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12/09/2013

Crença rígida nas gramáticas espanta. Por Sírio Possenti

Para o linguista Sírio Possenti, empréstimos de outros idiomas são naturais 
(Foto: Getty Images)
Um dos temas que mais rendem colunas neste espaço é o da ignorância de nossos intelectuais quando a questão são as línguas. Presto especial atenção aos que vão um pouco além do trivial em algum dos ramos de atividade que exigem escrita – jornalistas “culturais”, romancistas menos “formais” etc. Espero sempre que eles saibam o que é o material de que vivem. Mas decepcionam quase sempre.
Meu espanto não se deve, evidentemente, ao fato de não serem especialistas em teorias linguísticas. Só se pode exigir isso dos linguistas  e, além disso, qualquer um sabe que ninguém pode ser especialista em todas as áreas de uma disciplina. Não espanta descobrir que José de Alencar sabia muito sobre o Brasil, mas menos do que um historiador, ou que João Ubaldo sabe muito sobre cultura popular, notadamente a baiana, mas, provavelmente, menos do que um antropólogo.
O que espanta são as abordagens excessivamente estreitas sobre língua, a crença nas gramáticas e manuais, já que é um escritor e, nesse papel, não é um copiador de regras.
Aposto que João Ubaldo tem uma boa estante de “estudos sociais”. Mas a estante com livros sobre língua, aposto de novo, só tem gramáticas normativas e dicionários. Duvido que tenha lido algum livro sobre tipologia linguística, no qual pudesse vir a saber que línguas (ou dialetos) se caracterizam por diferentes alternativas morfológicas ou sintáticas, por exemplo.
Já surpreendi seu “pensamento” sobre o tema em diversas de suas colunas semanais, que publica aos domingos no Estadão e, certamente, em muitos outros jornais. A coluna do dia 18/07/2010 se chamava “A volta do caderno rabugento”, apresentado como um conjunto de anotações sobre problemas de língua. O adjetivo “rabugento” se deve ao fato de que anota reclamações contra novidades, que ele considera equívocos, desvios, vícios. Costuma estranhar construções que ouve por aí. Nesse domingo, reclamou de “inicializar”, questão que poderia resolver facilmente lendo meia página sobre empréstimo linguístico  um efeito usual do contato entre povos que falam línguas diferentes, e que hoje pode se dar pela internet, dispensando os antigos navegadores.
Aposto que bebeu uísque escocês nos idos tempos. Talvez use jeans e seu computador deve ter sido produzido por alguma multinacional. Então, qual é o problema com uma palavra portuguesa (ou brasileira) que deriva de uma estrangeira? Nem vale a pena considerar que “inicializar” não é a mesma coisa que “iniciar”, já que ninguém inicializa um jogo de futebol, assim como cantores não salvam discos.
Inicializar” é apenas um exemplo de um dos casos comuns no domínio da relação entre as línguas e fatores exteriores, os empréstimos. É esse tipo de contato que explica, por exemplo, o enorme número de palavras de origem latina no inglês e que o português tenha recebido palavras de origem árabe ou de outras línguas africanas. Quem reclama de “cafuné”?
Mas a mais longa reclamação de João Ubaldo foi dirigida aos anacolutos. O parágrafo é o que segue:
“E devo confessar que fico com medo de que certas práticas deixem de ser modismo e virem novas regras, bem ao gosto dos decorebas. É o que acontece com o, com perdão da má palavra, anacolutismo que grassa entre os falantes brasileiros do português. Vejam bem, nada contra o anacoluto, que tem nome de origem grega e tudo, e pode ser uma figura de sintaxe de uso legítimo. O anacoluto ocorre, se não me trai mais uma vez a vil memória, quando um elemento da oração fica meio pendurado, sem função sintática. Há um anacoluto, por exemplo, na frase “A democracia, ela é a nossa opção”. Para que é esse “ela” aí? Está certo que, para dar ênfase ou ritmo à fala, isso seja feito uma vez ou outra, mas como prática universal é meio enervante. De alguns anos para cá, só se fala assim, basta assistir aos noticiários e programas de entrevistas. Quase nenhum entrevistado consegue enunciar uma frase direta, na terceira pessoa – sujeito, predicado, objeto – sem dobrar esse sujeito anacoluticamente (perdão outra vez). Só se diz “o policiamento, ele tem como objetivo”, “a prevenção da dengue, ela deve começar”, “a criança, ela não pode” e assim por diante. O escritor, ele teme seriamente que daqui a pouco isso, ele vire regra”.
