Licensa

30/03/2013

Combatendo a Baixa Auto-Estima

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O QUE É AUTO-ESTIMA?
AUTO significa uma forma da pessoa se referir a si própria.

ESTIMA é o sentimento do bem querer, do respeito, da admiração, da alegria em sentir, em valorizar com dignidade, com afeto e com compaixão.

AUTO-ESTIMA portanto, é quando alguém se vê como uma pessoa digna de ser amada, respeitada e valorizada, antes e acima de tudo, por si própria.

BAIXA AUTO-ESTIMA é quando este sentimento está abalado, destruído, impotente ou mesmo falido. 
É quando você acha que todos são melhores do que você e que sua vida não vale mais a pena. Todos são mais felizes, mais bem sucedidos, mais capazes. No popular, é quando você está se sentindo por baixo. O que fazer?
Primeiro: pare de se comparar com os outros. Nenhuma impressão digital é igual a outra. Você também é única. 
Segundo: desligue os programas da mídia que mostram para você homens e mulheres moldados para consumo. Você não é um carro que precisa mudar de modelo todos os anos para ser consumido. Você é um ser humano dotado de corpo, alma e espírito. Faça isso valer sobre os que querem transformar você em uma marionete.
Terceiro: procure se relacionar com pessoas que aceitam você exatamente como você é. Não minta para você mesma, não represente o que não é, não tente agradar os outros. Seja autêntica e realista. Só a verdade liberta.

Sair da Zona de Conforto


Enquanto continuar acreditando que as coisas devem ser feitas sempre da mesma maneira, possivelmente tudo continuará tendo o mesmo resultado.
É preciso estar em constante aprendizado, sair da zona de conforto, aberto a mudanças, seja sobre o que for.
Devemos acompanhar esse processo se desejarmos evoluir, crescer; do contrário, encontraremos estagnação, e muitas vezes sofrimento. Fonte

24/03/2013

Sobre Harry Potter

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Agora que chegou ao fim a saga de Harry Potter, talvez valha a pena refletir sobre alguns dos aspectos da obra.

Quando a saga começa, com o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, encontramos o protagonista a viver em casa dos tios, que o criaram desde criança, e que têm um filho de idade semelhante à dele. Nesta casa, que deveria ser para ele um lar, Harry é obrigado a dormir num armário debaixo das escadas e enfrenta a hostilidade constante dos familiares. A hostilidade explica-se pelo facto de Harry ter nascido feiticeiro, e de ser filho de um casal de feiticeiros (a mãe dele era irmã da tia). Ficamos a saber, mais tarde, que o casal foi morto pelo maior feiticeiro de sempre, Lord Voldemort, enquanto tentavam salvar o filho, ainda bebê. Harry sobreviveu ao ataque, que lhe deixou uma cicatriz na testa, e que quase matou Voldemort, e isso transforma-o numa lenda viva do mundo da feitiçaria.

Contudo, Harry ignora tudo isto até fazer 11 anos, data em que é chamado a inscrever-se na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts, que fica situada num castelo, num mundo paralelo ao mundo dos humanos. Toda a obra parte do princípio de que ser feiticeiro é sempre melhor do que ser humano. Aliás, os humanos, apelidados de Muggles (um termo pejorativo que poderia ser traduzido por Trouxas), invejam sistematicamente os feiticeiros e são-lhes, obviamente, inferiores. Todos aqueles anos de degredo para Harry parecem, assim, ter sido recompensados.

Em Hogwarts, o leitor cedo descobre que a competitividade é o valor supremo, e que tudo o que os alunos fazem, de bom e/ou de mau, é registado em termos de pontuação. No final do ano letivo, a Casa vencedora é a que tiver obtido a maior pontuação. Escusado será dizer que a Casa de Harry Potter (Gryffingdor), que valoriza a bravura e a ousadia, sai sempre vencedora em relação à sua principal rival, Slythering, cujos atributos são a ambição e a astúcia. As outras duas Casas, Ravenclaw e Hufflepuff, apenas existem como pano de fundo. E, contudo, os atributos que elas enaltecem seriam muito mais adequados a uma escola. Ravenclaw valoriza a inteligência e o conhecimento, enquanto Hufflepuff louva o trabalho árduo, a paciência, a lealdade e o jogo limpo.

