Licensa

31/05/2013

EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ - Theodor Adorno

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A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. E isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos infortúnios, a pressão social continua se impondo. Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador. (...)
(...) É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos. Os culpados não são os assassinados, nem mesmo naquele sentido caricato e sofista que ainda hoje seria do agrado de alguns. Culpados são unicamente os que, desprovidos de consciência, voltaram Contra aqueles seu ódio e sua fúria agressiva. E necessário contrapor-se a uma tal ausência de consciência, é preciso evitar que as pessoas golpeiem para os lados sem refletir a respeito de si próprias. A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica. Contudo, na medida em que, conforme os ensinamentos da psicologia profunda, todo caráter, inclusive daqueles que mais tarde praticam crimes, forma-se na primeira infância, a educação que tem por objetivo evitar a repetição precisa se concentrar na primeira infância. Já mencionei a tese de Freud acerca do mal-estar na cultura. Ela é ainda mais abrangente do que ele mesmo supunha: sobretudo porque, entrementes, a pressão civilizatória observada por ele multiplicou-se em uma escala insuportável. Por essa via as tendências à explosão a que ele atentara atingiriam uma violência que ele dificilmente poderia imaginar. porém o mal-estar na cultura tem seu lado social ---- o que Freud sabia, embora não o tenha investigado concretamente. É possível falar da claustrofobia das pessoas no mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa é a rede, mais se procura escapar, ao mesmo tempo em que precisamente a sua densidade impede a saída. Isto aumenta a raiva contra a civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional. (...)
O mundo não deveria ser visto assim?
(...) Quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas questões: primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao horror tornem-se de algum modo conscientes. (...) Antes é de se supor que o fascismo e o horror que produziu se relacionam com o fato de que as antigas e consolidadas autoridades do império haviam ruído e se esfacelado, mas as pessoas ainda não se encontravam psicologicamente preparadas para a autodeterminação. Elas não se revelaram à altura da liberdade com que foram presenteadas de repente. É por isso que as estruturas de autoridade assumiram aquela dimensão destrutiva e por assim dizer de desvario que antes, ou não possuíam, ou seguramente não revelavam. Quando lembramos que visitantes de quaisquer potentados. já politicamente desprovidos de qualquer função real, levam populações inteiras a explosões de êxtase, então se justifica a suspeita de que o potencial autoritário permanece muito mais forte do que o imaginado. (...) Frequentemente pessoas bem-intencionadas e que se opõem a que tudo aconteça de novo citam o conceito de vínculos de compromisso. A ausência de compromissos das pessoas seria responsável pelo que aconteceu. Isto efetivamente tem a ver com a perda da autoridade, uma das condições do pavor sadomasoquista. (...)
Para ler o texto na íntegra: clique aqui

30/05/2013

A menina do leite

A menina não cabia em si de felicidade. Pela primeira vez iria à cidade vender o leite de sua vaquinha. Trajando o seu melhor vestido, ela partiu pela estrada com a lata de leite na cabeça. 
Enquanto caminhava, o leite chacoalhava dentro da lata. 
E os pensamentos faziam o mesmo dentro da sua cabeça. 
"Vou vender o leite e comprar uma dúzia de ovos." 
"Depois, choco os ovos e ganho uma dúzia de pintinhos." 
"Quando os pintinhos crescerem, terei bonitos galos e galinhas." 
"Vendo os galos e crio as frangas, que são ótimas botadeiras de ovos." 
"Choco os ovos e terei mais galos e galinhas." 
"Vendo tudo e compro uma cabrita e algumas porcas." 
"Se cada porca me der três leitõezinhos, vendo dois, fico com um e ..." 
A menina estava tão distraída que tropeçou numa pedra, perdeu o equilíbrio e levou um tombo. 
Lá se foi o leite branquinho pelo chão. 
E os ovos, os pintinhos, os galos, as galinhas, os cabritos, as porcas e os leitõezinhos pelos ares.

Não se deve contar com uma coisa antes de consegui-la.

Do livro: Fábulas de Esopo - Scipione

Assim começamos nossa história ...

