Licensa

17/12/2014

A APRENDIZAGEM AMARGA © THIAGO DE MELLO


 
Chega um dia em que o dia se termina 
antes que a noite caia inteiramente. 
Chega um dia em que a mão, já no caminho, 
de repente se esquece do seu gesto. 
Chega um dia em que a lenha já não chega 
para acender o fogo da lareira. 
Chega um dia em que o amor, que era infinito, 
de repente se acaba, de repente. 

Força é saber amar, perto e distante, 
como o encanto de rosa livre na haste, 
para que o amor ferido não se acabe 
na eternidade amarga de um instante. 

© THIAGO DE MELLO 
In Faz escuro mas eu canto, 1965 

A ALMA DA MATA © DORA BRISA

A alma desata 
Um grito engasgado, 
Na boca da mata, 
Terreno sagrado... 

Suspiro contido, 
Respiração ofegante, 
Nenhum ruído... 
Só o instante... 

A mata sagrada 
Convida o caminhante 
A seguir a luz da estrada, 
Ainda que vacilante... 

Em passo incerto, 
Adentra a mata... 
A luz, cada vez mais perto... 
A alma se dilata... 

O humano ficou para trás, 
Feito lembrança... 
Silenciosa, a mata faz 
Brincar a criança... 

Mata - mistério, 
segredos, 
cemitério 
de todos os medos... 

O mundo já não existe mais... 
Só troncos, folhas - Vida! 
...E muita paz 
Na alma agradecida... 

Mata - que tanto bem nos faz, 
Companhia segura, 
Nos desvenda 
A vida mais pura... 

Por entre as árvores seguimos 
Os passos dos Donos da mata... 
Seguros, nosso caminho abrimos 
Na consciência que se desata... 

Brisa suave nos faz continuar... 
De mãos dadas, 
Eles insistem em nos mostrar 
A seguir suas pegadas... 

E lá vamos nós, 
Seguros mata adentro... 
Escutando sempre a voz 
Das folhas, da cascata, do vento... 
Poesia integrante da I Antologia Poética A Voz da Poesia - 2008, pag. 148
Fonte(s) do(s) áudio(s):
Declamadora: Rosany Costa
Gentilmente autorizada à Voz da Poesia a publicação do arquivo de áudio © Todos os direitos reservados

06/12/2014

Poemas "Quem Sou Eu"

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.

Depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
Charles Bukowski

03/12/2014

RECADO AOS AMIGOS DISTANTES

Meus companheiros amados, 
não vos espero nem chamo: 
porque vou para outros lados. 
Mas é certo que vos amo. 

Nem sempre os que estão mais perto 
fazem melhor companhia. 
Mesmo com sol encoberto, 
todos sabem quando é dia. 

Pelo vosso campo imenso, 
vou cortando meus atalhos. 
Por vosso amor é que penso 
e me dou tantos trabalhos. 

Não condeneis, por enquanto, 
minha rebelde maneira. 
Para libertar-me tanto, 
fico vossa prisioneira. 

Por mais que longe pareça, 
ides na minha lembrança, 
ides na minha cabeça, 
valeis a minha Esperança. 

©CECíLIA MEIRELES 
In Poemas, 1951 

02/12/2014

Conto de Hermano Hesse

“José e Daniel foram dois renomados curandeiros que viveram em tempos bíblicos. Ambos eram muito eficazes, ainda que trabalhassem de maneiras e com estilos diferentes. Ainda que contemporâneos, nunca tiveram um encontro e se consideravam mutuamente rivais. Foi assim durante anos, até que José, o mais jovem, adoeceu espiritualmente. Desesperado e sentindo-se incapaz de curar-se a si mesmo, partiu em peregrinação buscando a ajuda de Daniel. Durante seu percurso, descansando em um oásis durante a noite, iniciou uma conversa com outro viajante que, ao escutar o propósito de sua viagem, ofereceu-se como guia para ajudá-lo em sua busca por Daniel. Partiram juntos e, no meio de sua longa expedição, o homem mais velho revelou sua identidade. Ele era Daniel, a quem José procurava. Ato contínuo, passado o assombro de José, Daniel o conduziu até sua casa, convidando-o a permanecer ali. No princípio, diante do pedido de Daniel, José foi seu servente. Logo aprendiz e, finalmente, um colega de igual hierarquia. Assim viveram e trabalharam juntos muitos anos. Anos depois, velho e doente, Daniel pediu a José que escutasse uma confissão. Começou recordando seu encontro no oásis quando José, doente, viajou em busca de sua ajuda e como José havia considerado milagroso aquele encontro. Agora, enfrentando sua própria morte, Daniel quebrou o silêncio de tantos anos confessando que, para ele, também foi milagroso. Ele também, naquela época, havia caído em um sombrio desespero, sentindo-se vazio espiritualmente e incapaz de curar a si mesmo. Aquela noite do encontro, ele havia iniciado sua própria viagem em busca da ajuda do famoso curandeiro chamado José.” Fonte
Aprender é descobrir aquilo que você já sabe. Fazer é demonstrar que você sabe. Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você. Vocês são todos aprendizes, fazedores e professores” Richard Bach, no livro Ilusões