Num mundo em que o ideal do Guerreiro é sempre visto como superior ao ideal do Cuidador, faz sentido conceber Gryffingdor e Slythering como superiores. Veja-se o estado em que o mundo está…

Assim, em Hogwarts, a inteligência, a bondade e a conquista da excelência à custa do próprio esforço de pouco ou nada valem. A própria vontade de estudar é ridicularizada (veja-se a chacota de que é alvo Hermione Granger, que leva a sério os TPCs que os professores marcam), e as aventuras e os feitos espetaculares é que têm valor. O que importa é derrotar o adversário, num mundo em que todos são adversários, ou apenas aliados contra adversários.

No mundo de Harry Potter, ninguém pensa construir a vida com base nos seus próprios méritos, porque todos são predestinados. Sejam predestinados “bons” ou predestinados “maus”, já nasceram assim e nada do que possam fazer alterará a sua condição. Os predestinados podem até dar-se ao luxo de quebrar regras, o que Harry e o seu melhor amigo, Ron Weasley, fazem constantemente, para desespero dos professores e para gáudio dos próprios, já que as regras não se aplicam a eles, e muito menos a Potter, o mais jovem jogador de Quidditch da Escola desde há um século.

Este jogo bruto e violento, em que pernas e braços partidos são as consequências mais brandas dos encontros, é a única “cadeira” em que Harry se destaca, já que em tudo o resto é um aluno medíocre. Harry não estuda, nem quer saber de estudar: a sua cicatriz dá-lhe o passaporte para o protagonismo de que necessita e dispensa-o da humildade de achar que tem coisas a aprender. Os únicos conhecimentos que lhe interessam são os de Defesa contra as Artes Ocultas, porque Potter precisa de derrotar Voldemort, como vingança pela morte dos pais. Aliás, a vingança torna-se, desde muito cedo, a razão de ser da sua vida.

Os temas da vingança e da morte são uma constante dos livros. E a morte, onipresente até à exaustão numa obra que se quer para jovens, é tratada com leviandade. No contexto da obra, é considerado normal que haja adolescentes que têm de morrer. Uma cadeira chamada Arte de Adivinhação do Futuro faz, entre outras coisas, isso mesmo: prevê mortes de alunos. Nos livros, tudo se passa como se fosse normal viver a vida rodeado de morte. Quando, em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, aparecem na escola umas personagens chamadas Dementores, que são seres que sugam a alma das pessoas, somos supostos achar que estes riscos fazem parte do quotidiano invejável dos alunos de um estabelecimento de ensino de elite.

Tal como faz parte de Hogwarts a presença de um professor que se revela ser um lobisomem e que, por pouco, não mata alunos; o aparecimento de Devoradores da Morte, emissários de Voldemort, que assassina barbaramente um aluno no final do quarto volume (Harry Potter e o Cálice de Fogo); ou a visita de Neville Longbottom ao manicômio onde estão internados os seus pais, vítimas também eles dos sicários de Lord Voldemort (ver Harry Potter e a Ordem da Fénix). Nestas visitas, Longbottom é sempre acompanhado pela avó, que faz questão que o neto saiba que os pais são uns heróis, porque foram submetidos a tortura e não revelaram os nomes dos inimigos de Voldemort. Assim, o requinte macabro de uns é igualado pela indiferença macabra de outros, já que a avó de Neville prefere ignorar o sofrimento do neto a abdicar do orgulho familiar.

E isto sem falar da forma como Voldemort vai ganhando “vida” ao longo da obra: depois de a sua tentativa de assassinato de Potter ter falhado, e de ter ficado reduzido a um estado virtual, o Senhor do Mal vai parasitando mentes e corpos alheios, incluindo a absorção do sangue de Harry, até ganhar uma forma que lhe permita aguentar o confronto final.

Estas realidades sombrias, apesar de camufladas pela brincadeira e pelo humor (rebuçados de ranho, fantasmas sem cabeça a vaguear pelo castelo, jornalistas metediças, rivalidade entre animais de estimação, paixonetas desencontradas entre alunos) não se tornam menos sombrias. Brinca-se com a integridade física e psíquica, porque se parte do princípio de que o corpo e a mente têm pouco valor e de pouco nos servem num mundo em que reinam poções e varinhas mágicas.

Os protagonistas recorrem às varinhas e às poções sempre que precisam de algo, seja um simples gesto quotidiano como vestir-se, deslocar-se ou comer. Mas também as usam para desarmar os adversários, ler-lhes os pensamentos, estropiá-los, matá-los. O uso da varinha, com tudo o que esse gesto implica de mecanicidade, significa que os esforços, por simples que sejam, são indignos de seres especiais. Aqui, a raiva descarrega-se sobre o(s) outro(s), como nos videojogos, com um simples toque de mãos.