Tudo começou em fevereiro de 2000 com a fundação da EMEF DO BAIRRO JARDIM LAVÍNIA, que funcionava provisoriamente em 3 prédios diferentes: Centro Comunitário, Igreja Presbiteriana e EE Geraldo Zancopé. Em setembro daquele ano os alunos que estudavam no espaço cedido pelo Centro Comunitário e pela Igreja Presbiteriana foram transferidos para a EE Antonio de Baptista.
No ano letivo de 2001, com a conclusão da construção do prédio destinado para seu funcionamento, todos os alunos puderam estudar no mesmo espaço, que foi oficialmente inaugurado pelo então prefeito Abelardo Camarinha em 27 de abril de 2001, recebendo o nome de EMEF Professor Américo Capelozza.
A mensagem, marcada em nossa placa de inauguração, diz que a EMEF Américo Capelozza proporcionaria "às crianças dessa região da cidade mais conforto, segurança e qualidade de ensino".
Parabéns aos Professores, Funcionários, Famílias e alunos que nos ajudaram, nesses 13 anos, a construir essa história de sucesso que não é de um pessoa apenas, mas de todos nós!
Nossa escola leva o nome do saudoso professor Américo Capelozza. Ele nasceu em 23 de maio de 1929 na cidade de Jaú-SP, filho de Ângelo Capelozza e Augusta Frigo Capelozza. Teve três irmãos e quatro irmãs. Em 1933 se mudou com a família para Marília. Iniciou sua alfabetização com a professora Tomásia Rúbio. Posteriormente continuou seu estudo no 2º Grupo (hoje Tomaz Antônio Gonzaga) até o término do curso primário. Concluiu o curso como 1º aluno da classe. Fez curso Ginasial concluindo no ano de 1948. Em seguida, o curso Científico em 1951. Em 1953 foi aprovado em concurso público em Bauru-SP para lecionar matemática. Casou-se em 1955 com Alice Lima Capelozza com quem teve cinco filhos: Ângelo Américo, Mário Luiz, Horácio, César e Marco Aurélio. Começou a lecionar Matemática no Ginásio Fernando Magalhães permanecendo neste ginásio até 1958. De 1959 a 1962 lecionou no Instituto de Educação Monsenhor Bicudo. Em 1962 passou a lecionar no Ginásio Estadual Amílcare Mattei onde permaneceu até se aposentar em 1983. Por inúmeras vezes foi eleito o melhor professor da escola onde lecionava e era homenageado com frequência nas solenidades de formatura. Paralelamente à vida didática, em 1961, iniciou atividade empresarial e fundou a "Fábrica de Parquetes e Esquadrias de Madeira Capelozza" Apreciava música e tinha especial aptidão para tocar acordeão. Faleceu em 21 de novembro de 1991. Fonte
Vem aí ...
Participe!

Para refletir ....

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Há pessoas que nos fazem voar. A gente se encontra com elas e leva um bruta susto (…) elas nos surpreendem e nos descobrimos mais selvagens, mais bonitos, mais leves, com uma vontade incrível de subir até as alturas, saltando de penhascos. Outras, ao contrário, nos fazem pesados e graves. Pés fincados no chão, sem leveza, incapazes de passos de dança. Quanto mais a gente convive com elas mais pesados ficamos.

18/05/2013

EMPATIA E COMPAIXÃO

O Times publicou recentemente um artigo curioso sobre empatia, relatando um caso de uma menina que partiu uma perna e ficou imobilizada na margem da estrada. Diversos condutores passaram, mas nenhum parou e ajudou a menina, num verdadeiro ato de compaixão.
Segundo o artigo, todos sentem empatia, mas o problema reside no fato de agirmos, ou não, num determinado momento e ou situação. Numa sociedade cada vez mais individualista e competitiva, o nosso cérebro é influenciado pelo ambiente que nos rodeia, doseando a empatia que sentimos e subsequentemente os atos de compaixão que praticamos. Todo o processo é, no entanto, algo que se obtém pela sua prática corrente... num ambiente cada vez mais ligado pela distância das novas tecnologias de informação, que futuro nos espera? Toda a nossa base de evolução e sobrevivência como espécie, assentou, precisamente, no sentimento da empatia e nos atos de compaixão, permitindo-nos sobreviver e prosperar. Fonte

Compaixão é coisa que se aprende em casa

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Costumo dizer que aprender sobre a empatia faz parte da educação. Assim como generosidade, amizade e compaixão.
Eu tinha mais ou menos oito anos: minha mãe e a Teresa, minha irmã, juntavam roupas, lençóis, comida e brinquedos e íamos para a casa do Vicente, passar o dia. Pra mim, e para minhas outras irmãs, pouco mais velhas, era uma festa.

O Vicente era um pedreiro e pintor de paredes que vivia com a mulher e nove filhas num casebre na cidadezinha do interior de Minas, numa rua de terra batida e muitas árvores. Lembro que era uma casa branca por fora e escura por dentro, de cômodos pequenos e com um odor peculiar que até hoje minha memória olfativa mantém guardado.

Lembro que a filha mais velha, a Cida, tinha olhos azuis e tranças compridas muito louras. Ela era doente mental, mas ria e balbuciava palavras enquanto nos abraçava. E lembro de uma das mais novas, a Solange, que eu gostava de fazer de boneca. Havia um bebezinho e todas as outras meninas, cujos nomes se perderam na minha lembrança.

As visitas eram sempre em dias de sol, quando a Teresa nos levava para debaixo de uma mangueira e nos contava histórias de princesas, inventadas na hora. Brincávamos no quintal a tarde inteira, correndo em meio às galinhas e aos cachorros magrinhos e mansos. Lembro da alegria da mulher do Vicente, e dele próprio, que sorriam benevolentes, com um olhar de gratidão quase infantil.

