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09/07/2013

Comédias para se ler na escola, de Luís Fernando Veríssimo

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Uma boa crônica – ao flagrar acontecimentos pitorescos do cotidiano – é capaz de surpreender, emocionar, divertir quem a lê. Mas, por trás da linguagem leve e coloquial, bem ao encontro da rapidez dos tempos pós-modernos, há um trabalho minucioso e consistente do escritor. São múltiplas escritas, leituras e reescritas antes que o texto chegue às mãos do leitor.

Sabemos que cabe à escola – por meio da intervenção do professor – criar condições para que o aluno possa aprender a se deslocar para o lugar de leitor do próprio texto e, assim, identificar o que não está claro, o que falta, o que precisa ser modificado, para que a escrita ganhe qualidade.
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Comédias para se Ler na Escola é uma antologia de crônicas de Luís Fernando Veríssimo organizada por Ana Maria Machado, leitora de carteirinha do autor. Ela releu durante meses textos do autor, e preparou uma seleção de crônicas capaz de despertar nos estudantes o prazer e a paixão pela leitura. O resultado pode ser conferido em Comédias para se ler na escola, uma rara e feliz combinação de talentos.

O título do livro resulta da teoria do autor de que até pessoas que não são habituadas a ler obras literárias são capazes de se deliciar com elas. A obra, porém, é ideal para ser lida não só na escola, mas onde quer que se esteja, e para aqueles momentos em que se deseja ter um pouco de descontração.

Em seu sensível texto de abertura, Ana Maria Machado observa: "Depois de ler este livro, duvido que algum jovem ainda seja capaz de dizer, sinceramente, que não curte ler. E, para não ficar achando que só gosta deste livro, que leia os outros do autor. Aposto que, em sua maioria, os novos leitores vão se viciar em livro e sair procurando outros textos, de outros autores. Com vontade de, um dia, chegar a escrever assim. Quem sabe? O Veríssimo nunca pensou que ia ser escritor quando crescesse. Seu negócio era mesmo um bom solo de saxofone, instrumento em que ainda arrasa, escondido. Mas com essa história de ser músico, desenvolveu tanto o ouvido que acabou assim: hoje ele ouve (e conta pra nós) até o que pensamos, sentimos e sonhamos em silêncio. Em qualquer idade."

A coletânea de crônicas reúne 35 narrativas curtas trazendo o universo das histórias e personagens de Veríssimo. Dessa vez, o autor aparece sentado num banco escolar, arremessando um aviãozinho de papel.

No livro Comédias para se ler na escola, podemos encontrar alguns exemplos de um trabalho que ora se debruça sobre a gramática da língua ora se esgueira pelos labirintos do discurso. Através de jogos lingüísticos e da ironia do autor, a vida surge esplendorosa diante de um leitor que se identifica com as idéias do escritor e que aguarda ansioso a oportunidade de ler novas crônicas.

A seleção de Ana Maria Machado em Comédias para se ler na escola permite ao leitor mergulhar no universo das histórias e personagens de Veríssimo prestando atenção nos múltiplos recursos deste artesão das letras. A habilidade para os exercícios de linguagem ou de estilo pode ser conferida em crônicas como "Palavreado", "Jargão", "O ator" e "Siglas". A competência para desenvolver as comédias de erro está presente em "O Homem Trocado", "Suflê de Chuchu" e "Sozinhos". A mestria para criar pequenas fábulas, com moral não explícita, aparece em "A Novata", "Hábito Nacional" e "Pode Acontecer". A aptidão para resgatar memórias é a marca de "Adolescência", "A Bola" e "História Estranha". E, por fim, o dom para abordagens originais de temas recorrentes revela-se em "Da Timidez", "Fobias" e "ABC".

Comédias para se ler na escola é cheio de situações inusitadas e escrito em uma linguagem com a qual até os menos adeptos da literatura se identificam. Foi reunida diversas crônicas humorísticas a respeito da vida alheia. O leitor é convidado a viajar entre as situações mais esquisitas no dia-a-dia de uma pessoa comum. As personagens fictícias deixam aqueles que leem com vontade de perguntar: por que essas coisas não acontecem comigo?

