho - Sabará (MG), 2010, págs. 42/44. Ilustrações de Sebastião Nunes.
"Na crônica, podemos escrever qualquer bobagem. Romance requer atenção"

Notas sobre A banda - Por Humberto Werneck

Without Control
"Há quem jure que a ideia lhe veio ao assistir à troca de guarda da rainha em frente ao Palácio de Buckingham, em Londres, durante a viagem com Morte e vida severina. Sem excluir essa hipótese, o que ele se lembra é de uma noite no Sandchurra, um bar que havia na Galeria Metrópole, no Centro de São Paulo, em que ouviu Gilberto Gil cantar o Rancho da rosa encarnada, e pensou: "Tenho que fazer uma música pra ganhar dessa aí no festival."
A Banda (interpretada por Chico Buarque e Nara Leão) dividiu o 1º lugar com Disparada de Geraldo Vandré e Théo de Barros, defendida por Jair Rodrigues, Trio Maraiá e Trio Novo, no II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record, com final em 10 de outubro de 1966).
"O produtor Zuza Homem de Mello que tudo presenciou, é taxativo: "Uma das músicas ganhou da outra, não houve empate." O nome da vencedora ele não revela, fiel a um compromisso assumido naquela noite com diretor da Record, Paulo Machado de Carvalho Filho - mas não é difícil imaginar qual seja. Zuza recebeu deles a papeleta com os nomes dos jurados e a instrução de guardá-las em local seguro. "Não deixe ninguém ver" recomendou o dono da emissora. Assim se fez. As papeletas foram depositadas num cofre em casa de Zuza, que só muito anos depois as devolveu a Paulo Machado de Carvalho Filho."
Segundo o escritor Roberto Freire, membro do Júri: "Ele não queria, de jeito nenhum, ser o único vencedor."

Dividido o prêmio, cada música ficou com aproximadamente 6.800 dólares. Pouco tempo depois um compacto de Nara Leão com A banda chegou a vender cem mil cópias em menos de uma semana, feito considerável para a época.

(...) Maquiavélica, a ditadura utilizou A banda numa campanha do Alistamento militar - e, diante do protesto formal de Chico, jogou a responsabilidade sobre a agência de propaganda que fizera o anúncio. (Nota do editor: após o protesto a música foi retirada da propaganda.)

Não tardou para que a banda chegasse aos quatro cantos do mundo, não raro em versões absurdas. A alemã por exemplo, assinada por Weyriche Conta, resultou nesse amontoado de sandice:

E certamente este ano
já se pode prever
o mundo da moda trará
o que agrada Rosita
quando no México, à noite
ao carnaval se vai [...]
Uma moda como a banda
ainda não houve
Os cocos se transformam em roupagens
e a brincadeira continua
A banda está aí

© Copyright Humberto Werneck in Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989

Notas sobre A banda - Por Carlos Drummond de Andrade

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O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a ideia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

Carlos Drummond de Andrade Correio da Manhã, 14/10/66

09/01/2014

A história da maçã que queria ter uma estrela

Andi Rubenstein conta a história de uma macieira que todas as noites olhava para o céu e desejava ter um pontinho de luz.
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VIDA DE BONEQUEIRA
Por Aryane Cararo
Criar e dar vida aos bonecos é legal, não é? Tão legal que fez com que a Andi abandonasse a carreira de arquiteta e fosse aprender a confeccionar fantoches e marionetes. Isso foi há 15 anos! De lá para cá, Andi fez mais de 50 bonecos, e poderia ter feito até mais. Acontece que ela também é contadora de histórias e acaba se dividindo entre as duas funções. Aliás, você já viu como ela conta histórias bem? A Andi quase sempre se apresenta no Circuito Estadinho, você precisa ver!

Poema sobre a Velhice

Fotos da Linha do tempo | via Facebook
Não tenho medo da velhice,
Mas sim de não ter realizado
Tudo aquilo que podia ou pretendia...
De chegar ao fim da vida
Sem deixar minha digital
E carregar uma frustração sem saída...
De amargar por onde for 
Esta dor de nesta lida ser tão preterida...
Não tenho medo da velhice,
Mas de existir como se não existisse,
E seguir entre sonhos intocáveis
Onde sequer me percebem
Onde nem faço parte da paisagem...
E mesmo sobrepujando obstáculos
Que me humilham, ferem no escuro,
Perseguir um destino que se estilhaça ante meus olhos
E parece não ter porta para o futuro...
Não tenho medo da velhice,
Apenas de esquecer quem sou,
E não esquecer o mal que me fizeram,
Em tanto tempo, por tantos séculos
Essas dores e tristezas ancestrais que carrego
Dentro da alma contrita,
Numa expansão universal incontida...
Não tenho medo da velhice. Fonte
Envelhecendo em 1 minuto