Eu era criança, e mesmo sem entender muito bem as coisas, me comovia com aquilo. Ao fim do dia, quando íamos embora, sentia sempre uma alegria meio triste, que não entendia bem. Precisei de alguns anos para entender que o que eu sentia na hora da despedida era compaixão.

Foi assim que minha mãe nos ensinou sobre a generosidade, enquanto a Teresa falava que a visita era tão importante quanto os donativos, talvez até mais.

Um dia me mudei da cidadezinha, cresci e nunca mais vi aquela família, embora jamais tenha me esquecido daqueles dias que ficaram em minha memória como imagens mágicas, com uma luz dourada de infância.

Eu já estava com mais de trinta anos quando voltei à cidade e, enquanto subia uma ladeira, alguém gritou meu nome. Era um homem velho, de chapéu de palha, sentado sozinho no banco da praça. 

-- Vicente! – gritei, como se encontrasse alguém de outro mundo. 

E ali, naquele fim de tarde, voltamos àqueles dias tão vivos, enquanto pude rever, nos olhos dele, a mesma gratidão infantil do passado. A mesma gratidão infantil que boiou também nos meus olhos, quando nos reconhecemos amigos que o tempo não afastou. Fonte

Brincando com as crianças

Para se ter uma ideia da importância do ato de brincar na construção do conhecimento é preciso que se observe uma criança brincando. É possível aprender muito desta observação. 
Se formos atentos e sensíveis, veremos os caminhos que ela trilha ao aprender sem a intervenção direta do adulto. Brincando, a criança aprende a lidar com o mundo e forma sua personalidade, recria situações do cotidiano e experimenta sentimentos básicos.
Hoje estamos numa sociedade de produção capitalista e isto tem levado as instituições educacionais a desenvolverem um modelo de educação massificante, em que as atividades lúdicas, espontâneas, têm espaço tão limitado que não surtem efeito. Crianças transformadas em miniaturas de adultos, reduzidas a seguir uma rotina eficaz para os adultos, mas sem sentido para elas, estão sendo privadas de um de seus direitos básicos.
O mundo da criança difere qualitativamente do mundo adulto, nele há o encanto da fantasia, do faz-de-conta, do sonhar e do descobrir. É através das brincadeiras, atividade mais nobre da infância, que a criança irá se conhecer e terá a oportunidade de se constituir socialmente. É também a partir da espontaneidade do brincar que a criança poderá expressar as diferentes impressões vivenciadas em seu contexto familiar e social. 
A afinidade da brincadeira infantil com a natureza da própria criança tem reconhecimento histórico, por isso, vem sendo tema de inúmeras pesquisas e estudos ao longo dos anos. É interessante destacar que em todas as concepções teóricas sobre o desenvolvimento e educação da criança pequena e na literatura em geral, a brincadeira aparece 
como um importante recurso na construção de conhecimentos e desenvolvimento integral. A brincadeira é a atividade que faz parte do cotidiano de qualquer criança, independente do local onde vive, dos recursos disponíveis, do grupo social e da cultura da qual faça parte, todas as crianças brincam. Fonte

Heróis do cotidiano

A PARÁBOLA DOS CEGOS NO CENTRO DO RIO
Pode um cego guiar o outro? Ou será que ambos caem no buraco?

Movido pelas duas perguntas proferidas por Jesus e registradas por Mateus em seu Evangelho, o pintor holandês Pieter Bruegel pintou "A parábola dos cegos"(1568). Nesta obra – onde podemos perceber na paisagem ao fundo (com destaque para a igreja) e nos homens retratados o apuro formal do artistas holandês – Bruegel parece dizer: cairemos todos como um dominó. O primeiro indivíduo já está no chão, o segundo tropeça no primeiro e o sexto cego, para quem tudo está bem, em breve se encontrará no buraco com os outros. A resposta de Bruegel para as perguntas de Jesus é, portanto: “Não, um cego não pode guiar o outro”.

A parábola dos cegos é o ponto de partida para a “Performance Intervenção Urbana – Cegos“, promovida por três grupos de artistas: o Desvio Coletivo e o Coletivo Pi, de São Paulo, e o Heróis do Cotidiano, do Rio de Janeiro. No dia 07/12/12, sexta-feira, dezenas de executivos, homens e mulheres, devidamente trajados, portando maletas, bolsas e documentos, totalmente cobertos de argila, irão caminhar vendados por diversos locais do Centro de Cidade Carioca (veja o roteiro abaixo!).
Coordenada pelos professores Tania Alice (UNIRIO), Marcos Bulhões e Marcelo Denny (Laboratório de Práticas Performativas da USP), a ação sublinha a parceria que vem sendo elaborado com o Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias (NEPAA) da UNIRIO. Juntos, esses coletivos pensam o uso da cidade de maneira poética, mais do que funcional. A “Performance Intervenção Urbana – Cegos”, já apresentada na Av. Paulista no horário do almoço, procura ressaltar a cegueira dos executivos diante de nosso mundo.