A QUEM SE MACHUCA - Por Artur da Távola

Inimigos são duas pessoas pertinho uma da outra. Só que de costas. Há duas situações inimigas dentro do amor. Pertinho e uma de costas para outra. Ambas ameaçam dar certo e não dar certo.

Quando se ama, tanto se teme enfrentar a possibilidade de dar certo, cheia de prisões e tentáculos, como o risco de não dar certo e ficar rompida uma harmonia que poderia ter funcionado.

Ambas as situações convivem em quem ama: porque "viver bem" não é dar certo. Dar certo é ser capaz de prosseguir apesar do desacerto: "Viver mal" não é necessariamente dar errado. Dar errado é não poder prosseguir.

Composto também de partes inimigas, o amor se enriquece dos cansaços incapazes da destruição. Só vive do imperfeito de cada confronto. Só é, quando vive ameaçado de deixar de ser. Caso contrário, não seria: simplesmente deixaria de ser.

Os inimigos são duas pessoas pertinho uma da outra, mas de costas, porque se se virarem encontrar-se-ão. E é isso o que temem. São mais unidos, talvez, que amigos, um de frente para o outro, mas a metros ou quilômetros de distância, e só por isso se entendem.

O medo de amar é o medo de estar perto demais (ainda que de costas) o que de certa forma escraviza. O engano de amor é estar longe, mas de frente, o que de certa forma atenua.

A coragem de amar equivale à coragem de ser: é fazer dois inimigos, de costas um para outro, virarem-se de frente para sentir hálito, olho, medo, força, ternura, muita raiva e muito carinho e aceitar tudo, por isso amar.

A falsidade do amor é permanecer de frente como amigos: pura e simplesmente se aceitando. Sem contradita. Sem a oposição capaz de ser vencida pela permanência do sentimento, a despeito do eu de cada um.

O medo de quem ama é o medo da relação profunda porque nela está a entrega que não rompe, apesar das tragédias da superfície. E a superfície só faz a tragédia, para impedir que o eu contemple de frente a relação profunda. Esta contém o que não se destrói, apesar das diferenças.

Na relação profunda está o desamparo e a necessidade tão pura que nunca pôde vir à tona. Na relação superficial está a fantasia, o eu idealizado, a armadura enfeitada de cada um.

Quem se relacionar ao nível da armadura será feliz no começo, na fase hipnótica do amor. Quem preferir o nível profundo de relacionamento talvez seja até infeliz. Mas amará. A infelicidade pode fazer virar as costas para o inimigo, separar-se dele. Mesmo assim não será maior que o amor adivinhado e sentido, se a relação é profunda.

Não te vires de frente para o inimigo! Podes amá-lo. Ele vai adivinhar, e tu também, o amor que está na peleja de quem ama. Não fiques tão de frente, mas tão longe de quem gostas. No que chegares perto, talvez detestes e sejas detestado.

Amar é estar de costas. Gostar é estar de frente. Um ultrapassa a inimizade que vive junta. Outro vive da amizade fácil, mas que se se aproximar pode não ser amor. Por isso era tão fácil sentir.

Amar é apesar. É através. É a despeito, mas é com. Amar, às vezes, é contra, mas perto e fundo. Mesmo de costas. É malgrado. É com ferida e cicatriz, mas íntegro.