SOBRE A DIDÁTICA COMO ARTE

  "Personagens de Festas Populares" - 1,00x1,30mts
A DIDÁTICA tem perdido cada vez mais seu caráter instrucional baseada em aulas e provas repetitivas para assumir, com vigor, o “status” de arte. Esta arte jamais descarta as informações científicas, pois sem elas não se pode conhecer e manipular o mundo. Mas por outro lado, é importante saber que essas informações só serão relevantes se forem impregnadas de estética e beleza. Afinal, conhecimentos científicos são indispensáveis, mas sozinhos, são impotentes para transformar massas disformes em pessoas cidadãs.
Pensando assim, a DIDÁTICA contempla alguns princípios significativos que precisam estar na pele e nos poros do educador contemporâneo. 
Primeiro princípio didático: Mais do que dar respostas a perguntas que não foram feitas, o professor deve ter capacidade de propiciar ao aluno capacidade de pensar critica e criativamente a realidade. Aprendendo a arte de pensar o aluno cria a possibilidade de descobrir novos saberes. Não fica apenas na memória acumulada. Produz novos conhecimentos. O educador que compreende esse princípio pode dizer como Edgar Morin : “Uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia”. 
Segundo princípio didático: O Educador que sabe este princípio sabe que seu dever é trabalhar para que o aluno tenha o prazer da autonomia. Este processo tem duas dimensões: a dimensão do prazer e a dimensão da dor. Aprendemos o saber quando ele tem sabor. Mas também há aprendizagens profundas que nos dilaceram as entranhas. Lembro-me também de um adágio popular: “Ostra feliz não produz pérola”. 
Terceiro princípio didático: O educador tem que querer a emancipação completa do aluno: seu conhecimento racional e também o poder de sua auto-estima. Isto exige do educador uma didática que esteja voltada para uma visão holística, para as múltiplas inteligências, para a integração de conhecimentos e para a transdisciplinaridade. O educador que entende esse princípio sabe que bom professor não é o que produz alunos, mas o que produz mestres.
Pensar a DIDÁTICA como arte é pensar que em cada aluno existe uma beleza adormecida. Concordo com Rubem Alves quando diz: “As inteligências dormem. Inúteis são todas as tentativas de acordá-las por meio da força e das ameaças. As inteligências só entendem os argumentos do desejo: elas são ferramentas e brinquedos do desejo”. Fonte

Análise do livro: A Paixão de conhecer o mundo de Madalena Freire - Por Rosemary Corrêa Galvão de Castro Batista


Através da leitura do livro de Madalena Freire é possível acompanhar uma prática em que os princípios norteadores do trabalho são claros e definidos e, principalmente, teoria e prática aparecem indissociáveis.

Percebe-se claramente que sua experiência pedagógica é sempre baseada no campo de referência do seu grupo, no atendimento das necessidades de suas crianças, e seu livro é resultado de um processo de evolução do seu pensamento pedagógico. 

Seu trabalho traz alguns pontos importantes que é preciso destacar, a fim de que os professores possam refletir sobre eles e, quem sabe, procurar compreendê-los melhor, não só com o trabalho por ela apresentado, mas também por meio das várias referências que a autora faz no decorrer de seus relatos. Sua marca bastante significativa é trabalhar com a criança como ser capaz de aprender e, por isso, como sujeito que está no centro do processo ensino / aprendizagem. Sabemos que as práticas pedagógicas nas escolas brasileiras, de um modo geral, e nas escolas de educação infantil, em particular, denunciam uma concepção de criança como sendo um ser "incapaz" tanto para planejar, avaliar, como para pensar os demais momentos do processo de aprendizagem, e, em vez de ser sujeito da educação, acaba apenas executando tarefas que o professor pensa para elas.

Madalena Freire rompe com isso, acreditando e fazendo da criança um sujeito que é capaz de construir seu processo de conhecimento. Isso foi e é possível porque a educadora mostra conhecer como a criança pensa o mundo e o que impulsiona seu desenvolvimento. Não basta boa vontade, dedicação e carinho; é preciso também um suporte teórico sem o qual não é possível refletir a própria prática. Desta maneira, a prática e a teoria tecerão esse "tecido" espiralado que é o processo de conhecimento. 

O papel do professor, apresentado pela autora, passa de figura catalisadora, necessária no início do trabalho, para o de professora organizadora das atividades. "Organizadora no sentido de quem observa, colhe os dados, trabalha em cima deles, com total respeito aos educandos que não podem ser puros objetos da ação do professor" (Freire, p. 21).

O brincar é entendido como atividade principal da criança da educação infantil, o que significa que é através do brincar que o mundo se abre para a criança, que as possibilidades de interpretação da realidade se apresentam, e, por isso, é nessa atividade que a criança mais desenvolve seu raciocínio e outras funções psicológicas superiores, como a memória lógica, a atenção voluntária, o controle da vontade. Daí a necessidade da observação atenta do professor sobre a conduta das crianças nas "brincadeiras livres". É a partir dessa observação que o professor tem a oportunidade de entrar em contato com a riqueza de interesses apresentada pelas crianças. Por meio das reflexões sobre suas observações, o professor poderá prover, sob a forma de atividades, o "alimento", as respostas aos interesses buscadas por uma criança ou pelo grupo. Além disso, a observação envolve também a necessidade de estudar, de saber o porquê de as crianças se comportarem de certa maneira, ou se interessarem por determinados jogos, por exemplo.