A intervenção urbana parece tão fatalista quanto o seu quadro de inspiração. Não nos enganemos, no entanto. Nesta atualização da Parábola dos Cegos, a performance valoriza o elemento relacional na arte, que considera como foco da obra de arte a transformação da relação entre performers e participantes. A cegueira interna e moral, sublinhada pelas vendas e pela cegueira física, é passível de transformação. Nada mais otimista.

ROTEIRO
A performance ocorre no dia 7 de Dezembro, sexta-feira, entre 11h e 14h.

1. Circo Voador – Rua dos Arcos – Lapa
2. Rua do Passeio
3. Cinelândia (Neste ponto temos a Câmara dos Vereadores)
4. Treze de Maio (Rua lateral ao teatro municipal. Neste ponto vale um cuidado e uma atenção, pois no ano passado um prédio desabou nesta região, deixando alguns mortos. O vão ainda está lá e haja visto a força estética da performance, vale este cuidado.)
5. Largo da Carioca
6. Av. Rio Branco
7. Igreja da Candelária
8. R. Primeiro de Março
9. Alerj (Assembléia Legislativa)
10. Rua da Assembléia
11. Av. Rio Branco
12. Evaristo da Veiga (Tem um Quartel General Central da PM enorme nesta Rua, vale uma atenção pq eles não costumam ser muito receptivos…)
13. Praça dos Arcos
14. Circo Voador – Rua dos Arcos – Lapa 
E o que dizer das pessoas que aparecem no vídeo abaixo?

12/05/2013

Clarice Lispector

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Gosto das cores, das flores, das estrelas, do verde das árvores, gosto de observar. A beleza da vida se esconde por ali, e por mais uma infinidade de lugares, basta saber, e principalmente, basta querer enxergar. Clarice Lispector
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Jogando com o tempo - Affonso Romano de Sant’Anna

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O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa

o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça

o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.

O tempo é trapaça?

tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.

11/05/2013

Um pouco de mim ...

"Já fui julgada até crucificada. Já fui enaltecida e muito amada. Já fui certa e errada. Já julguei e condenei. Me arrependi e me desculpei. Já fiz de tudo um pouco porque meu verbo é solto. Se sinto, preciso falar, se me incomoda tenho que questionar. Mal interpretada costumo ser mas o que posso fazer quando preciso dizer o que vai dentro do meu coração e bole com a minha emoção. Já fui injusta com quem não deveria ser e cruel com quem fez por merecer. Já fui bondosa e companheira. Já fui até a enfermeira de vidas que desabavam. Já fui bombas que estouravam em meio a guerras devastadoras. Já fui a doutora que curou um coração que se feriu por amor. Já fui a personagem esquecida e a atriz principal. Já fui recatada e imoral. Já fui alguém que o vento levou e que trouxe, de volta, por um favor. Já acertei e errei adoeci e me curei. Já pedi e implorei. Já cedi, vendi e dei. Já me culpei e me torturei por tantas coisas que nem sei. Já corri muito atrás mas era longe demais e não consegui chegar. Já rasguei lembranças que não prestavam mais. Já remexi o lixo para achá-las e de volta, na gaveta, colocá-las. Já fiz de tudo um pouco afinal sou normal, só não posso revelar o etc e tal." Martha Medeiros

O permanente provisório - Martha Medeiros

Não somos repetições de nós mesmos, a cada instante somos surpreendidos por novos pensamentos que nos chegam através da leitura, do cinema, da meditação. O que eu fui ontem, anteontem, já é memória. Escada vencida degrau por degrau, mas o que eu sou neste momento é o que conta, minhas decisões valem pra agora, hoje é o meu dia, nenhum outro.
Amor permanente… como a gente se agarra nesta ilusão. Pois se nem o amor pela gente mesmo resiste tanto tempo sem umas reavaliações. Por isso nos transformamos, temos sede de aprender, de nos melhorar, de deixar pra trás nossos imensuráveis erros, nossos achaques, nossos preconceitos, tudo o que fizemos achando que era certo e hoje condenamos. O amor se infiltra dentro da nós, mas seguem todos em movimento: você, o amor da sua vida e o que vocês sentem. Tudo pulsando independentemente, e passíveis de se desgarrar um do outro.
Um endereço não é pra sempre, uma profissão pode ser jogada pela janela, a amizade é fortíssima até encontrar uma desilusão ainda mais forte, a arte passa por ciclos, e se tudo isso é soberano e tem valor supremo, é porque hoje acreditamos nisso, hoje somos superiores ao passado e ao futuro, agora é que nossa crença se estabiliza, a necessidade se manifesta, a vontade se impõe – até que o tempo vire.
Faço menos planos e cultivo menos recordações. Não guardo muitos papéis, nem adianto muito o serviço. Movimento-me num espaço cujo tamanho me serve, alcanço seus limites com as mãos, é nele que me instalo e vivo com a integridade possível. Canso menos, me divirto mais, e não perco a fé por constatar o óbvio: tudo é provisório, inclusive nós.

