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09/03/2013

LEITURA LITERÁRIA NA ESCOLA

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É animador ver que a leitura literária está passando a ocupar espaços cada vez mais ampliados nos meios de comunicação e em fóruns da sociedade.
Num dos seus trabalhos, ao tratar do que chamou de “Algumas confusões sobre a leitura literária”, Colomer (2007) ajuda-nos a refletir sobre o desafio que subjaz às iniciativas de dezenas de educadores, (...) de construírem o lugar da leitura literária na escola pública (...). A autora assim se expressa:
[...] quando a sociedade se queixa de que os meninos e as meninas não leem, parece que se lamenta de não os ver sentados com uma obra literária nas mãos, mas o que se teme é que não dominem a língua escrita, de maneira que não tenham êxito na escola e comprometam com isso sua ascensão social. Pensa-se, pois, na função utilitária da leitura própria das sociedades alfabetizadas, um objetivo que inclui aspectos tão distintos como o uso cotidiano do escrito ou o acesso à informação e ao conhecimento ( p. 34).
Embora o compromisso da Rede seja com a democratização do acesso à cultura escrita, por meio de obras literárias, a partir de uma perspectiva teórico-metodológica que atenua o valor utilitário do ato de ler, não podemos desconsiderar a contribuição do trabalho das bibliotecas escolares e da mediação de leitura para o processo de alfabetização. A experiência com as escolas tem mostrado que ouvir o texto ou construí-lo através da leitura de imagens mobiliza as crianças para a descoberta do código e o consequente desenvolvimento das competências leitoras e escritoras. São recorrentes depoimentos delas na seguinte linha:
“Descobri que pelos livros posso conhecer muitas histórias e isso me fez ter vontade de aprender a ler do jeito da professora aqui da sala de leitura” (Pedro Henrique, 8 anos, aluno da Escola Estadual Hegésippo Reis – Mar./2011).
Bajard (2010, p. 22-23) chama a atenção para a diferença linguística de recepção entre o texto impresso e o sonoro: “o primeiro exige a longa aprendizagem da alfabetização, enquanto o segundo é entendido mesmo pelo analfabeto, se a língua do texto corresponde à sua cultura.” A tradição oral, o peso da língua falada, o ouvir o texto lido por outra pessoa não têm importância menor, antes pelo contrário. Manguel (1997, p. 132) conta o quanto era prazeroso a escuta do texto lido pela sua babá: “eu simplesmente gozava a sensação voluptuosa de ser levado pelas palavras”, provavelmente a mesma sensação que sentiam os operários – quase todos analfabetos – das fábricas de charutos de Cuba, durante as sessões de “leitura pública”, realizadas no século XIX. Os enroladores de charutos ouviam narrativas enquanto trabalhavam. O autor ressalta, ainda, diferentes situações, desde séculos atrás, em que se recorria à estratégia de uma pessoa ler para outra ou para grupos.
Nas escolas, tanto a contação de histórias quanto a leitura de livros em voz alta têm as suas importâncias, mas predominam quando persistem as fragilidades na condução do processo de alfabetização e/ou se adota um tipo de pedagogia de baixo investimento na autonomia e, portanto, centrada na reprodução de informações, histórias e textos escritos por meio da fala de quem domina o código, o professor.
Ao se evocar a relevância das escolas conceberem os seus projetos de promoção da leitura literária, há uma clara intenção de possibilitar o acesso, desde a mais tenra idade, à literatura, seja antes, durante ou depois da alfabetização.
Inicialmente por meio do contato com professores leitores que fazem da prosódia recurso de encantamento para a escuta de histórias contadas nos livros; acesso ao acervo cuidadosamente montado e a um ambiente mediador de leitura – a biblioteca escolar ou sala de leitura – pensado em detalhes.
Vimos que o aluno Pedro Henrique falou dos efeitos de um projeto de leitura, a partir da sua experiência pessoal, do movimento cognitivo para sair do lugar de quem ouvia o texto lido pela professora da sala de leitura para alguém capaz de conhecer, por si só, o texto desconhecido (BAJARD, 2010, p. 25), inaugurando o processo de alfabetização e letramento, pela consciência do papel social da leitura e da escrita.
Durante uma roda de conversa com quatro crianças de uma Escola Estadual, buscamos conhecer os reflexos dos dois anos do projeto de leitura da instituição. Essas crianças foram escolhidas por residirem próximo à Escola – era período de férias, no mês de fevereiro de 2009 – e serem assíduas às atividades da sala de leitura, desde 2007. Elas concordaram e a conversa foi gravada em vídeo. Bastou uma questão inicial para desencadear toda conversa.
Perguntamos: É possível vocês expressarem como se sentem ao ler um livro? As falas das crianças foram de uma riqueza ímpar, ensinamentos que nos fizeram progredir na direção do que parecia funcionar. “Quando estou lendo eu me sinto como se tivesse viajando dentro do livro. A gente pensa várias coisas através da leitura [...]. A gente inventa. Às vezes a gente fala pra professora o que inventou através do livro”, confirma Ana Beatriz Leite dos Anjos, 11 anos, a assertiva de que o ato de ler é atividade de sujeitos pensantes, por ser o leitor quem confere vida ao texto, com ele dialogando. Ela completa: “Assim, por exemplo: um livro que fala sobre a mentira, aí a gente inventa assim: que o menino viu o arco-íris e viu o pote de ouro. Então a gente já inventa que existe o pote de ouro, através do livro e vai inventando várias coisas.
Samuel Augusto da Silva, 9 anos, falou da vinculação afetiva entre leitor e livro: “Quando ainda estou no primeiro capítulo, eu já vou me sentindo bem com o livro. Quando a pessoa gosta do livro aí fica parecendo que é irmã do livro, porque a gente gosta do livro”, o que nos faz lembrar Clarice Lispector, em “Felicidade Clandestina”. Por outro lado, na sala de aula não é sempre que se escolhe um livro, Ana Beatriz, destaca: “Eu gosto de ler, mas de ler um livro, quando eu quero. [...] Às vezes a professora pede pra a gente ler um texto ou até um livro, mas a gente não gosta, não se sente bem lendo, mas a gente tem que ler para a classe ouvir a leitura.” Não é fácil gerir, na sala de aula, a dimensão da leitura didática, aquela que converge sempre para uma única conclusão, ou seja, uma resposta e a da leitura literária, aquela que deixa aberturas para o leitor concordar, discordar, reinventar o texto do autor. Vejamos o que ensina Ana Beatriz:
"Às vezes a professora pede pra ler um livro e às vezes a gente escolhe o livro que a gente quer e a gente gosta de ler. Quando a professora pede para ler um livro, eu me comporto como uma aluna e quando eu leio porque eu quero, eu me comporto como eu mesma. O meu comportamento como aluna é estudando, lendo os livros das matérias e sendo eu mesma é lendo os livros de qualquer tipo que for, tamanho, qualidade, de qualquer tipo".
A sala de aula, por natureza, sempre evocará, em maior ou menor grau, a postura de aluno (a) diante de um currículo acadêmico. Decorre dessa realidade a relevância de a escola ter o seu projeto de leitura, de formação de leitores que contemple o acesso ao texto literário
INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO (IDE)
Coordenação: Cláudia Santa Rosa

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