Licensa

24/03/2013

Sobre Harry Potter

156076_470156139723082_1499387373_n_large
Agora que chegou ao fim a saga de Harry Potter, talvez valha a pena refletir sobre alguns dos aspectos da obra.

Quando a saga começa, com o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, encontramos o protagonista a viver em casa dos tios, que o criaram desde criança, e que têm um filho de idade semelhante à dele. Nesta casa, que deveria ser para ele um lar, Harry é obrigado a dormir num armário debaixo das escadas e enfrenta a hostilidade constante dos familiares. A hostilidade explica-se pelo facto de Harry ter nascido feiticeiro, e de ser filho de um casal de feiticeiros (a mãe dele era irmã da tia). Ficamos a saber, mais tarde, que o casal foi morto pelo maior feiticeiro de sempre, Lord Voldemort, enquanto tentavam salvar o filho, ainda bebê. Harry sobreviveu ao ataque, que lhe deixou uma cicatriz na testa, e que quase matou Voldemort, e isso transforma-o numa lenda viva do mundo da feitiçaria.

Contudo, Harry ignora tudo isto até fazer 11 anos, data em que é chamado a inscrever-se na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts, que fica situada num castelo, num mundo paralelo ao mundo dos humanos. Toda a obra parte do princípio de que ser feiticeiro é sempre melhor do que ser humano. Aliás, os humanos, apelidados de Muggles (um termo pejorativo que poderia ser traduzido por Trouxas), invejam sistematicamente os feiticeiros e são-lhes, obviamente, inferiores. Todos aqueles anos de degredo para Harry parecem, assim, ter sido recompensados.

Em Hogwarts, o leitor cedo descobre que a competitividade é o valor supremo, e que tudo o que os alunos fazem, de bom e/ou de mau, é registado em termos de pontuação. No final do ano letivo, a Casa vencedora é a que tiver obtido a maior pontuação. Escusado será dizer que a Casa de Harry Potter (Gryffingdor), que valoriza a bravura e a ousadia, sai sempre vencedora em relação à sua principal rival, Slythering, cujos atributos são a ambição e a astúcia. As outras duas Casas, Ravenclaw e Hufflepuff, apenas existem como pano de fundo. E, contudo, os atributos que elas enaltecem seriam muito mais adequados a uma escola. Ravenclaw valoriza a inteligência e o conhecimento, enquanto Hufflepuff louva o trabalho árduo, a paciência, a lealdade e o jogo limpo.

Num mundo em que o ideal do Guerreiro é sempre visto como superior ao ideal do Cuidador, faz sentido conceber Gryffingdor e Slythering como superiores. Veja-se o estado em que o mundo está…

Assim, em Hogwarts, a inteligência, a bondade e a conquista da excelência à custa do próprio esforço de pouco ou nada valem. A própria vontade de estudar é ridicularizada (veja-se a chacota de que é alvo Hermione Granger, que leva a sério os TPCs que os professores marcam), e as aventuras e os feitos espetaculares é que têm valor. O que importa é derrotar o adversário, num mundo em que todos são adversários, ou apenas aliados contra adversários.

No mundo de Harry Potter, ninguém pensa construir a vida com base nos seus próprios méritos, porque todos são predestinados. Sejam predestinados “bons” ou predestinados “maus”, já nasceram assim e nada do que possam fazer alterará a sua condição. Os predestinados podem até dar-se ao luxo de quebrar regras, o que Harry e o seu melhor amigo, Ron Weasley, fazem constantemente, para desespero dos professores e para gáudio dos próprios, já que as regras não se aplicam a eles, e muito menos a Potter, o mais jovem jogador de Quidditch da Escola desde há um século.

Este jogo bruto e violento, em que pernas e braços partidos são as consequências mais brandas dos encontros, é a única “cadeira” em que Harry se destaca, já que em tudo o resto é um aluno medíocre. Harry não estuda, nem quer saber de estudar: a sua cicatriz dá-lhe o passaporte para o protagonismo de que necessita e dispensa-o da humildade de achar que tem coisas a aprender. Os únicos conhecimentos que lhe interessam são os de Defesa contra as Artes Ocultas, porque Potter precisa de derrotar Voldemort, como vingança pela morte dos pais. Aliás, a vingança torna-se, desde muito cedo, a razão de ser da sua vida.

Os temas da vingança e da morte são uma constante dos livros. E a morte, onipresente até à exaustão numa obra que se quer para jovens, é tratada com leviandade. No contexto da obra, é considerado normal que haja adolescentes que têm de morrer. Uma cadeira chamada Arte de Adivinhação do Futuro faz, entre outras coisas, isso mesmo: prevê mortes de alunos. Nos livros, tudo se passa como se fosse normal viver a vida rodeado de morte. Quando, em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, aparecem na escola umas personagens chamadas Dementores, que são seres que sugam a alma das pessoas, somos supostos achar que estes riscos fazem parte do quotidiano invejável dos alunos de um estabelecimento de ensino de elite.