Há vários erros, erros mesmo, nesse comentário.
Primeiro, a palavra “regra”, no texto de Ubaldo, tem um sentido restrito demais. Seria uma ordem, a ser decorada e seguida. Mas o que os exemplos mostram é que regra significa regularidade – todos repetem uma estrutura – e que ninguém precisou estudar esses casos para seguir sempre o mesmo procedimento. Ao contrário, o que as gramáticas ensinam é que não se deve falar assim. Apesar disso, constata-se que tal estrutura está se disseminando cada vez mais, e chegou à língua culta, pelo menos à falada.
Segundo, não é verdade que o dito anacoluto não tem função sintática. Ele apenas não tem uma das funções sintáticas que estão na lista das gramáticas que Ubaldo lê – quem informa é ele (aliás, curiosamente, a maioria das gramáticas inclui o anacoluto entre as figuras, não entre os vícios).
O problema é que essa lista de funções é incompleta. É como uma lista de pássaros da América que não incluísse os da Amazônia. O “anacoluto” (que os estudiosos do tema chamam de tópico), em línguas cuja sintaxe o inclui, tem como função delimitar, explicitar, avisar ao interlocutor qual é o assunto de que se vai tratar. Não é por não ser sujeito ou objeto que não tem função.
Em minha língua materna, o bergamasco, por exemplo, o anacoluto não é apenas uma possibilidade. É uma exigência. Nesse dialeto italiano, a tradução de “ele vai” é equivalente a “ele, ele vai” (lü l va), sendo que a retomada de “ele” tem uma forma diferente da primeira ocorrência (lü / l). Não se pode dizer “lü va”, que seria a tradução palavra por palavra de “ele vai”. Isto é, nenhum bergamasco fala assim. Se alguém falar, logo se saberá que não sabe o dialeto.
O que João Ubaldo não considera é que o português é uma língua cuja organização sintática é a que é – e não a que está em certos livros. Sua noção de regra mostra claramente essa atitude. As gramáticas deveriam registrar todas as estruturas sintáticas, se fossem completas (assim como um catálogo deveria registra todos os pássaros, não só os do Eça de Queirós). Se todos falam “A democracia, ele é uma opção”, estariam erradas as gramáticas que, inspiradas em modelos de outras línguas, dizem que em português o anacoluto é um vício (mas elas quase nunca dizem isso; Ubaldo está sendo mais realista do que o rei).
É fácil ver que o começo da frase delimita o assunto, e que o restante é uma afirmação (um comentário) sobre esse tópico, e que este comentário tem a forma sujeito – predicado. Analisar assim a frase é apenas constatar fatos, como outros, em outros campos: que a lua tem quatro fases, que Saturno tem anéis, que temos um apêndice etc.
Mas é claro que não se encontram certas informações em todas as gramáticas. Assim como não se encontram todas as informações nos livros de história do Brasil do Varnhagen. Ubaldo poderia se interessar de fato pelo tema e ler alguma coisa que trate da língua real, da que ele ouve. Podia ler, por exemplo, O tópico no português do Brasil, de Eunice Pontes, Perspectiva funcional da frase portuguesa, e Rodolfo Ilari, e algum livro de Mario Perini, entre os quais sua recente Gramática do português brasileiro.
Pode ser que Ubaldo goste de algumas e não goste de outras das construções que existem. Mas gostar é outro departamento. Eu também não gostei de algumas passagens de O albatroz azul. Problema meu, provavelmente.
Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia. Fonte

Um comentário:

  1. Eu, enquanto estava nas salas de aula, sempre acrditei numa construção de aprendizado baseada na boa gramática e na eficiência da linguística. Acredito que o que exista hoje é - de um lados gramáticos ferrenhos lutando por uma língua normativa, bem formalizada, mas com pouca riqueza e do outro lado linguístas que acham que o importante é comunicar-se apenas, não importa como isso se faça - porém a união de linguística com gramática de uma forma bem dosada seria o ideal.
    A cada dia que passa nossos alunos saem mais e mais desconhecedores da língua e por conseguinte apresentam uma linguagem deficiente.

    Bem, mas o MUNDO anda pedindo tão pouco hoje em dia. Basta ver as músicas que hoje não passam de grunhidos de piripipiripipiri piradinha... tchetchereretchetche... e por aí vai...
    Hajam estudos para análises... rsrsrsr
    Um abraço

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