Produção e intervenção textual

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Qual é a única maneira de permitir a alguém – criança ou adulto – que aprenda algo a respeito de certo objeto de conhecimento? Permitir-lhe que entre em contato, que interaja com esse objeto. (FERREIRO, 2003, p. 38)
A formação de escritores é uma das principais metas do processo de escolarização e uma das mais árduas tarefas para os docentes. Saber escrever vai muito além de dominar os princípios do sistema de representação ou mesmo características dos textos; não basta saber escrever alfabética e ortograficamente ou ser capaz de listar como é um texto e quais são seus propósitos sociais para que um sujeito seja visto como escritor competente. Saber escrever também não significa saber produzir textos de caráter exclusivamente escolar, textos que inexistem fora dos muros dessa instituição. 
Se a meta é formar escritores, trata-se de formar sujeitos capazes de se comunicar por escrito, por razões diversas e utilizando diferentes formas de discurso. 
Afinal, a escrita é mesmo um rico de instrumento de comunicação. Fazer-se entender pelo texto, conseguir estabelecer uma efetiva “conversa” com o(s) destinatário(s), levando em conta a situação social instaurada, seus propósitos e também as características da estrutura textual em jogo e outras convenções do nosso sistema de representação é uma tarefa complexa, longa. Trata-se de um debruçar-se sobre o texto, alternando-se nos papéis de escritor e leitor, a fim de validar a pertinência do conteúdo, a coerência interna, a precisão da comunicação. 
É por esse conjunto de razões que o texto, em geral, é fruto de um processo intenso de reflexão, elaboração e reelaboração. Muitas vezes, instaura-se como um processo difícil e demorado; da gestação de um texto à sua versão final, inúmeros passos são dados, inúmeros procedimentos colocados em prática e inúmeras decisões tomadas e revistas. 
Não há como ensinar aprendizes a escrever sem colocá-los perante o desafio da comunicação escrita, ainda que se trate de autores-iniciantes. Apropriar-se da escrita implica atuar como escritor e aprender, gradativamente, a identificar e solucionar os problemas que as peculiaridades de cada situação comunicativa nos impõem. É preciso, de fato, que a produção de textos seja uma situação-problema para os alunos; é preciso que tenham algumas condições prévias para dar conta da tarefa e em igual medida que tenham desafios ao longo desse processo. É preciso que tenham condições para buscar, com o apoio do professor, soluções para efetivar a comunicação (considerando, é certo, as possibilidades a cada momento da escolaridade), porém, é fundamental que tenham problemas para solucionar. A situação comunicativa e o tipo de texto eleito para uma sequência ou projeto didáticos já supõem uma gama de desafios para seus escritores e uma gama de conteúdos com os quais o professor precisa trabalhar. Entretanto, será a natureza da intervenção docente que possibilitará que a produção de textos se transforme em um processo de reflexão sobre a escrita e a língua escrita e, consequentemente, em aprendizagens progressivas e sucessivas. Andréa Luize
Arquivo utilizado no mini curso na FAEF - Garça

05/05/2013

Amo - J.G.de Araujo Jorge

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Amo a terra! Amo o sol! Amo o céu! Amo o mar!
Amo a vida! Amo a luz! Amo as árvores! Amo
a poesia que escrevo e entusiasta declamo
aos que sentem como eu a alegria de amar!

Amo a noite! Amo a antiga palidez do luar!
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo!
Uma folha que cai! Um perfume no ar
onde um desejo extinto sem querer inflamo!

Amo os rios! E a estranha solidão em festa,
dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta!

Amo a cor que há nos sons! Amo os sons que há na cor!
E em mim mesmo - amo a glória de sentir-me um Poeta
e amar imensamente o meu imenso amor!
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J. G. de Araújo Jorge pode estar esquecido pela crítica — e dificilmente terá lugar na história da poesia brasileira —, mas jamais pode ser menosprezado. É um dos poetas mais frequentados nas páginas da internet e talvez seja um dos mais lembrados, lidos e copiados pelos enamorados.
Autor de vasta obra (36 livros), sem esquecer o trabalho de divulgação da poesia que ele desenvolvia, ainda é um dos poetas mais buscados nos sebos, já que sua obra não é — falta tino aos editores — reeditada.
Ele nasceu na Vila de Tarauacá (ACRE), onde passou a infância e cursou o primário. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, ainda ginasiano, sua primeira colaboração na imprensa adulta: em 1931, publicou o primeiro poema "Ri Palhaço, Ri" no "Correio da Manhã", depois transcrito no "Almanaque Bertand" de 1932.
No Externato Colégio Pedro II, chegou a merecer, em certame, o título de o "Príncipe dos Poetas", sendo saudado na festa por Coelho Neto.
Foi locutor e redator de programas radiofônicos, e professor de História e Literatura do Colégio Pedro II. Foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal por três Legislaturas , chegando a exercer a liderança do MDB. Era conhecido como o Poeta do Povo e da Mocidade, “pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno, mas às vezes, dramático” — como assinalada acertadamente um site da internet.
Faleceu em 27 de Janeiro de 1987.

