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28/08/2013

Resenha do filme: "Bicho de sete cabeças"

O filme é baseado no livro Canto dos Malditos de Austregéliso Carraro e traz uma família de Classe Média, em que seu filho mais novo Neto (Rodrigo Santoro), vive em um mundo sem "regras" acorda tarde, não quer nada com nada, fuma a sua maconha com os amigos, até então comportamentos normais de um típico adolescente rebelde, até que um dia ele é preso pichando com alguns amigos e é levado para a delegacia, a partir deste dia seu Pai, seu Wilson (Othon Bastos, em uma excelente atuação), começa a prestar mais atenção no comportamento do jovem, e percebe que ele não se encaixa no padrão dito "normal" para a sua idade, e se preocupa com o que os vizinhos vão falar, ou seja, a moral aparece sutil em contrapartida com a vontade e os desejos próprios de um jovem que quer apenas vivenciar a adolescência.
Mas quando Neto chega um dia em casa e joga seu casado no chão o pai vai juntar e reclama do filho ser um malandro que não quer nada com a vida, cai um cigarro de maconha! Meu filho é um viciado ele pensa, e não respeitando o espaço do filho e nem procurando saber se a maconha é realmente dele, o pai reúne a família e decidem internar o jovem, ou seja, internar o "louco" é um questão de honra, pois a família não passa por nenhum constrangimento e se livra daquilo que incomoda. A partir dessa conversa ele convida o filho para ir visitar um amigo em um clínica. Neto topa, chegando no lugar ele é surpreendido por 2 enfermeiros que já o carregam pelo braço, aplicam uma injeção de sossega leão e o levam para um quarto isolado. Ele pergunta a todo momento cade o pai? Afirma que ele não fez nada, e que não é viciado... ele é ouvido? NÃO, simplesmente jogado em uma "jaula" aprisionado como um animal que é medicado para não oferecer "perigo" a uma sociedade moralista que se diz normal.
O Pai seu Wilson, desova o filho ali naquele lugar sem nem ao menos ter tido uma conversa com o filho para ouvir o lado dele, e o que ele tinha para falar. Aceita o fato de Neto ser um louco, sim louco pois ele não funciona mais como um filho perfeito em uma família perfeita. Passa a ser um objeto de humilhação e castigo, bem como o hospital psiquiátrico era visto como uma instituição encarregada de castigar e corrigir certas falhas morais, mas que falhas são estas? A sociedade agora é dona do que eu posso ou não posso fazer? 
Quando Neto é inserido no contexto daquele hospital, ele é visto como mais um louco, mais um brinquedo que pode ser medicado sem ao menos ser ouvido, as condições do lugar são precárias, a regra é CLARA, tome seu remédio para o Doutor saber que você está se comportando, mas quando alguém ousa desafiar, é levado para uma sala preso a uma maca para receber descargas de eletrochoques (hoje PROIBIDAS nos hospitais Psiquiátricos) para mostrar quem está no poder, quem manda, torno a questionar: ERA OUVIDO? a resposta é clara NÃO! Pois é muito mais fácil medicar do que entender, trabalhar, pois o "louco" medicado é igual a uma fera domesticada, ele faz o que manda o que você quer, ou seja, os sujeitos eram expostos ao embrutecimento e esperava-se docilidade em troca, mas de que maneira? MEDICANDO? 
Ao decorrer do filme tem uma cena que eu gostaria de enfatizar, é quando Neto acorda pela manhã e está tomando seu café, quando o "Doutor" passa pelo refeitório e todos os internados estão atrás dele e Neto vai a sua procura para dizer que houve um mal entendido que ninguém falou com ele, ou fez algum exame para afirmar que ele era viciado em drogas. Então o Doutor passa como se não existisse ninguém somente ele, novamente a Loucura é Ignorada e os questionamentos acerca dela também! todos perdem a sua voz. Ressalto ainda que em outra cena o Doutor vai até Neto e este com a esperança de ser finalmente ouvido é apenas examinado, sim ele pega o estetoscópio e examina a sua respiração. Neto está de costas para ele falando sobre o mal entendido que aconteceu com ele, quando ele se vira cade o Doutor, foi embora, não apenas ele , mas a esperança de encontrar a resposta para toda aquela situação vivenciada. 
Quando a sua família chega para a sua primeira visita, o Doutor alerta os pais de que os medicamentos estão fazendo efeito, mas que o paciente pode apresentar, delírios, alucinações, como por exemplo inventar histórias que não existem, mas era tudo culpa dos remédios. Novamente o papel da domesticação das instituições, o cala a boca deles é pequeno redondo e branco, e junto a sua voz o seu eu ficam aprisionados em algum lugar dentro deles, esperando para sair a qualquer momento, mas impedidos pelo sistema e pela moral da sociedade. Neto está bastante agitado na visita relata todos os horrores e humilhações que está sofrendo na instituição, mas os pais dizem: " É NECESSÁRIO" "VOCÊ PRECISA PASSAR POR ISSO". É realmente visto como um louco, pois um lugar tão bonito como este, como pode não gostar? É fácil falar para quem não está vivenciando, só aponta o dedo para o outro de maneira que este é obrigado e desempenhar este papel longe da sociedade, para não incomodar!
Neto só sai do seu pesadelo, quando a sua mãe sofre com a sua ausência, a sua falta é sentida, sentiram falta do louco, queremos ele de volta domesticado e se comportando direitinho! Mas as marcas do que passou ficam, e Neto não consegue levar a sua vida como antes, o pesadelo o persegue..... internado novamente em outra instituição, Neto é exposto novamente a toda a humilhação e domesticação, mas dessa vez, a loucura é ainda mais evidenciada, com um enfermeiro que está no poder e dicotomiza a loucura de maneira que a identidade de cada um sofre uma fusão com o local, e todos passam a ser uma só voz, a voz da liberdade!
O Filme é excelente e traz bem a questão do movimento da Reforma Psiquiátrica e a Humanização no tratamento com os internos, pois desde os primórdios da Humanidade o diferente é tachado de louco e excluído da sociedade, pois as famílias eram poupadas de uma humilhação perante a sociedade, ou seja, tinham vergonha, era (ou ainda é) muito mais fácil afastá-los da sociedade do que tratar a loucura em si de maneira compreensível e humanizada, é possível perceber, o que muitas pessoas passaram em instituições psiquiátricas, abandonadas, e solitárias..... eles não viviam eles eram calados! Fonte

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