Licensa

14/07/2013

Inteligência e Autoridade

Untitled
O papel das autoridades, especialmente as religiosas ou doutrinárias, é nos convencer de que sem elas estaremos perdidos...

"Um boneco de corda só é capaz de funcionar pela vontade do seu dono..."

Muitos, talvez a quase totalidade dos educadores, e homens preocupados em aplicar as centenas de teorias instrucionais existentes para mecanizar os estudantes, acreditam que, ensinando-se cada ser humano a ler e a escrever, talvez torná-los cultos, por reflexo, resolverão todos os problemas desse mundo, especialmente aqueles existenciais. 

Mas, por trás de cada grupo que defende o caos, a anarquia social, a feitura de uma mente social que esteja inclinada a lhes seguir os passos, seja por ideologia ou qualquer outro motivo, o que existe, senão uma autoridade culta, repleta de todo conhecimento do homem, um idealista? 

E nos tempos de suposta paz, onde os governos totalitários, ou chamados democráticos, ou socialistas, cujo lema é sempre conduzir seu povo para onde apontam seus interesses pessoais, estes também não são extremamente cultos? E os cientistas sem ética, sem sensibilidade, movidos pela ganância do acumular cada vez mais méritos, mais reconhecimento público, mais dinheiro e poder, criadores das mais letais armas de destruição em massa, também estes, não são dotados da mais elevada e qualificada cultura, ou conhecimentos?


E o que dizer das autoridades criadoras das ideologias, os chamados cientistas sociais, ou sábios, ou homens santos, cujos ideais apenas se prestam a suprir seus desejos pessoais de poder, de dominação, que controlam sua multidão de séquitos através da prática do medo? Estas autoridades, que limitam até o modo de pensar de cada um, instituindo o que devem desejar, para onde devem direcionar seus esforços de realização, o que devem esperar da vida, conduzindo-os, como a uma manada de animais ao seu pasto, também estas, não são dotadas de vasto saber? 

Podemos ser bastante cultos, doutores em literatura, conhecimentos do mundo, mas ao seguirmos uma autoridade, ao nos submetermos aos caprichos de um indivíduo, ou grupo, ou ideologia política, ou religiosa, não estamos também negando nossa própria liberdade de expressão? Se não somos capazes de pensar e nos deixamos conduzir pelo pensamento alheio, há diferença entre nós e um autômato, um mecanismo robotizado vivo, que foi programado coletivamente? Onde está então nossa inteligência, será coisa de segunda mão? 

Se não somos capazes de pensar com liberdade, com clareza, por que devemos achar que existe em nós algum vestígio de inteligência? Há em nós inteligência quando sequer usamos nosso cérebro para decidir, opinar sobre nosso destino, nossas preferências, como devemos nos relacionar com esse mundo, de coisas, animais e entes humanos? Se somos conduzidos, sem questionarmos, sem direito à liberdade de escolha, enclausurados pelo domínio de outros, há diferença entre nós e uma manada de bois sendo conduzidos ao matadouro, felizes e completamente indiferentes ao perigo que lhes aguarda? 

Supondo que iniciemos uma jornada em direção a um ponto, um destino qualquer. Podemos nos dirigir a esse ponto sem sabermos o motivo, sem saber o que iremos encontrar no final, sem decidirmos sequer a hora de descansar e levantar para continuar a caminhada, e ainda assim, nos considerarmos inteligentes? Afinal de contas, o que é, para nós, inteligência? 

Observe um robô movido por um mecanismo analógico, a chamada corda, destes que gravam e depois, ao aperto de um botão, reproduzem a voz do seu dono. Eles simplesmente repetem aquilo que ouvem, e nem por isso quer dizer que sejam inteligentes, ou que sejam capazes de pensar. Há então diferença entre eles e alguém que simplesmente, sem questionar, sem pensar, segue cegamente o pensamento de uma autoridade, que o controla, repetindo como um papagaio amestrado sua voz de comando, suas vontades e desejos? 

Há uma mecanicidade em nossos gestos e hábitos. Reparem como repetimos os gestos, preferências e manias dos nossos pais, amigos, ídolos, gente da moda, e como logo, tudo isso, em nós, tornam-se hábitos. Mas, uma voz de comando, de tanto repetir uma sugestão, acaba por desmontar até mesmo nosso temperamento original, e é por isso que uma criança cuja natureza é pacata, pode se tornar um temível soldado disposto a matar para as cumprir ordens do seu comandante. 
E assim é criada uma identificação entre nós e o hábito que repetimos. O hábito passa a fazer parte de nossa personalidade, é incorporado ao nosso ego. Passa a ser um dos detalhes que nos identifica como o indivíduo que somos. 

Nesse processo inteiramente mecânico, onde velhos hábitos são imitados, ajustados às nossas idiossincrasias, não existe um pensador, pois nada de novo é criado, apenas copiado. Chamamos de inteligência a capacidade inata que todos possuem de imitar, mas, podemos acrescentar que mais lógico, e sensato, seria considerarmos inteligente aquele que não imita, que age de forma independente, que está disposto a questionar. 

Mas esse ato de questionar pode significar seu isolamento, uma vez ao repudiar a imitação, haveria uma ruptura entre ele e o padrão sistemático que a maioria adotou como guia, e bem poucos estão dispostos a enfrentar essa empreitada

Não é inteligência o saber imitar, mas seria o compreender que imitação não é ato inteligente. A inteligência é o ato de examinar, questionar, ponderar, avaliar todas as nuances de uma mesma questão, sem opinião de qualquer espécie previamente formulada. Repetir palavras e procedimentos não é ser inteligente, isso o computador já faz melhor, e mais eficientemente que qualquer indivíduo da raça humana, e nem por isso possui inteligência. 

Nasce a inteligência quando há a liberdade para o natural questionamento. Pode ser uma questão simples, como, por exemplo: “Por que devemos escovar os dentes, três vezes ao dia?”. Ao sentir-se livre para questionar, também o indivíduo está livre para ser criativo, e não imitativo. Imitar não é ser criativo, chama-se a isso de plágio, ou pensamento de segunda mão. Mas, aparentemente, é dentro dessa mentalidade que estão cativas a maioria das pessoas. 

Outra questão deveria ser considerada. Observe as incontáveis gerações às nossas costas, seus ritos, seus guias, que mais se assemelham a cegos conduzindo cegos, e também os santos, e sábios, as crenças doutrinárias de todos os tipos, e ainda, depois de tudo isso, nos encontramos na dependência de um milagre vindo de fora, para transformar o homem por dentro. E a cada nova geração, há sempre a promessa de uma solução que se avizinha. Uma solução que virá de fora, para corrigir o que está lá dentro, em nossa psique, como se isso fosse possível. 

Não seria mais sensato questionarmos: “Por que a resposta para resolver esse problema deveria estar nas mãos desses supostos criadores de soluções, se são eles, os mesmos que criaram toda essa confusão?” Será que eles têm a intenção de mudar alguma coisa? 

A lógica é simples: Pode o caos criar a harmonia? Então, afinal de contas, estamos esperando o que? E convenhamos, os milhares de anos já passados, sem solução alguma, onde os conflitos só se agravam, tudo isso já não basta, para atestar, que há alguma coisa de errado? Fonte

Nenhum comentário:

Postar um comentário