Ao longo de toda a saga, não existe um único momento de introspecção por parte das personagens. Os feiticeiros parecem estar dispensados de pensar e de refletir. Apenas devem agir. As personagens crescem física e cronologicamente, mas não há evolução interior em nenhuma delas. O guião do que será a sua vida futura já está escrito e tudo o que têm a fazer é decorar o papel. A sua vida está organizada em função de um combate que terão de vencer, seja a que preço for. No final de Harry Potter e a Ordem da Fénix, a figura tutelar de Sirius Black, o padrinho de Potter, é morta, e o protagonista dá-se conta de que a vida só lhe reserva uma opção: ou mata Voldemort ou é morto por ele. A impossibilidade de escapar ao Mal anula qualquer pensamento e reflexão. Como todos lutam pela sobrevivência, e não há como escapar ao destino, os dados estão lançados. Em Hogwarts, não se aprende que “destino” é o que acontece quando não transformamos os conteúdos inconscientes da nossa psique em consciência.

Nos dois últimos volumes da saga, Harry Potter e o Príncipe Misterioso e Harry Potter e os Talismãs da Morte, assistimos a um crescendo de violência, explícita e implícita. Harry empreende uma viagem com Dumbledore, o Diretor de Hogwarts, para o ajudar na tarefa de destruir a alma de Voldemort, que se encontra espalhada por diversos objetos. Contudo, ao tentar destruir a alma de Voldemort, Dumbledore acaba por ser destruído por ela, e vê-se obrigado a pedir a um colega, Severus Snape, que ponha termo ao seu sofrimento e o mate.

Só resta Harry para, com a ajuda dos Talismãs da Morte (a Pedra da Ressurreição, que ressuscita os mortos, a Varinha de Sabugueiro, que é invencível, e o Manto da Invisibilidade, que é infalível), derrotar definitivamente Voldemort. Mas este antecipa-se e, num dos derradeiros combates, mata Harry, ao lançar-lhe a Maldição da Morte. Contudo, Harry não morre realmente, porque ele é um dos objetos que contêm a alma de Voldemort. Ao tentar matar Potter em bebê, o Senhor do Mal transferiu para a criança uma parte de si. Como essa parte deixou de existir mal Voldemort a matou, Harry pode, apesar de morto, regressar à vida, e acabar de vez com o seu arqui-inimigo. A obra termina com os filhos dos protagonistas a ingressarem, por sua vez, em Hogwarts, onde irão, provavelmente, seguir as pisadas dos seus pais e mães.

O que ganham os nossos jovens com a leitura disto tudo?

Uma coisa é certa: sempre que, na nossa vida, o mundo da sombra usurpa o lugar da luz, todos perdemos. Fonte

O pássaro e a guerra – fábula do Zaire

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Nesta fábula dos Legas (do Zaire), um pássaro explica-nos como são absurdas as guerras dos homens. Fonte

Ai se os homens lhe dessem ouvidos…

Kansisi é um pássaro branco com as asas negras e faz o ninho nos bananais em redor das aldeias. Testemunha da vida quotidiana das pessoas, sabe muita coisa sobre o comportamento dos homens.

Por isso, um dia, o seu amigo Monkonia, pássaro que frequenta pouco estes sítios, veio colocar-lhe um problema que há muito o apoquentava:

Porque é que os homens fazem a guerra?

Kansisi deu uma gargalhada. Mas o amigo voltou a insistir:

Os homens dizem que são inteligentes e racionais; como é que não conseguem, então, estar de acordo? Não há ninguém que cometa tantas asneiras como eles.

— Por diversos motivos — respondeu Kansisi. — A avidez, a inveja, a vingança levam-nos a pegar em armas uns contra os outros. Guerreiam-se até por coisas banais, sem pensar nas consequências. Anda comigo, que eu mostro-te um exemplo concreto.

Voaram juntos até à aldeia vizinha. Monkonia pousou numa folha de bananeira, de onde podia observar tudo o que acontecia.

Era meio-dia, e o sol queimava. A aldeia estava deserta, parecia adormecida. Só uma criança pequena brincava no meio do pó, junto de alguns potes de barro ainda frescos, a secar ao sol antes de serem cozidos no forno.