Amar fundo é ter medo de virar de frente. Porque aí pode surgir, cristalina, a possibilidade de dar certo. E a entrega. Que é, no fundo, o que mais teme quem ama. Fonte

01/12/2014

O SENTIDO SECRETO DA VIDA

Há um sentido profundo 
Na superficialidade das coisas, 
Uma ordem inalterável 
No caos aparente dos mundos. 

Vibra um trabalho silencioso e incessante 
Dentro da imobilidade das plantas: 
No crescer das raízes, 
No desabrochar das flores, 
No sazonar das frutas. 

Há um aperfeiçoamento invisível 
Dentro do silêncio de nosso Eu: 
Nos sentimentos que florescem, 
Nas idéias que voam, 
Nas mágoas que sangram. 

Uma folha morta 
Não cai inutilmente. 
A lágrima não rola em vão. 
Uma invisível mão misericordiosa 
Suaviza a queda da folha, 
Enxuga o pranto da face. 

© HELENA KOLODY 
In Correnteza, 1977 

PRECE

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, 
De ser o coração singelo que perdoa, 
A solícita mão que espalha, sem medidas, 
Estrelas pela noite escura de outras vidas 
E tira d′alma alheia o espinho que magoa. 

© HELENA KOLODY 
In Paisagem Interior, 1941 

SENSIBILIDADE


Meu coração,
É um quarto de espelhos,
Que reflete e multiplica,
Infinitamente,
Uma impressão.

É como o eco
Dos longos corredores desertos,
Que repete e amplifica,
Misteriosamente,
Uma palavra.

É como um frasco de perfume raro
Que guardou,
Para sempre,
Um leve aroma da essência que encerrou.

© HELENA KOLODY 
In Infinito Presente, 1980

A TRISTEZA DAS MÃOS

Mãos tristes, sulcadas de rugas, 
Que choram em silêncio a dor de envelhecer... 

Pensar que já foram a alma festiva, 
A graça inocente dum berço, num lar. 
Frágeis mãozinhas, de dedos rosados, 
Brincando com a vida. 
Rainhas de um mundo de legenda, 
Maleável e submisso ao seu comando. 

Pálidas mãos, sulcadas de renúncias! 

Mãos que foram jovens, belas e triunfais, 
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas, 
Capazes de curvar a fronte mais altiva, 
E de alterar o curso eterno das estrelas. 

Tímidas mãos, que se apagam na sombra! 

Mãos feitas de luz, doces mãos liriais. 
Companheiras intrépidas e leais, 
Solícitas e compreensivas. 
Cheias de incentivo e paciência, 
Misericordiosas mãos maternais. 

Velhas mãos solitárias, 
Como dói recordar!

© HELENA KOLODY 
In Paisagem Interior, 1941 
Nota: 
Poesia dedicada a seu pai, no seu primeiro livro.

28/11/2014

VISÃO DE CLARICE LISPECTOR - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Clarice
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são joias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Discurso de Primavera, 1977

ACORDAR, VIVER - Por Carlos Drummond de Andrade

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Farewell, 1996

A UM AUSENTE - Por Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Farewell, 1996

EXPLICAÇÃO - Por Carlos Drummond de Andrade

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.

Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país,
[esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.

Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.

Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Alguma poesia, 1930

Canção de Itabira - Por Carlos Drummond de Andrade

(A Zoraida Diniz)

Mesmo a essa altura do tempo,
um tempo que já se estira,
continua em mim ressoando
uma canção de Itabira.

Ouvi-a na voz materna
que de noite me embalava,
ecoando ainda no sono,
sem que faltasse uma oitava.

No bambuzal bem no extremo
da casa da minha infância,
parecia que o som vinha
da mais distante distância.

No sino maior da igreja,
a dez passos do sobrado,
a infiltrada melodia
emoldurava o passado.

Por entre as pedras da Penha.
os lábios das lavadeiras
o mesmo verso entoavam
ao longo da tarde inteira.

Pelos caminhos em torno
da cidade, a qualquer hora,
ciciava cada coqueiro
essa música de outrora.

Subindo ao alto da serra
(serra que hoje é lembrança),
na ventania chegava-me
essa canção de bonança.

Canção que este nome encerra
e em volta do nome gira.
Mesmo que o silêncio a repete,
doce canção de Itabira.