Cio da terra (1976)

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Música e letra: Milton Nascimento e Chico Buarque de Hollanda

Nesta música Milton e Chico fazem maravilhosa analogia entre os ciclos da vida vegetal, trigo e cana de açúcar, deixando implícita a comparação entre o ciclo da reprodução vegetal e da reprodução humana. Milton Nascimento nasceu em 26/10/1942 no Rio de Janeiro, mas mudou-se ainda garotinho para Três Pontas MG; desde muito cedo demonstrou gosto e amor por música; foi crooner do conjunto W's Boys, composto por Wagner Tiso, Waltinho, Wilson e Wanderley sendo Milton chamado então de "Wilton" para manter a coerência do conjunto; em 1963 mudou-se para Belo Horizonte para estudar Economia; conheceu então os irmãos Marilton, Márcio e Lô Borges, aumentando assim sua bagagem musical passando a atuar na noite de Belo Horizonte como cantor e tocando contrabaixo.
No ano seguinte compôs com Márcio Borges "Novena", "Gira, girou" e "Crença"; participou de vários conjuntos musicais cantando em shows, TV e casas noturnas; mudou-se para o Rio de Janeiro fazendo parte do conjunto Quarteto Sambacana onde gravou o LP "Quarteto Sambacana - muito pra frente".
Participou ativamente dos festivais de música: em 1966 no Festival Nacional de Música Popular da TV Excelsior em São Paulo, classificou em quarto lugar "Cidade Vazia" de Baden Pawel e Lula Freire; no ano seguinte no II Festival Internacional da Canção da TV Globo teve três composições suas classificadas: "Travessia" com Fernando Brant classificada em 2º lugar, "Morro velho" em 7º lugar e "Maria, minha fé" finalista mas não premiada. Milton recebeu nesse Festival pela interpretação de "Travessia" o prêmio de melhor intérprete. Mesmo tendo nascido no Rio de Janeiro, mas criado em Minas, Milton é o maior responsável pela divulgação e consagração da moderna música popular feita em Minas Gerais. 
Milton tem participado ativamente de muitos shows em teatros de todo o Brasil, fez muitas excursões aos Estados Unidos e Europa e tem sido ativo participante dos movimentos musicais em defesa da música popular brasileira; cantor de sucesso, autor de 180 composições solo e com diversos parceiros as mais famosas são: "Travessia", "Ponta de areia" e "Canção da América" com Fernando Brant, "Três Pontas", "Nada será como antes", "Cais" e "Circo marimbondo" com Ronaldo Bastos, "O cio da terra" com Chico Buarque, "Coração de estudante" com Wagner Tiso e inúmeras outras. Milton foi premiado em 1996 pela entidade Rain Forest por sua atuante participação nos movimentos ecológicos; em 1998 recebeu o prêmio Grammy, o mais importante no mundo musical, na categoria Melhor CD de World Music pelo seu disco "Nascimento".
Milton Nascimento é considerado no Brasil e no exterior um dos melhores compositores e cantores da moderna música popular brasileira.
Dárcio Fragoso
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Cio da terra
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel , se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra a propícia estação e fecundar o chão
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel , se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra a propícia estação e fecundar o chão Fonte

04/05/2013

Via Poética - Cora Coralina - "Lindo Demais"

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Coração é terra que ninguém vê 

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri. 

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei. 

Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão 

Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração. Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...

"Waldomiro de Deus - 50 Anos de Pintura"

A mostra "Waldomiro de Deus - 50 Anos de Pintura" reúne 22 obras do artista baiano, cujo trabalho é conhecido por características como o uso das cores alegres, a temática tropical, os traços leves e em estilo naïf (ingênuo) Leia Mais
Miscigenação da cultura brasileira e cenas cotidianas são as principais temáticas das pinturas de Waldomiro de Deus.


"Ensina-me a Subornar", obra de Waldomiro de Deus, que integra mostra do artista, em cartaz no Espaço Cultural BM&FBovespa
"Ensina-me a Subornar", obra de Waldomiro de Deus, que integra mostra do artista, em cartaz no Espaço Cultural BM&FBovespa
A mostra "Waldomiro de Deus - 50 Anos de Pintura" reúne 22 obras do artista baiano, cujo trabalho é conhecido por características como o uso das cores alegres, a temática tropical, os traços leves e em estilo naïf (ingênuo).