Kansisi pousou num desses potes. A criança viu-o e correu para o espantar com um pau. O pássaro voou para mais longe e a criança acabou por bater no pote, que rolou no chão, com uma pequena mossa. Ao ouvir o barulho, a dona dos potes saiu cá para fora e deu duas valentes chapadas na criança. Ouvindo a criança a chorar, a mãe agarrou num ramo de árvore e deu com ele na mulher, que gritou por socorro. O marido dela saiu de casa com uma faca, e a mãe da criança fugiu chamando pelo marido. Ouvindo esta barulheira toda, mais homens e mulheres saíram de casa gritando e brandindo bastões, sachos e facas. Voavam insultos e ameaças de todos os lados. Dez minutos mais tarde, a aldeia estava em pé de guerra: o clã da dona dos potes contra o clã da outra mulher. Ninguém fazia ideia do motivo que causara esta situação e nem queria saber nem pensar nas consequências do conflito. A briga durou o tempo suficiente para provocar danos irreparáveis; houve mesmo mortos e feridos.

Entretanto, Kansisi, regressando para junto do amigo, contemplava com satisfação o desenvolvimento da peleja.

— Aí tens! — disse ao amigo. — É assim que nascem as guerras entre os homens. A conclusão podes tirá-la tu mesmo!

Ela está bem expressa em dois provérbios dos Lega:

O pássaro Kansisi provoca a guerra, mas fica em paz pousado na sua folha.

O estulto entra na rixa sem medir as causas nem os efeitos.

Além-Mar
Abril 2004

Resenha do filme como estrelas na terra


O filme mostra uma lição de vida

TODA CRIANÇA É ESPECIAL

O filme conta a história de um menino e 9 anos chamado Ishaan Awasthi, ele sofre de dislexia, estuda em uma escola normal e repetiu uma vez o terceiro período e está correndo o risco de isso acontecer de novo. O menino diz que as letras dançam em sua frente e não consegue acompanhar as aulas e nem prestar atenção. Seu pai acredita que ele é indisciplinado e o trata com rudez e falta de sensibilidade. 



Quando o pai é chamado na escola para conversar com a diretora, o mesmo decide levar o filho a um internato. O menino fica com menos vontade de aprender e de ser uma criança, ele acaba ficando deprimido, sente a falta da mãe, do irmão mais velho e da vida. A filosofia do internato é "Disciplinar Cavalos Selvagens". De repente aparece um professor substituto de artes, este não era um professor tradicional, não seguia rigorosamente as normas da escola, tem uma metodologia própria


Quando o professor conhece Ishaan, percebe que o menino sofre de dislexia e decide ajudá-lo. Este não era um problema desconhecido pelo educador que decide tirar o garoto do abismo no qual se encontrava . Ele ensinou Ishaan a ler e escrever, a partir desse momento o menino vai superando a opressão da família e suas próprias limitações, passa a ver a dentro da escola, um novo significado. O filme mostra a importância do professor e seu poder de transformação nos alunos. É necessário que o educador tenha sua própria metodologia de ensino, de forma a estimular a compreensão dos alunos, tornando a sala de aula, um lugar agradável e estimulante. 

Na escola onde Ishaan estudava, os professores só corrigiam os erros gramaticais dele e não percebiam que ele era uma criança especial, que precisava ser compreendida, e junto com seu professor pudesse ampliar seus conhecimentos, desenvolvendo a habilidade de leitura e escrita. No filme "Como Estrelas Na Terra" o professor substituto usa uma metodologia de ensino inovadora, onde existe a motivação, usa o conhecimento de mundo dos alunos, buscando aprofundar e ampliá-los. O educador consegue mobilizar a escola a respeito da diversidade que existe na sala de aula, mostrando que é possível fazer com que o aluno desenvolva sua capacidade de aprendizagem a partir da compreensão e do incentivo do educador

O filme mostra uma lição de vida. Um garoto que foi tratado com respeito por um professor, que soube valorizar e entender as diferenças, usa como forma de expressão a arte, incentivando-o e mostrando-o que seu problema pode ser superado e que sua deficiência não o tornava diferente dos outros. A dislexia é uma doença que está longe de ser solucionada, e o que salvou o garoto não foi a descoberta da doença, mas sim, os novos métodos utilizados pelo educador, fazendo com que o menino aprendesse a lidar com sua diferença. Este filme retrata a realidade na qual vivemos, os alunos com diversas deficiências são colocados em escolas normais e infelizmente as escolas regulares e os professores não estão preparados para essa mudança. 