Como podemos perceber, o tema das crônicas é o cotidiano.

O livro é dividido em seis partes conforme veremos a seguir.

1. “Equívocos” - apresenta uma seleção de crônicas que põe a imaginação do leitor para funcionar. Situações quase surreais, como a do menino que vira super-herói em “A espada”, são diversão garantida para os que gostam de aventura.

Crônicas de "Equívocos":

A espada – Um garoto de 7 anos ganha uma espada misteriosa no dia de seu aniversário. Ele fala ao pai que agora era um “Thunder boy”. O pai não o leva a sério, mas se surpreende quando escuta um forte estrondo e vê seu filho cumprindo sua missão de “Thunder boy”.

O marajá – Um marido, cansado das crises de histeria da mulher, D. Morgadinha, em relação à limpeza da casa, pede a um amigo que se finja de Marajá, a fim de que a mulher se esquecesse um pouco da mania de limpeza. Não dá certo, a mulher se apaixona pelo falso Marajá.

O homem trocado – As desventuras de um homem que teve toda a vida trocada, desde seu nascimento. Agora, estava em um hospital para operar a apendicite e enganaram-se na cirurgia: trocaram-lhe o sexo.

Suflê de chuchu – Duda, uma garota de classe média vai tentar a vida na Europa, porém não sabe fazer nada. Fica ligando para a mãe a fim de pedir-lhe explicações sobre assuntos domésticos.

Sozinhos – Dois velhinhos roncadores que descobrem, sem querer, que os ladrões (ou a morte) invadiram sua casa.

A foto – Família se reúne para tirar foto com o bisa e a bisa que já estão muito velhinhos. Como ninguém queria deixar de aparecer na foto, o velhinho se irrita, tira a foto da família e vai dormir.

2. “Outros tempos” - faz uma incursão à juventude e mostra o quanto ela pode ser engraçada quando nos lembramos dela mais tarde.

Crônicas de "Outros tempos":

A bola – O garoto ganha uma bola e, obcecado por videogame não sabe o que fazer com ela. O pai se decepciona.

História estranha – Um homem de quarenta anos se reconhece em uma criança que está brincando no parque. A criança também o identifica, eles se abraçam e o garoto pensa em como seria sentimental quando crescesse. 

Vivendo e... – O narrador começa a lembrar do que fazia na infância e percebe que já não é mais capaz nem de cuspir com a língua entre os dentes como fazia antigamente.

Adolescência – Um garoto perturba a todos com o violino que acabara de ganhar. Cansados, os vizinhos e o pai contratam Vandeca Furacão para que o garoto se esquecesse do instrumento musical.

3. “De olho na linguagem” - prova que é possível ser engraçado sem abrir mão do bom português. A crônica “Sexa”, que aborda a ingenuidade de um garoto diante da mente maliciosa do pai, já vale o livro.

Crônicas de "De olho na linguagem":

Sexa – Um garoto interroga o pai sobre o feminino de sexo.

Pá, pá, pá – Um brasileiro tenta explicar a uma americana o que significam certas expressões da língua como: “pois é”, pois sim, pois não e pá, pá, pá”.

Defenestração – O narrador brinca com o significado de certas palavras e se interroga com o sentido de “defenestrar” – ato de atirar algo ou alguém da janela.

Tintim – Brincadeira com as expressões brasileiras: tintim – barulho das moedas. 

Papos – O narrador brinca com as palavras e critica a gramática da língua portuguesa através da colocação pronominal.

O jargão – O narrador se imagina um marinheiro, embora não entenda nada de barcos e começa a usar vários jargões (provavelmente inventados), fazendo uma crítica aos economistas que usam palavras as quais ninguém entende, mas que as pessoas jamais ousariam questionar.