O artista de Itagibá, sertão da Bahia, produz telas que retratam uma realidade que contempla religião, folclore, natureza, paisagem urbana e temas políticos, como na obra "Ensina-me a Subornar".

Considerado um dos mais importantes artistas primitivistas do Brasil, Waldomiro veio para São Paulo aos 14 anos e logo começou a pintar com tinta guache em cartolina no Viaduto do Chá. A partir daí, realizou cerca de 70 individuais no Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha. Fonte

O cântico da terra - Cora Coralina

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.
Texto obtido no sitio "Textos & Contextos", na Internet.

Assim eu vejo a vida - Cora Coralina

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
O poema acima, inédito em livro, foi publicado pelo jornal "Folha de São Paulo" — caderno "Folha Ilustrada", edição de 04/07/2001

Auto-estima e Vaidade - Flávio Gikovate

A vaidade depende de sinais externos, trata-se da preocupação com o juízo de terceiros sobre você. Auto-estima é a ideia que o próprio indivíduo faz de si, independentemente da visão dos outros.

Yves de La Taille - Cultura da Vaidade e Consumo

Há um verdadeiro exército publicitário trabalhando ininterruptamente para convencer as crianças a comprar toda sorte de produtos.
Enquanto milhares de pais e mães vão freneticamente às compras para adquirir os presentes “encomendados” pelos filhos, poucos deles sabem que está em discussão, no Brasil e no mundo, a problemática relação infância-consumo e a questão da publicidade dirigida ao público infantil.
Quanto a este último tema, aliás, existe um projeto de lei em Brasília que visa coibir esse tipo de publicidade, cuja existência parece ser “natural” para muitos e até desejada por aqueles que, no lugar de pais, exultam com a simples perspectiva de seus filhos aparecerem como garotos propaganda ou que, no lugar de empresários, anteveem gordos lucros graças a esse amplo espectro de jovens consumidores.
À guisa de fio condutor do presente artigo, tomemos a questão da publicidade dirigida ao público infantil, pois ele nos levará necessariamente à questão da relação infância/consumo.
São dois os objetivos básicos da publicidade: 1) informar que tal produto ou serviço existe com tais e tais qualidades, e 2) convencer o virtual consumidor a adquiri-lo. Dos dois objetivos, o segundo é o mais importante e é em torno dele que inúmeros especialistas de marketing queimam as pestanas. Mas vale notar que o primeiro, não raramente, limita-se à mera informação de que um produto existe, pois nada se diz a respeito de suas qualidades. Acontece, por exemplo, em várias propagandas de carro, nas quais o veículo é mostrado em cenas idílicas, sem que nada de objetivo se fale sobre suas virtudes. Se nada falam do automóvel, em compensação sugerem que seu virtual comprador tem ou terá determinado tipo de identidade, em geral associada ao status de pessoa feliz, pois “vencedora”. Mas tal associação já é a tradução do segundo objetivo: seduzir o consumidor.
Isto posto, espera-se de um adulto que tenha recursos intelectuais e afetivos para resistir à sedução publicitária, notadamente quando essas fogem totalmente a qualquer verossimilhança com a vida real. Mas qual será o poder de resistência de uma criança?
Ele é naturalmente menor. A criança carece, em parte, de critérios para avaliar se os brinquedos que ela vê, sabiamente fotografados ou filmados terão, na prática, as qualidades lúdicas apresentadas. Com frequência, uma vez que tem o brinquedo nas mãos, ela fica desapontada e o abandona no baú dos objetos rejeitados ou esquecidos.
A criança também carece de critérios próprios para avaliar se cada objeto corresponde ao que ela realmente desejaria: suas vontades ainda costumam ser fugazes e, logo, facilmente dirigidas por especialistas em sedução. Outra vez aquilo que é intensamente querido num dado momento, logo cai no esquecimento, trocado por outra coisa eleita como alvo prioritário do desejo momentâneo. Finalmente, também devemos lembrar que a criança ainda é muito suscetível à influência de “celebridades”. Não é por acaso que se contratam “ídolos” para cantar as vantagens de variados produtos e se estampa seu rosto e nome nas embalagens ou até nos próprios produtos.
Em suma, existe um verdadeiro “exército simbólico” que adentra as defesas psíquicas ainda frágeis das crianças, para convencê-las a comprar isto e aquilo. Portanto, têm toda a razão as pessoas que querem, no limite do possível, protegê-las. E têm toda a razão, também, as pessoas que lamentam que, em tempos de Natal, o simpático Papai Noel tenha se transformado, de portador de esperanças e surpresas, em mero entregador de encomendas.
Sigamos adiante em nossas observações e notemos que, para além dos problemas que a suspeita sedução publicitária dirigida a crianças levanta, sua própria existência equivale a um forte incentivo ao consumo.