Torna-se necessário que os futuros educadores saibam lidar com esses problemas no contexto escolar, para poder encontrar meios e soluções para trabalhar com essa e as demais deficiências. Fonte


21/03/2013

O mestre e o aprendiz

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Durante todo o verão, o rebanho de ovelhas ficara na montanha, confiado à guarda do pastor, que de modo algum parecia sobrecarregado com a responsabilidade dos seus mil animais.
Por Saint-Michel, voltavam para a aldeia. Cada um de nós "apartava" o seu pequeno rebanho, e trinta jovens pastores partiam, em seguida, através dos campos de restolho, ainda ricos em erva verdejante, para passarem pela aprendizagem de condutores de carneiros.
Tinham-nos ensinado as leis e as regras que aplicávamos ao pé da letra, como o guarda executa as ordens na estrada.
— Cuidado para as ovelhas não escaparem e estragarem os feijões!
Não deixem os cordeiros afastarem-se do rebanho, senão vocês poderão perdê-los!
— Cuidado com as moitas cheias de cobras e com a luzerna que incha os animais!
Não levem os animais para o lado das rochas, pois eles poderiam ficar entalados!
Outras tantas preocupações obsessivas que não nos deixavam em paz, e nem aos nossos animaispor aqui!... por ali!... Um pouco mais e teríamos cercado ovelhas e carneiros para não os perder de vista, preferindo trazer-lhes capim e galhos... se eles aceitassem.
Trabalho de aprendiz que ainda não compreendeu nada do caráter e do comportamento dos seus animais.
Quanto ao pastor, partia calmamente atrás do seu rebanho. Uma palavra, um grito, lançados oportunamente, e os animais seguiam na direção que o pastor sabia de antemão aonde ia dar. Vão passar lá embaixo!... Daqui a pouco vamos encontrá-los acima das barreiras. Esta noite descerão pelas encostas!...
O pastor dormia, o cão dormia; os animais comiam até se fartar, livremente. Trabalho de mestre que conduz o seu rebanho com uma ciência e uma filosofia cujas linhas eficientes deveríamos procurar, para darmos à nossa pedagogia a quietude e a humanidade próprias das obras conscientes.
PEDAGOGIA DO BOM SENSO - Célestin Freinet

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa

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Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa,
Substitui o calor.
P'ra ser feliz tanta coisa é precisa.
Este luzir é melhor.
O que é a vida? O espaço é alguém pra mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.
Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.
Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.
Que, se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se for, seria
O tédio de o haver... E a chuva cresce
Na noite agora fria.

20/03/2013

O bom agricultor, ou o ciclo da educação

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A educação não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra de vida.
Há agricultores ditos modernos ou científicos que se gabam de obter uma boa colheita, quaisquer que sejam as condições do solo, do clima, da luz ou do esterco. Mas que abundância de enxofre e arseniatos, de inseticidas e caldas! Se isso não é suficiente, escondem-se os cachos de uvas em saquinhos protetores e colhe-se a pera ainda verde, para guardá-la sobre uma camada de algodão onde amadurecerá à vontade.
O fruto está salvo, e tem bom valor de mercado. Mas está tão impregnado de tóxicos, que se torna veneno para quem o consome. E a árvore que o deu, esgotada e ferida antes do tempo, seca antes mesmo de ter ousado lançar para o céu os seus braços audaciosos.
É já na semente, ou no broto, que o jardineiro prudente cuida e prepara o fruto que virá. Se esse fruto é doente, é porque a própria árvore que o gerou estava enferma e degenerada. Não é do fruto que se deve tratar, mas da vida que o produziu. O fruto será o que fizerem dele o solo, a raiz, o ar e a folha. Deles é que deveremos cuidar, se quisermos enriquecer e garantir a colheita.
Se um dia os homens souberem raciocinar sobre a formação dos seus filhos como o bom agricultor raciocina sobre a riqueza do seu pomar, deixarão de seguir os eruditos que, nos seus antros, produzem frutos envenenados que matam ao mesmo tempo quem os produziu e quem os come. Restabelecerão valorosamente o verdadeiro ciclo da educação: escolha da semente, cuidado especial do meio em que o indivíduo mergulhará para sempre as suas raízes poderosas, assimilação, pelo arbusto, da riqueza desse meio.
A cultura humana será, então, a flor esplêndida, promessa segura do fruto generoso que amadurecerá amanhã. 
PEDAGOGIA DO BOM SENSO - Célestin Freinet

CANÇÃO DE OUTONO

CANÇÃO DE OUTONO

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão, 
se havia gente dormindo 
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles 
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
Cecília Meireles