(Carlos Drummond de Andrade. Corpo, 1984)

25/11/2014

O velhinho visita a fazenda - Por Carlos Ribeiro

Em 60 anos de carreira, calcula-se que ele tenha escrito mais de 15.000 crônicas, das quais 600 ganharam reedição em livros. Nos textos, pôde trabalhar temas caros a ele, como as casas, o tempo, a figura feminina. “E o que revelam as casas de Rubem Braga do próprio Rubem Braga? O que dizem do homem que as sente e do escritor que as registra? Já se disse algo sobre isto: a consciência do tempo, a percepção histórica, a recordação dos mortos e das ternuras findas, enfim, todo esse conjunto de elementos que remetem a uma melancolia do tempo perdido tão comum aos escritores que viveram, no século XX, a transição de uma sociedade ainda fortemente agrária para uma sociedade industrial, na qual coexistiam e ainda coexistem o arcaico e o moderno. Pode-se dizer que, de certa forma, a casa significa, para o cronista, um elo fundamental entre o passado e o futuro. Uma espécie de linha do tempo sem a qual tudo cai no esquecimento”, escreve Carlos Ribeiro no prefácio do livro.

É um velhinho de ar humilde, que tem sua casa em um subúrbio do Rio; ninguém dá nada por ele. Vale, entretanto, muitas centenas de milhares de cruzados — pois não é certo que o homem vale pelo que tem?

Gosta de viajar pelo interior do Estado do Rio, às vezes até Minas ou Espírito Santo — sempre de ônibus ou de trem. Conversa devagarinho com as pessoas que vai encontrando, gosta de falar sobre lavoura — “diz que a safra de milho este ano está muito grande, não é? O preço já caiu para um terço…”

Sua conversa agrada; ele quer saber quantos alqueires tem aquela fazenda — “muita mata? e o gado?” — e vai-se informando, sabendo das coisas. Não se interessa pelas fazendas prósperas; adora histórias de fazendeiros que estão estragando a propriedade, viúvas roubadas pelo administrador, metidas em negócios na cidade — e de repente se interessa por uma fazenda. Fonte

Meu Ideal Seria Escrever... Rubem Braga

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.
A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.
Saiba tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

VIR A SER - Por Padre Fábio de Melo

Eu procuro por mim.
Eu procuro por tudo o que é meu e que em mim se esconde.
Eu procuro por um saber que ainda não sei, mas que de alguma forma já sabe em mim.
Eu sou assim...
processo constante de vir a ser.
O que sou e ainda serei são verbos que se conjugam sob áurea de um mistério fascinante.
Eu me recebo de Deus e a Ele me devolvo.
Movimento que não termina porque terminar é o mesmo que deixar de ser.
Eu sou o que sou na medida em que me permito ser.
E quando não sou é porque o ser eu não soube escolher. Fonte

Meu Sonho - Por Cecília Meireles

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar. Fonte

Você é o que ninguém vê - Por Martha Medeiros

Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. 
Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. 
Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. 
Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima. 
Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia. 
Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê. Fonte

Desassossego

E ela só queria um lugar aconchegante nesse mundo de utopias,
Algo que lhe soasse em tom de liberdade e com sabor adocicado,
Nada além da paz de espírito, da compreensão de si e de todos.


Tinha fases como a lua,
Queria o brilho das estrelas,
Almejava a imensidão do Universo,
Mas era dentro de si que encontrava não as certezas,
Porém o vazio e o emaranhado de 'porquês'.


Talvez fosse ela uma desajustada nesse mundo tão supérfulo,
Ou talvez ela buscasse aquilo que lhe fosse "invisível para os olhos";
Apenas uma certeza tinha ela:
A de que era necessário ter paciência e esperar o vento vir buscá-la. Fonte

23/11/2014

As setas do caminho - Por Jussara Hoffmann.