Vivemos numa sociedade que se convencionou chamar de sociedade de consumo, e, é claro, dela participam as crianças. Não poderia ser diferente e não se trata, portanto, de isolá-las do mundo, como o fez hipoteticamente Rousseau com Emile. Todavia, trata-se de prepará-las para serem consumidores conscientes. Mas, o que significa isso?
Significa, por exemplo, fazê-las paulatinamente compreender as relações entre consumo, trabalho e economia, para terem consciência do real valor das mercadorias e não pagarem, como o fazem tantos adultos de conta bancária abastada, preços claramente abusivos somente porque determinados produtos são vendidos em tal lugar ou produzidos por tal marca. E também para terem consciência dos graves problemas de distribuição de renda, que dão o luxo a poucos e o lixo a muitos. Há, no Brasil, uma proposta de Parâmetros Curriculares Nacionais que propõe trabalhar, desde o ensino fundamental, o tema “Trabalho e Consumo”. Trata-se de excelente iniciativa, infelizmente pouco conhecida.
Significado psicológico
Como é impossível desvincular o consumo da saúde ambiental de nosso planeta, ser consumidor consciente significa também avaliar as consequências de seus atos de compra e usufruto. Dizem os especialistas que se todos tivessem o modo de vida dos habitantes dos Estados Unidos, seriam necessários quatro ou mais planetas Terra para contemplar a demanda.
E ser consumidor consciente é também avaliar o significado psicológico do ato de consumir, ato esse que, sabe-se, é para muitos, na contemporaneidade, um ato frequentemente desvinculado de necessidades concretas, materiais. E aqui o tema se torna complexo e delicado.
Muitos já estudaram e analisaram os motivos que levam as pessoas a se entregarem a uma verdadeira bulimia de consumo. Há várias teorias, todas certamente com sua parte de verdade. Pessoalmente, me inclino a ver no afã de consumir um traço do que chamei de “cultura da vaidade”(1), pois faz todo sentido o seguinte diagnóstico de Jurandir Freire Costa: “O objeto (que é consumido) deve ‘agregar’ valor social – e não sentimental – a seu portador, ou seja, deve ser um crachá, um passaporte que identifica o turista vencedor em qualquer lugar, situação ou momento da vida”(2). Consome-se, entre outros motivos, para poder dar um “espetáculo de si”, para demarcar-se, para parecer (ou mimar) os “vencedores” e as “celebridades”. E isso não vale apenas para as classes sociais financeiramente abastadas, pois, como escrevem os autores do livro Cabeça de porco: “O dinheiro obtido no assalto troca-se pelo tênis de marca, pela camisa de marca. Essa frivolidade é uma pista. A camisa com nome e sobrenome e o tênis notabilizado pelo pedigree apontam numa direção: a grana vai para a marca, não para o calçado ou a camisa, não para o atendimento a necessidades físicas, como a simples proteção do corpo e dos pés. No caso, o que está em jogo é a busca de reconhecimento e valorização, a marca é o que importa, é a marca o objeto cobiçado, é ela que atende à necessidade. O vestuário (na moda) cumpre essa função: quem o consome deseja diferenciar-se para se destacar”(3).
Um desenho humorístico, assinado por Voutch e publicado na revista francesa Le Point, ilustra bem, a meu ver, um aspecto essencial do consumismo atual. Nele vê-se um homem com certo ar de dúvida contemplando, numa revendedora, um desses carros altos e poderosos, 4×4, que têm circulado muito pelas ruas e estradas, atualmente. O vendedor lhe apresenta um argumento “definitivo”: “a relação preço/arrogância é muito vantajosa!”.
Esperemos que nossos filhos, quando forem adultos, exijam ouvir argumentos mais decentes dos vendedores! Isso depende muito de nossas atitudes educativas. Mas quando vejo garotos e garotas, vestidos com roupa de grife, com tênis importado, celular de última geração na mão – como o iPhone –, câmera digital pendurada no pescoço etc., temo não estarmos na direção pedagógica correta.
E de pouco adiantarão leis que coíbam a publicidade dirigida ao público infantil, se os próprios adultos, entregues ao consumismo e à cultura da vaidade, forem às compras, motivados e seduzidos pela imagem que seus filhos, destinatários dos presentes natalinos, terão diante de outras crianças.
* Yves de La Taille é professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

(1). Yves de La Taille, Formação ética: do tédio ao respeito de si, Porto Alegre, Artmed, 2009.
(2). Jurandir Freire Costa, O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo, Rio de Janeiro, Garamond, 2004. O autor emprega o termo “turista” no sentido metafórico que lhe deu Bauman: a do homem pós-moderno, que deambula pelo planeta sem amarras e nem projetos de médio e longo prazo.
(3). Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde, Cabeça de porco, Rio de Janeiro, Objetiva, 2005.