Os constituintes do campo ético

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Para que haja conduta ética é preciso que exista o agente consciente, isto é, aquele que conhece a diferença entre bem e mal, certo e errado, permitido e proibido, virtude e vício. A consciência moral não só conhece tais diferenças, mas também reconhece-se como capaz de julgar o valor dos atos e das condutas e de agir em conformidade com os valores morais, sendo por isso responsável por suas ações e seus sentimentos e pelas consequências do que faz e sente. Consciência e responsabilidade são condições indispensáveis da vida ética. 
A consciência moral manifesta-se, antes de tudo, na capacidade para deliberar diante de alternativas possíveis, decidindo e escolhendo uma delas antes de lançar-se na ação. Tem a capacidade para avaliar e pesar as motivações pessoais, as exigências feitas pela situação, as consequências para si e para os outros, a conformidade entre meios e fins (empregar meios imorais para alcançar fins morais é impossível), a responsabilidade de respeitar o estabelecido ou de transgredi-lo (se o estabelecido for imoral ou injusto). 
A vontade é esse poder deliberativo e decisório do agente moral. Para que exerça tal poder sobre o sujeito moral, a vontade deve ser livre, isto é, não pode estar submetida à vontade de um outro nem pode estar submetida aos instintos e às paixões, mas, ao contrário, deve ter o poder sobre eles e elas. 
O campo ético é, assim, constituído pelos valores e pelas obrigações que formam o conteúdo das condutas morais, isto é, as virtudes. Estas são realizadas pelo sujeito moral, principal constituinte da existência ética. 
O sujeito ético ou moral, isto é, a pessoa só pode existir se preencher as seguintes condições: 
- ser consciente de si e dos outros, isto é, ser capaz, de reflexão e de reconhecer a existência dos outros como sujeitos éticos iguais a ele; 
- ser dotado de vontade, capacidade para controlar e orientar desejos, impulsos tendências, sentimentos e de capacidade para deliberar e decidir entre várias alternativas possíveis; 
- ser responsável, isto é, reconhecer-se como autor da ação, avaliar os efeitos e consequências dela sobre si e sobre os outros, assumi-la bem como às suas consequências, respondendo por elas; 
- ser livre, isto é, ser capaz de oferecer-se como causa interna de seus sentimentos atitudes e ações, por não estar submetido a poderes externos que forcem e o constranjam a sentir, a querer a fazer alguma coisa. A liberdade não é tanto o poder para escolher entre vários possíveis, mas o poder para autodeterminar-se, dando a si mesmo as regras de conduta. 
O campo ético é, portanto, constituído por dois polos internamente relacionados: o agente ou sujeito moral e os valores morais ou virtudes éticas. 
Do ponto de vista do agente ou sujeito moral, a ética faz uma exigência essencial, qual seja, a diferença entre passividade e atividade. Passivo é aquele que se deixa governar e arrastar por seus impulsos, inclinações e paixões, pelas circunstâncias, pela boa ou má sorte, pela opinião alheia, pelo medo dos outros, pela vontade de um outro, não exercendo sua própria consciência, vontade , liberdade e responsabilidade. 
Ao contrário, é ativo ou virtuoso aquele que controla interiormente seus impulsos, suas inclinações e suas paixões, discute consigo mesmo e com os outros o sentido dos valores e dos fins estabelecidos, indaga se devem e como devem ser respeitados ou transgredidos por outros valores e fins superiores aos existentes, avalia sua capacidade para dar a si mesmo as regras de conduta, consulta sua razão e sua vontade antes de agir, tem consideração pelos outros sem subordinar-se nem submeter-se cegamente a eles, responde pelo que faz, julga suas próprias intenções e recusa a violência contra si e contra os outros. Numa palavra é autônomo. 
Do ponto de vista dos valores, a ética exprime a maneira como a cultura e a sociedade definem para si mesmas o que julgam, ser a violência e o crime, o mal e o vício e, como contrapartida, o que se consideram ser o bem e a virtude. Por realizar-se como relação intersubjetiva e social, a ética não é alheia ou indiferente às condições históricas e políticas, econômicas e culturais da ação moral. 
Consequentemente, embora toda ética seja universal do ponto de vista da sociedade que a institui (universal porque seus valores são obrigatórios para todos os seus membros), está em relação com o tempo e a História, transformando-se para responder as exigências novas da sociedade e da Cultura, pois somos seres históricos e culturais e nossa ação se desenrola no tempo. 
Além do sujeito ou pessoa moral e dos valores ou fins morais, o campo ético é ainda constituído por um outro elemento: os meios para que o sujeito realize os fins. 
Costuma-se dizer que os fins justificam os meios, de modo que para alcançar um fim legítimo, todos os meios disponíveis são válidos. No caso da ética, porém, essa afirmação deixa de ser óbvia. 
Suponhamos uma sociedade que considere um valor e um fim moral a lealdade entre seus membros, baseada na confiança recíproca. Isso significa que a mentira, a inveja, a adulação, a má fé, a crueldade e o medo deverão estar excluídos da vida moral e ações que os empreguem como meios para alcançar o fim serão imorais. 
No entanto, poderia acontecer que para forçar alguém a lealdade seria preciso fazê-lo sentir medo da punição pela deslealdade, ou seria preciso mentir-lhe para que não perdesse a confiança em certas pessoas e continuasse leal a elas. Nesses casos, o fim - a lealdade – não justificaria os meios – medo e mentira? A resposta ética é: não. Por quê? Porque esses meios desrespeitam a consciência e a liberdade da pessoa moral, que agiria por coação externa e não por reconhecimento interior e verdadeiro do fim ético. 
No caso da ética, portanto, nem todos os meios são justificáveis, mas apenas aqueles que estão de acordo com os fins da própria ação. Em outras palavras, fins éticos exigem meios éticos. 
A relação entre meios e fins pressupõe que a pessoa moral não existe como um fato dado, mas é instaurada pela vida intersubjetiva e social, precisando ser educada para os valores morais e para as virtudes. 
Poderíamos indagar se a educação ética não seria uma violência. Em primeiro lugar, porque se tal educação visa a transformar-nos de passivos em ativos, poderíamos perguntar se nossa natureza não seria essencialmente passional e, portanto, forçar-nos à racionalidade ativa não seria um ato de violência contra a nossa natureza espontânea? Em segundo lugar, porque se a tal educação visa a colocar-nos em harmonia e em acordo com os valores de nossa sociedade, poderíamos indagar se isso não nos faria submetidos a um poder externo à nossa consciência, o poder da moral social. Para responder a essas questões precisamos examinar o desenvolvimento das ideias éticas da Filosofia. 
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 1995, p. 337-339.