Tal como faz parte de Hogwarts a presença de um professor que se revela ser um lobisomem e que, por pouco, não mata alunos; o aparecimento de Devoradores da Morte, emissários de Voldemort, que assassina barbaramente um aluno no final do quarto volume (Harry Potter e o Cálice de Fogo); ou a visita de Neville Longbottom ao manicômio onde estão internados os seus pais, vítimas também eles dos sicários de Lord Voldemort (ver Harry Potter e a Ordem da Fénix). Nestas visitas, Longbottom é sempre acompanhado pela avó, que faz questão que o neto saiba que os pais são uns heróis, porque foram submetidos a tortura e não revelaram os nomes dos inimigos de Voldemort. Assim, o requinte macabro de uns é igualado pela indiferença macabra de outros, já que a avó de Neville prefere ignorar o sofrimento do neto a abdicar do orgulho familiar.

E isto sem falar da forma como Voldemort vai ganhando “vida” ao longo da obra: depois de a sua tentativa de assassinato de Potter ter falhado, e de ter ficado reduzido a um estado virtual, o Senhor do Mal vai parasitando mentes e corpos alheios, incluindo a absorção do sangue de Harry, até ganhar uma forma que lhe permita aguentar o confronto final.

Estas realidades sombrias, apesar de camufladas pela brincadeira e pelo humor (rebuçados de ranho, fantasmas sem cabeça a vaguear pelo castelo, jornalistas metediças, rivalidade entre animais de estimação, paixonetas desencontradas entre alunos) não se tornam menos sombrias. Brinca-se com a integridade física e psíquica, porque se parte do princípio de que o corpo e a mente têm pouco valor e de pouco nos servem num mundo em que reinam poções e varinhas mágicas.

Os protagonistas recorrem às varinhas e às poções sempre que precisam de algo, seja um simples gesto quotidiano como vestir-se, deslocar-se ou comer. Mas também as usam para desarmar os adversários, ler-lhes os pensamentos, estropiá-los, matá-los. O uso da varinha, com tudo o que esse gesto implica de mecanicidade, significa que os esforços, por simples que sejam, são indignos de seres especiais. Aqui, a raiva descarrega-se sobre o(s) outro(s), como nos videojogos, com um simples toque de mãos.

Ao longo de toda a saga, não existe um único momento de introspecção por parte das personagens. Os feiticeiros parecem estar dispensados de pensar e de refletir. Apenas devem agir. As personagens crescem física e cronologicamente, mas não há evolução interior em nenhuma delas. O guião do que será a sua vida futura já está escrito e tudo o que têm a fazer é decorar o papel. A sua vida está organizada em função de um combate que terão de vencer, seja a que preço for. No final de Harry Potter e a Ordem da Fénix, a figura tutelar de Sirius Black, o padrinho de Potter, é morta, e o protagonista dá-se conta de que a vida só lhe reserva uma opção: ou mata Voldemort ou é morto por ele. A impossibilidade de escapar ao Mal anula qualquer pensamento e reflexão. Como todos lutam pela sobrevivência, e não há como escapar ao destino, os dados estão lançados. Em Hogwarts, não se aprende que “destino” é o que acontece quando não transformamos os conteúdos inconscientes da nossa psique em consciência.

Nos dois últimos volumes da saga, Harry Potter e o Príncipe Misterioso e Harry Potter e os Talismãs da Morte, assistimos a um crescendo de violência, explícita e implícita. Harry empreende uma viagem com Dumbledore, o Diretor de Hogwarts, para o ajudar na tarefa de destruir a alma de Voldemort, que se encontra espalhada por diversos objetos. Contudo, ao tentar destruir a alma de Voldemort, Dumbledore acaba por ser destruído por ela, e vê-se obrigado a pedir a um colega, Severus Snape, que ponha termo ao seu sofrimento e o mate.

Só resta Harry para, com a ajuda dos Talismãs da Morte (a Pedra da Ressurreição, que ressuscita os mortos, a Varinha de Sabugueiro, que é invencível, e o Manto da Invisibilidade, que é infalível), derrotar definitivamente Voldemort. Mas este antecipa-se e, num dos derradeiros combates, mata Harry, ao lançar-lhe a Maldição da Morte. Contudo, Harry não morre realmente, porque ele é um dos objetos que contêm a alma de Voldemort. Ao tentar matar Potter em bebê, o Senhor do Mal transferiu para a criança uma parte de si. Como essa parte deixou de existir mal Voldemort a matou, Harry pode, apesar de morto, regressar à vida, e acabar de vez com o seu arqui-inimigo. A obra termina com os filhos dos protagonistas a ingressarem, por sua vez, em Hogwarts, onde irão, provavelmente, seguir as pisadas dos seus pais e mães.

O que ganham os nossos jovens com a leitura disto tudo?

Uma coisa é certa: sempre que, na nossa vida, o mundo da sombra usurpa o lugar da luz, todos perdemos. Fonte

Nenhum comentário:

Postar um comentário