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15/12/2013

Resposta a Clarice Lispector - Por Renata Whitaker Horschutz

Clarice Lispector
A crônica “Pertencer”, de Clarice Lispector, retirada da obra “A descoberta do mundo”, (p. 110), foi publicada primeiramente no Jornal do Brasil, no dia 15 de junho de 1968. Ao lê-la, senti um impulso de dar-lhe uma resposta, o que me motivou a escrever este texto. 
Clarice não gostava de falar de sua vida íntima, fugia das perguntas, que a faziam sentir grande desconforto, inventando fatos e datas. Seu maior legado autobiográfico encontra-se nas crônicas que escreveu para o Jornal do Brasil, de 1967 a 1973. 
Estas crônicas estão publicadas nos livros “A descoberta do mundo” (1984) e “Aprendendo a viver” (2004). Suas publicações, que muitas vezes não passavam de uma frase, geravam muitas reações no público leitor. 
Primeiramente, lerei a crônica, que é breve, para que os ouvintes possam ser envolvidos pela autora, e em seguida discorrerei sobre o que significa para um ser humano pertencer a algo, ou a alguém, e abordarei as consequências do sentimento de não pertença
A maneira como Clarice aborda este arquétipo toca-nos e faz-nos refletir muito sobre a vida do ser humano e nossa clínica. Ela consegue colocar de forma tão poética o viver humano, traduzindo em palavras aquilo que pensamos ser indizível. 
Pela clareza com que ela nos revela o sofrimento de desamparo de não se sentir pertencente ao mundo, tocou e desassossegou tão profundamente minha alma, que resolvi dar-lhe uma resposta, buscando uma solução que possibilite ao indivíduo sair desta experiência originária de desamparo, podendo assim descobrir uma maneira de dar significado a sua existência. 
Inspiration... I recommend her books to anyone who is willing to get lost in between the lines.
Querida Clarice
Suas palavras a respeito do que significa para um ser humano pertencer a algo ou a alguém tocaram-me profundamente. O modo como você aborda o arquétipo e consegue colocar de forma tão poética o viver humano traduz em palavras aquilo que pensamos ser indizível. Ao partilhar conosco suas palavras, você nos tira da solidão e da angústia. 
É incrível a clareza com que você nos revela o mundo que muitas vezes nos aprisiona, sem que consigamos enxergar uma saída. Você nos faz sentir a frustração do totalmente pensado, do consciente, e refletir sobre fatos que continuam a existir em nossa sociedade, dita evoluída
Para citar um pouco da história sobre o abandono, sabemos que na Grécia antiga meninas, ou crianças com deficiência eram mortas ou abandonadas ao nascerem. Da mesma forma, na Roma antiga, ao nascer uma criança a decisão de ficar com ela ou não cabia ao pai que, caso não a quisesse, * poderia rejeitá-la, colocando-a na rua ou no lixo. 
Apesar de estas histórias nos chocarem, hoje em dia ainda muitas crianças são abandonadas, desprezadas e expostas a seu próprio destino. Muitas vezes a rejeição e o abandono são feitos de maneira tão sutil que quase passam despercebidos, porém somente da consciência. 
Em nossos consultórios de psicologia ouvimos muitas dessas histórias, e o mais grave disso é que muitas pessoas nos procuram com sintomas diversos, como angústia, depressão, ansiedade, pessoas que se sentem deserdadas pela vida, investindo sua energia no trabalho, ou em relacionamentos, sem qualquer resultado. Muitas delas nem sequer têm a percepção de terem sido rejeitadas quando pequenas, ou ainda no ventre materno. 
Embora o nascimento de uma criança seja comemorado, por vezes internamente é sentido pela família como algo não planejado, não aceito, e aquele filho não é amado. 
Desde cedo aquela criança já se sente não pertencente a nada ou a ninguém. Nasceu e ficou simplesmente nascida, como diz Clarice, não recebeu a marca do pertencer e, por este motivo, sente-se como que deserdada pela vida. Quando lhe surge uma oportunidade de pertencer, simplesmente não consegue, não por não o desejar, mas por incapacidade, chegando à triste conclusão de que a responsabilidade é toda sua
A pessoa que foi “abandonada” lá no início de sua vida muitas vezes desconhece o que ocorreu, simplesmente experimenta que nada em sua vida dá certo, tem medo de amar e ser rejeitada, pode até entrar em um processo de autodestruição, emaranhando-se na não pertença. 
Porém, precisamos ser criativos e buscar a ação que possibilita o acontecer e o aparecimento do singular de si mesmo, ou seja, a saída desta experiência originária de desamparo, por não se ter recebido a marca do pertencer. 
Sem qualquer pretensão, consegui divisar três possibilidades, embora apenas uma me pareça realmente eficaz. 
A primeira consiste em envergar uma máscara, condição que reduz o ser humano ao aprisionamento pelos códigos sociais, o que marca a ausência de uma presença, uma perda de alma, uma experiência de um vazio existencial profundo, onde só se é para fora. Ainda que o indivíduo marcado pela não pertença tente mostrar para si mesmo e para os outros sua capacidade, muitas vezes consome-se por não receber o que esperava em troca, podendo até chegar a adoecer. Outros, para se sentirem enxergados, arruínam tudo, fazem coisas erradas, autodestrutivas, jogam boas oportunidades de vida fora. 