17/03/2013

A História da Páscoa

Muito singelo o modo como as crianças dramatizam uma história tão triste e importante para todos nós!

Lembra-te que és mortal

Um poder que se serve, em vez de servir, é um poder que não serve. 

Os romanos na Antiguidade tinham um hábito muito importante: todas as vezes que um general, um líder importante, voltava de uma dura batalha com uma retumbante vitória, ele entrava na cidade de Roma e tinha que deixar o exército do lado de fora, num grande campo aberto, que era chamado Campo de Marte – dedicado ao deus da guerra. 
O general subia numa biga*, aquele carro de combate com dois cavalos, conduzida por um escravo. O líder se apoiava na lateral da biga para ser aclamado pelo povo. E atravessava toda a cidade de Roma até o senado, onde seria agraciado com a maior honraria que um general poderia receber naquela época: uma bandeja com folhas de palmeira em cima. Era uma honraria inacreditável. Tanto que, contam os cristãos, no Domingo de Ramos se faz um tapete com folhas de palmeira para Jesus de Nazaré. Qual é o outro nome que a gente dá em português para uma bandeja de prata? Salva. Portanto, o general ia receber no senado uma salva de palmas. Com o tempo, a salva de palmas foi substituída por aplausos, dado que as nossas mãos parecem mesmo com folhas de palmeiras.
O general ia em direção ao senado e, por lei, um segundo escravo acompanhava a biga a pé. Esse segundo escravo tinha uma obrigação legal: a cada quinhentas jardas, ele tinha que subir na biga e soprar no ouvido do general a seguinte frase: “Lembra-te que és mortal”. A biga se deslocava mais quinhentas jardas, e ele sussurrava novamente o alerta. 
Já imaginou? Tem gente que precisaria de alguém com cargo e função que, ao menos uma vez por semana, grudasse nele e dissesse: “Lembra-te que és mortal”. 
Isso serve para nós, humanos, que muitas vezes nos orgulhamos de um poder estranho, o poder sobre a natureza, o de domar os rios, o de construir, o poder sobre as pessoas. A finalidade central do poder é servir. Eu costumo dizer que um poder que se serve, em vez de servir, é um poder que não serve. Uma das questões centrais da ética é regularmos as nossas relações de maneira que o poder possa servir em vez de se servir. Algumas pessoas acham que tem “gente que vale” e “gente que vale menos”. Gente que é menos, por causa da cor da pele, do sotaque que usa, do dinheiro que carrega, da escolaridade que tem, do cargo que ocupa, do país que nasceu, da religião que pratica. Quando alguém tem essa postura, o reflexo na ética é muito forte. Ética não é uma fachada, que você ou eu usamos. Se estamos falando em ética, estamos falando na capacidade de supormos que existem relações entre as pessoas que tem de preservar a dignidade do outro e a sua própria dignidade. 
Há pessoas que apequenam a vida, apequenam com o preconceito, apequenam com a arrogância, apequenam com a venda da própria alma. A ética é a proteção da integridade, é a capacidade de ter princípios. A ética é a capacidade de saber, sim, que dilemas vivemos – na família, no trabalho, na empresa, na concorrência –, mas que isso está ligado a que princípios nós defendemos. 
É preciso colocar em destaque uma frase do grande beneditino francês, que escreveu Gargântua, Pantagruel, no século XVI, François Rabelais, que disse: “Conheço muitos que não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam”. "Se a gente pode e a gente quer, a gente deve”. 
*Carro romano de duas ou quatro rodas puxado por cavalos (usado em hipódromos)
Mario Sergio Cortella (2012) é filósofo e professor- titular pela PUC-SP 
