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09/03/2013

Contardo Caligaris

Este psicanalista rodou meio mundo antes de se apaixonar pelo Brasil
Doutor Calligaris não é um intelectual de gabinete. Nascido em Milão, em 1948, este psicanalista de 54 anos rodou meio mundo antes de aterrissar — e se apaixonar — pelo Brasil. Viajante inveterado, Contardo Calligaris transita com igual desenvoltura pelas ideias, que expõe em comentados artigos na Folha de S.Paulo. Também é autor dos livros Hello Brasil! (Escuta, 1992) e Crônicas do Individualismo Cotidiano (Ática, 1996). O comportamento humano, as relações homem /mulher, a guerra no Oriente Médio e a cândida violência brasileira são temas que ele visita com o mesmo interesse com que morou em Londres, Genebra, Paris, Nova York e São Paulo. Nas duas últimas, fixou residência.
CRIANÇAS 
O Brasil me aparece como o paraíso das crianças. 
Estranha-me o sorriso do garçom de um restaurante luxuoso tragicamente atrapalhado no serviço por uma turma de meninos correndo entre as mesas. E também que nenhum cliente pareça se incomodar com o barulho do qual não dava para suspeitar que estivesse incluído no preço. 
Surpreende-me, durante uma festa em casa, a chegada de mais um casal convidado, com crianças pequenas implicitamente não convidadas. Aqui é uma graça. Na Europa, salvo laços de amizade férreos, seria uma imperdoável grosseria. 
Num hotel cinco estrelas é exigido que exista uma sala de jogos eletrônicos para as crianças e que sejam previstas atividades infantis. Assusta-me a insistência - pedagogicamente justificada com um requinte de rousseauísmo - sobre a necessidade do lúdico na aprendizagem. Em algumas das melhores escolas privadas decorar é considerado tortura. Assombra-me a importância que assume o programa das crianças na vida cotidiana: os pedidos alimentares de pratos e bebidas especiais, as saídas, as vindas dos amigos ... O adulto brasileiro parece constantemente preocupado com o prazer das suas crianças. 
Brevemente: a criança é rei. 
Curioso, tanto mais num país cuja reputação no estrangeiro está comprometida com legiões de crianças abandonadas na rua. 
(...)
Explico-me: foi-me contado que na infância de meu pai, as crianças, quando excepcionalmente tomassem as suas refeições na mesa com os adultos, precisavam ficar em pé, não lhes sendo permitido sentar. Pouco importa que esta história seja verdadeira ou falsa, de fato presumo hoje que já fosse, para o meu próprio pai, uma lenda do seu pai criança. Pouco importa também que ela possa parecer a testemunha de um costume bárbaro. Pouco importa, pois, separando a criança do adulto, esta lenda e outras similares constituem a mitologia possível de uma ordem de filiação necessária para a criança. Por exemplo, o que mais pesou na minha infância, ou seja, a subordinação de qualquer aspiração minha à paixão incondicional do meu pai para as obras de arte (subordinação que transformou os domingos e as férias da minha infância em passeatas artísticas e culturais quando sonhava com piscinas, Beatles, beisebol e quadrinhos), tudo isso não acredito que tenha sido trauma nenhum. Poderia alegar que devo a um tal aparente abuso de autoridade paterna o meu gosto ela arte. Mas, bem além disso, acredito que o efeito e um tal aparente abuso seja a sólida inserção num registro de filiação. O importante não é tanto poder não nadar, escutar música e jogar beisebol, o importante é dispor de um lugar a partir do qual poder pelo menos querer nadar etc., quer se possa ou não. De fato, parece que o preço de um tal lugar - necessário à vida - seja justamente uma interdição. O que me é proibido, os limites que me são impostos - como criança é justamente o que me outorga e me permite reconhecer o meu lugar, o lugar de filho.
(...)
Tudo isso para defender a ideia segundo a qual o que há de necessariamente reacionário numa educação é mesmo o que permite que ela tenha o seu efeito essencial: constituir uma filiação simbólica.
(...)
Para ver texto na íntegra:

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