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20/03/2013

O bom agricultor, ou o ciclo da educação

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A educação não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra de vida.
Há agricultores ditos modernos ou científicos que se gabam de obter uma boa colheita, quaisquer que sejam as condições do solo, do clima, da luz ou do esterco. Mas que abundância de enxofre e arseniatos, de inseticidas e caldas! Se isso não é suficiente, escondem-se os cachos de uvas em saquinhos protetores e colhe-se a pera ainda verde, para guardá-la sobre uma camada de algodão onde amadurecerá à vontade.
O fruto está salvo, e tem bom valor de mercado. Mas está tão impregnado de tóxicos, que se torna veneno para quem o consome. E a árvore que o deu, esgotada e ferida antes do tempo, seca antes mesmo de ter ousado lançar para o céu os seus braços audaciosos.
É já na semente, ou no broto, que o jardineiro prudente cuida e prepara o fruto que virá. Se esse fruto é doente, é porque a própria árvore que o gerou estava enferma e degenerada. Não é do fruto que se deve tratar, mas da vida que o produziu. O fruto será o que fizerem dele o solo, a raiz, o ar e a folha. Deles é que deveremos cuidar, se quisermos enriquecer e garantir a colheita.
Se um dia os homens souberem raciocinar sobre a formação dos seus filhos como o bom agricultor raciocina sobre a riqueza do seu pomar, deixarão de seguir os eruditos que, nos seus antros, produzem frutos envenenados que matam ao mesmo tempo quem os produziu e quem os come. Restabelecerão valorosamente o verdadeiro ciclo da educação: escolha da semente, cuidado especial do meio em que o indivíduo mergulhará para sempre as suas raízes poderosas, assimilação, pelo arbusto, da riqueza desse meio.
A cultura humana será, então, a flor esplêndida, promessa segura do fruto generoso que amadurecerá amanhã. 
PEDAGOGIA DO BOM SENSO - Célestin Freinet

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