Um dos aspectos mais fascinantes do Caminho de Santiago é o fato de todo o trajeto estar demarcado por setas amarelas que guiam os caminhantes. O trajeto completo do Caminho Francês ultrapassa 800 Km. As setas foram criação dos peregrinos, mas foram oficializadas em 1984 e, hoje, são reforçadas periodicamente por um grupo de voluntários. Além deles, muitos que fazem o caminho reforçam e criam novas setas, com fitas, pedras e de outras maneiras.
As setas estão por todo caminho, a tal ponto que é difícil perder o rumo. Elas estão desenhadas nos muros das casas, no chão, nas árvores, nas pedras, nas cercas... Basta procurar por elas de trechos em trechos ou nas encruzilhadas do caminho.
O que elas dizem de mais forte é que estamos indo na direção certa. Seguindo-as, muitos peregrinos, a pé, a cavalo, de bibicleta, cada um do seu jeito e a seu tempo, chega a Santiago há milhares de anos.
As setas também nos dizem que fazemos parte de uma experiência da humanidade, que muitos outros já viveram ou estão vivendo. Mesmo o peregrino solitário sente-se acompanhado, porque elas indicam que outros já passaram por ali e outros tantos passarão. De início, chegamos a dividar que elas estarão demarcando o caminho todo do tempo, por tantos quilômetros, e temos de confirmar nos mapas dos dias, aprendemos a confiar de tal maneira nas setas que não precisamos mais procurar por elas, como se viessem ao nosso encontro, e magicamente, nos acompanhassem. Nesse momento, então, o desconhecido, o inesperado, não assustam mais, porque temos a confiança de que as setas nos manterão no rumo certo. Fonte
Avaliar para promover: As setas do caminho. Jussara Hoffmann.

Avaliar: respeitar primeiro, educar depois - Por Jussara Hoffmann

Diz Marques (2001, p.12), que “na fala, a palavra que digo ou me escapa está dita. Não há como fugir ao fato. Mas na escrita posso apagá-la, suprimi-la ou substituí-la. No ato de escrever sinto-me dono de meu próprio texto. Posso mudá-lo a qualquer momento, destruí-lo até. Quando porém ele ganha mundo, quando passa ao domínio público, sinto que me fugiu, emancipou-se, escapou de meu alcance”. Como diz o autor, quando se publica um texto, não se sabe o destino que ele terá, que indiscrições sofrerá, ou se será útil ou não a alguém. Diz, entretanto, Benincá (2002), que é tarefa essencial de educadores a de constituir memórias de sua trajetória profissional. O registro reflexivo é um “olhar para dentro”, de onde emergem as intenções das ações, o contexto ressignificado pelos sujeitos que viveram essas ações.
Dando continuidade aos meus estudos e pesquisas e após uma série de programas de formação de professores, escrevi mais dois livros que narram toda essa trajetória: "O jogo do contrário em avaliação" (2005), atualmente na 8ª ed./2013 e "Avaliar: respeitar primeiro, educar depois" (2008), já na 5ª ed./2013. Também fiz parte, como co-autora de outras quatro publicações no Brasil, na Espanha e em Portugal.
(...)
Esta é uma parte das minhas memórias... até aqui. Depois de uma longa experiência como educadora e de ouvir que “não dá para mudar” porque os “outros” não deixam, venho convidando toda gente, nos últimos tempos, a me acompanhar no jogo do contrário em avaliação, o que venho alcançando com surpreendente sucesso, com muitos adeptos entre os professores que têm coragem de ousar, de inventar, de transformar a educação em nosso país. Fonte

21/11/2014

OS SONHOS E OS PROFESSORES - Por Augusto Cury

Professores, vocês não precisam de sonhos para ter eloquência, metodologia, conhecimento lógico. Nem precisarão de sonhos para gritar com os alunos, implorar silêncio em sala de aula, dizer que não terão futuro se não estudarem.
Mas precisarão de sonhos para transformar a sala de aula num ambiente prazeroso e atraente, que educa a emoção dos seus alunos, que os retira da condição de espectadores passivos para se tornarem atores do teatro da educação.
Precisarão de sonhos para esculpir em seus alunos a arte de pensar antes de reagir, a cidadania, a solidariedade, para que aprendam a extrair segurança na terra do medo, esperança na desolação, dignidade nas perdas.
Precisarão de sonhos para serem poetas da vida e acreditarem na educação, apesar de as sociedades modernas a colocarem em um dos últimos lugares em suas prioridades.
Precisarão de sonhos espetaculares para terem a convicção de que vocês são artesãos da personalidade e saberem que sem vocês nossa espécie não tem esperança, nossas primaveras não têm andorinhas, nosso ar não tem oxigênio, nossa inteligência não têm saúde.
Cury, Augusto, 1958
Nunca desista de seus sonhos / Augusto Cury. - Rio de Janeiro: Sextante, 2007.