Pudor – O narrador brinca com o significado de algumas palavras, dentre elas “trilhão”, que antigamente significava um número muito alto, impossível de se imaginar e que hoje, devido à inflação e às mudanças de planos econômicos torna-se quase íntimo nosso.

Palavreado – O narrador brinca com as palavras e imagina novos significados para elas (falácia, lascívia, fornida, lipídio, otorrino, pseudônimo etc.).

4. “Fábulas” - mostra o lado cômico das situações mais embaraçosas do cotidiano

Crônicas de "Fábulas":

A novata – Conta o primeiro dia de trabalho na vida de uma jornalista. No início o chefe não acredita muito na moça, mas ela se revela uma ousada profissional.

Bobagem – Dois amigos que não se viam há muitos anos porque estavam brigados e nem se lembravam do porquê. Pensaram que deveria ser bobagem. Conversaram, beberam, marcaram um outro encontro, mas um deles não compareceu porque havia se lembrado da bobagem que os fez brigar. 

Hábito Nacional – Vários políticos famosos brasileiros morrem em um desastre de avião. São Pedro quer levá-los direto para o inferno, mas Deus lhes perdoa. “Sabe como é, Brasileiro...”

Pode acontecer – Dois amigos tramam atacar o Congresso Nacional e pegar políticos como reféns. O fracasso foi total, pois no dia combinado os políticos faltaram ao serviço.

Direitos humanos - É a história do motorista Algemiro, que ao levar uns americanos para conhecer o Rio de Janeiro, encontra Budum Filho, um homem que estava lhe vendendo o dinheiro do jogo de bicho. Algemiro briga com o rapaz, mas este se faz de vítima para os americanos que o defendem.

Segurança – Cansados de serem assaltados, os moradores de um condomínio fechado tentam de todas as maneiras buscar estratégias para espantar os ladrões e ficam cada vez mais trancados em suas próprias casas. Ao final, fazem uma rebelião, querendo fugir do Condomínio.

5. “Falando sério” - é uma coletânea de crônicas sobre problemas comuns do cidadão brasileiro.

Crônicas de "Falando sério":

Fobias – O autor expõe diversos tipos de medos e aversões a alguma coisa (claustrofobia, acrofobia, collorfobia etc.) e brinca com o leitor querendo saber como se chamaria o medo de não ter o que ler.

Anedotas – O narrador faz reflexões sobre as anedotas e diz que nem todos os humoristas conseguem fazê-la, pois é um processo único.

Da timidez – O narrador faz uma exposição sobre pessoas tímidas que, mesmo querendo se esconder de todos, sempre acaba chamando a atenção de alguma forma. 

ABC – Comentários irônicos sobre o tamanho das letras de acordo com as idades. Quanto mais velhos ficamos, mais as letras diminuem. Segundo o narrador, esse processo está errado.

6. “Exercícios de estilo”- finaliza a obra, com o autor brincando com estilos de texto sem perder a pose nem a graça.

Crônicas de "Exercícios de estilo":

Amor – “Poema mais ou menos de amor” – alguém que queria ser o guarda-roupa da amada para guardar seus segredos.

Um, dois, três – O narrador diz querer, um dia, fazer uma crônica que enchesse o mundo de magia.

O ator - Um ator leva seu trabalho tão a sério que confunde sua vida com a de seu personagem e acaba perdendo sua própria identidade. 

O recital - Um invasor tenta tocar seu instrumento musical (uma tuba) junto com um quarteto de cordas e a confusão se generaliza.

Siglas - Os personagens, preocupados em arrumar uma sigla para seu novo partido, esquecem-se de seus princípios e de suas lutas e, em nome de uma boa sigla para o partido, mudam seus ideais políticos.

Rápido - Em poucas palavras e em forma de diálogos, o autor conta a história de vida um casal que se encontra, casa-se, tem filhos, viram avós e já estão na idade “perigosa”, a de morrer de velhice.

O classificado através da história - O autor faz brincadeiras com a própria língua e com os objetos a serem vendidos, como se fossem classificados de jornais. Fonte

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