A segunda reduz o indivíduo a um organismo biológico, privando-o da transcendência, uma negação do potencial criativo inerente a qualquer ser humano. É viver por viver, nascer e tornar-se simplesmente nascido. 
A última possibilidade que vislumbrei está em alcançar o registro simbólico da experiência vivida, tanto para que significados sejam adquiridos, como também para que um processo de transformação ocorra e o indivíduo possa, assim, realmente ser, ou seja, estar no mundo e além dele, podendo integrar sua condição de instabilidade frente ao outro através de uma presença que não pode ser reduzida pelo desejo ou vontade do outro. 
Cada ser humano está, como diz Clarice, singularizado por uma pergunta, presente desde seu berço. Ela se esboça desde os primeiros movimentos da criança, no gesto que faz em direção ao outro, nos sentidos que se abrem O modo como tal questão é encontrada pelo indivíduo confere-lhe determinado papel ou lugar na vida familiar. As famílias organizam-se ao redor de mitos e estes são constituídos através das gerações, o que marca a história familiar. 
O bebê estrutura-se nesse campo. Ele é portador das questões enraizadas na organização mítica que caracteriza sua família e que irá se estender à sociedade, * acabando por se relacionar às grandes questões de toda a humanidade. Portanto, Você, Clarice, não está só. 
Quem sabe este sentimento de não pertencer é um mito familiar que precisa ser transformado. Justamente aí pode estar sua ação criativa: promover uma ruptura com esse mito, ser singular entre os outros, tornar-se de fato um indivíduo indivisível. 
O sentimento de não pertencer, como já disse, pode ocorrer dentro da própria família, quando alguém se sente estranho no meio familiar, a despeito, muitas vezes, de aparente acolhimento. Internamente, o indivíduo sente-se vítima de intrusão, não se vendo como parte daquele núcleo. Um recém-nascido não acolhido é exposto, deixado literalmente “ao Deus dará”, sendo assumido e marcado pela divindade, motivo pelo qual tal pessoa jamais conseguirá pertencer a algo ou a alguém.
Ao se ligar à transcendência, a pessoa deixa de flutuar no vazio e passa a sentir o Mistério que há em sua vida, pois os que são abandonados por seus semelhantes são acolhidos por Deus, portanto verdadeiramente livres, não podendo pertencer especificamente a ninguém, mas à humanidade, o que os torna uma dádiva para quem deles se aproxima. 
Vemos isto na alquimia e na religiosidade, onde do lixo são retirados os maiores tesouros, conforme, por exemplo, o Salmo 113: “Ergue da poeira o fraco e tira do lixo o indigente e os torna governantes”. 
Algumas pessoas, porém, não se conscientizam do abandono que sofreram e vivem emaranhadas no sentimento de não pertença, assumindo um comportamento destrutivo em relação a si mesmas e ao mundo. Outras, contudo, após um profundo mergulho interno e a provação de atravessar períodos de muita dor, conscientizam-se de que pertencem a algo maior, tendo a percepção de que o sentimento de não pertença se transforma em um forte sentimento de liberdade, de generosidade e de amor para todos.
Alguns, ao sentirem essas pessoas como especiais e ao verem seus esforços, podem percebê-las como seres heroicos, mas na verdade elas possuem o Sagrado dentro de si, pertencem a Deus. Ao falar de Deus não estou me referindo a nenhuma tradição religiosa, mas a algo ainda maior, a um Mistério que nos transcende. Por isso muitas vezes estas pessoas sentem-se destoando das que as circundam. 
Clarice, concluo então que você, ao pertencer à literatura, encontrou sua experiência pessoal, a sua maneira de colocar-se no mundo e de significar sua existência, e não só pertence a alguém, mas a toda humanidade. 
Ao buscar a hospitalidade de alguém para se sentir existente, algo de que todo ser humano necessita, você não poderia encontrar isto em sua família, pois sua alma é muito maior. 
Querida Clarice, em cada um de nós existem os que nos constituíram, o que nos torna portadores de toda humanidade. Portanto, suas palavras deixaram-nos um belo legado, ao nos retirar da solidão e nos ajudar a refletir, a tomar consciência de muitas coisas sobre a vida. Você contribui para a ampliação do quadro de referências de todos os seus leitores, pois ao ler a sua obra nos sentimos preenchidos, tocados e, conjuntamente, por você somos elevados à transcendência. 
Com carinho, 
Renata. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 
LISPECTOR, C. , A descoberta do mundo, Ed. Rocco, RJ, 1999. SAFRA, G. 
Autora: Renata Whitaker Horschutz - Psicóloga; analista Junguiana; membro da AJB (Associação Junguiana do Brasil); membro do IJUSP (Instituto Junguiano de São Paulo), membro da IAAP (International Association for Analytical Psychology), membro da ISST (Intenational Society for Sandplay Therapy), especialista em atendimento infantil.

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