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27/11/2013

Não posso adiar o amor - António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração
António Ramos Rosa, 
em "Viagem Através de uma Nebulosa"
A poesia de António Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924) é exercida dentro das condicionantes que o poeta conscientemente dispõe no seu poema. Pode ser uma palavra, um vocábulo como estaca de uma espécie de tenda transparente, pode ser uma frase que lhe fixa o tema no primeiro verso, ou simplesmente uma combinação de climas, dando ao corpo poético uma uniformidade focal que se alimenta de si mesma. Ramos Rosa tem uma já longa história na poesia portuguesa (e do mundo), pelo que a sua obra foi (felizmente) mudando ao longo do tempo, como que se instalando em instintos diversos, em diferentes lembranças e convenções sociais. Este último aspecto é importante: Ramos Rosa e a sua poesia foram imediatamente transversais ao tempo e a todas as mutações (evoluções ou regressões) nele sofridas. Há, pois, um núcleo de aspectos que se mantiveram mais ou menos presentes em toda a sua obra e que merecem reflexão. É assim quanto à abordagem (recorrente) do vazio e do silêncio. O discurso ramos-rosiano é, neste ponto, dotado de uma linguagem simples, localizado em paisagens em que o tempo abranda e para, como se o hoje pudesse durar uma eternidade; como se o poema, ele mesmo, olhasse incessantemente para uma das suas portas, sabendo que nada nem ninguém poderá ultrapassá-la. (Escuto na palavra a festa do silêncio. / Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. / As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. / Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. / É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. - do poema A Festa do Silêncio). É neste sentido uma poesia que se fecha nos problemas insolúveis que apresenta, na sobrecarga moral do «eu poético», no espírito das suas considerações lúcidas.
No poeta há um confronto muito vivo entre este silêncio e a Palavra (que poderá aparecer em diversas formulações: sílaba, verso, frase, etc), pese embora estas duas realidades se confundam e apareçam, por esse confronto, algumas vezes misturadas. E é assim porque esta palavra é uma palavra silenciada, é palavra enquanto sujeito e enquanto ator de um papel que deveria ser conferido ao homem por detrás do poeta e que, enquanto recurso estilístico, se substitui a ele, com toda a pujança e efeitos poéticos que daí advêm.
Outra das contraposições latentes é a felicidade e o seu contrário (cabendo também aqui várias formulações). A felicidade, porque é para Ramos Rosa "um ofício", apresenta-se ora como um sonho, ora como um dever. Há nesta poesia como que um espelho falso de um futuro próximo cuja moldura é a consciência, cambiando o seu interior à medida que o poema escorre sobre si mesmo. E escorre sobre si mesmo porque se auto-sobrepõe, valendo-se das suas pausas, dos seus intervalos, das suas existências isoladas, para que as palavras, enquanto produto final, se "elegantizem" nos seus significados e adaptações profundas, e homogenizem o sono, leve ou pesado, ativo ou passivo, que o poema traduz. 
O amor, enquanto temática, é tratado como uma dúvida, reforçado que é o papel do tempo e a sua urgência. Há uma espécie de ansiedade e fraqueza que sobe aos contornos mais longínquos do poema. Ainda assim, e ao contrário de muitos poetas que, no seu tempo, fizeram carreira com uma poesia exclusivamente de emoções, Ramos Rosa faz uso de um «cérebro poético», controlador e filtro dessas emoções, expressando os porquês na frieza de um discurso por vezes cortante, dando ao poema o equilíbrio necessário que o faz autêntico.
A sua obra poética é extensa, tendo-se estreado com o livro «O Grito Claro», primeira obra da coleção de poesia «A Palavra» dirigida pelo poeta algarvio e seu amigo de longa data Casimiro de Brito. Nos últimos anos a escrita do autor tornou-se mais centrada na linguagem, fato de que é paradigma o livro "Génese" (Roma Editora). António Ramos Rosa, poeta maior, com a dimensão global que a sua obra atingiu, tem favorecido e contribuído, no panorama nacional, para a afirmação e visibilidade da poesia do Algarve. Fonte

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