"A busca de conhecimento não é para a criança preparação para nada, e sim vida aqui e agora” (Freire, p. 50). (...) Todo esse processo de busca e descobertas nos desvela o processo educativo, "a educação como ato de conhecimento" que nunca se esgota é permanente e vital" (Freire, p. 54) 

O encadeamento de atividades em torno de um tema gerador aponta a necessidade de se romper com as atividades fragmentadas e alienadas que acabam por impedir o desenvolvimento infantil. No processo de descobertas tudo anda junto. Não existem compartimentos estanques: ciências, artes plásticas, alfabetização, etc. As descobertas invadem todas as áreas. Sua forma de trabalho permite que a criança concilie a curiosidade com o conhecimento a respeito da realidade. 

Madalena Freire mostra sempre a sua preocupação de marcar bem para as crianças que elas estão descobrindo, conhecendo, aprendendo, e que tudo o que foram aprendendo deve ser socializado. 

Nesse sentido, o objetivo da educação, portanto, não consistirá na transmissão de verdades, informações, demonstrações, modelos, etc. e sim em que o aluno aprenda por si próprio, sob a orientação segura e intencional do professor, a conquistar essas verdades, mesmo que tenha que realizar todos os tateios pressupostos por qualquer atividade real. A atividade em grupo incentivada por Madalena Freire, é importante porque a própria atividade grupal tem um aspecto integrador, visto que cada membro do grupo apresenta uma faceta da realidade. O conjunto de relações de reciprocidade e de cooperação, ao mesmo tempo moral e racional, raramente é assegurado pela autoridade do professor, ou pelas lições, informações, modelos que ele possa sugerir ou apresentar, mas pela vida social entre os próprios alunos e pelo autogoverno. 

Diante disso tudo, acredito ser fundamental a leitura deste livro por todos aqueles que trabalham direta ou indiretamente na área educacional. 

É comum ouvir professores que não acreditam haver possibilidade de mudanças na forma de se conduzir a prática pedagógica. Que este livro sirva não de modelo, mas de possibilidade, de luz, caminho para que cada um de nós possa pensar nossa atuação como educadores e que também nós possamos redescobrir "A paixão de conhecer o mundo". 

Texto escrito em 1995 para uma disciplina do curso de Pedagogia - UNESP Marília.
Conheça um pouco do livro

08/01/2014

ENSINA A TEU FILHO - Frei Betto

precious | Photo!!
Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável. 

Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros, administradores competentes, autoridades honradas, que não se deixam corromper, não varrem as mazelas para debaixo do tapete, não temem desagradar amigos e desapontar poderosos, ousam pensar com a própria cabeça e preservar mais a honra que a vida.

Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes, e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer. 

Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais fertéis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.

Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas, griladas ou devolutas são, hoje, chamados de "bandidos", como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.

Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários. 

Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de suas vidas no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória, que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.

Ensina a teu filho evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que tenta nos incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética. Convence-o de que a felicidade não resulta da soma de prazeres e a via espiritual é um tesouro guardado no fundo do coração – quem consegue abri-lo desfruta de alegrias inefáveis.

Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e Frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Helder Camara e Chico Mendes.

Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz ao unir-se àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.

Ensina a teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem, e se a maioria o tiver será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.

Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito, a reverência pelos mais velhos, o cuidado da natureza, a proteção dos mais frágeis. .

Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.

Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto – autobiografia escolar" (Ática), entre outros livros.

07/01/2014

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A IMPORTÂNCIA DA ARTE PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO
A arte possibilita o encontro do ser consigo mesmo, de si com os outros, e com a totalidade da realidade humana. Deve ser provocadora da capacidade de observação dos fenômenos ao redor, e estimular a exteriorização dos sentimentos. Ela constitui uma possibilidade, para os alunos exercitarem suas co-responsabilidades, pelos destinos de uma vida cultural individual e coletiva, sem exclusão e preconceitos. A área de arte deve permitir aos alunos, não apenas criar produtos artísticos, mas também apreciá-los, examiná-los e avaliá-los. Também é preciso que eles entendam a importância da produção artística e superem a ideia de que , quando desenham, cantam, dançam, ou encenam uma peça de teatro estão se distraindo da seriedade das outras disciplinas. A melhor maneira de tornar a arte uma disciplina tão consistente como qualquer outra é indicar como as manifestações artísticas estão presentes no cotidiano, como nas ruas, vitrines, roupas, etc. Os conceitos e habilidades desenvolvidos nas aulas, de educação artística são necessários para entender e usufruir o mundo que nos cerca. Fonte

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O que fará depois desse vídeo? (Tome uma decisão) - Inspiração!

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