O autor é, sem dúvida, um dos maiores pensadores brasileiros da atualidade, o filósofo e professor Mario Sergio Cortella. E o livro "Qual é a tua obra?" já traz um subtítulo que nos seduz para a leitura - "inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética". Discussões e questionamentos sobre os pilares para a construção de uma sociedade sustentável, de fato.
O livro foi estruturado em três partes: gestão, liderança e ética, mantendo sempre o papel do líder como pano de fundo. Os capítulos são curtos e densos, com formatos variando entre exemplos, citações e parábolas. Mas os temas são tratados em profundidade, provocando forte reflexão no leitor.
A primeira parte aborda Gestão, enfocando a importância da busca de um sentido no trabalho e, consequentemente, de enxergar um significado maior na sua vida. O autor explica porque o trabalho ainda é tratado como uma espécie de castigo, e porque precisamos mudar este conceito pela ideia da realização de uma obra. De certa forma, isto explica o fato da espiritualidade ser um assunto cada vez mais presente no universo corporativo. 
Os capítulos seguintes tratam da mudança, do medo de enfrentá-la e a capacidade de antecipá-la. E encerra com o grande estrago das pequenas ondas e a necessidade de melhorar a nossa gestão pessoal. Quando um modelo de vida leva a um esgotamento, é fundamental questionar se vale a pena continuar no mesmo caminho. Já pensou nisso?
Na sessão sobre Liderança, o autor afirma que esta é uma virtude e não um dom. E explica que o fundamental é chegar ao essencial, ou seja, tudo aquilo que você não pode deixar de ter como felicidade, amizade, sexualidade, religiosidade, etc. Por isso, contar com mecanismos de reconhecimento é um sinal de inteligência estratégica.
Cortella afirma que uma das principais tarefas do líder é precisamente esclarecer a obra coletiva. Realizar e perceber se no conjunto da obra é a perfeita sensação daquilo em que me reconheço como indivíduo. Mesmo em tempos velozes, onde o jogo e a estratégia mudam constantemente, temos que permanecer alertas para as duas piores armadilhas para o líder: a arrogância e a fascinação pelo mesmo. Daí a necessidade da renovação pelo outro e a vitalização constante.
Um líder precisa ser capaz de inspirar e animar as pessoas. Elas precisam se sentir bem e plenamente integradas à obra. Para isso, Cortella elenca as cinco competências essenciais na arte de liderar: abrir a mente, elevar a equipe, recrear o espírito, inovar a obra e empreender o futuro. 
Na última parte, o autor desvenda o mistério da Ética de forma brilhante, com uma fórmula capaz de dirimir qualquer dúvida. Ele sugere três perguntas simples que são essenciais para cuidarmos da vida coletiva. Quero? Posso? Devo? Afinal, a ética é um conjunto de princípios e valores que usamos para responder estas perguntas. E a integridade é um princípio ético para não apequenar a vida, que já é curta. 
Enfim, uma leitura agradável, rápida e profunda. Mas nada servirá se você não praticar seus conceitos. Dê-se esta oportunidade! Como diz o professor Cortella, um poder que se serve em vez de servir, é um poder que não serve. Lembra-te que és mortal. Fonte

13/03/2013

DVD Chico Buarque Na Carreira

Artista: Chico Buarque
Fornecedor: Biscoito Fino
Categoria: Mpb / Mpb
Cinco anos após a sua última turnê, Chico Buarque volta com o show de lançamento de seu mais novo CD, ‘Chico’, que já vendeu mais de 80 mil cópias. Embora dono de uma das carreiras mais sólidas e prolíficas da MPB – em 45 anos lançou mais de 40 discos, entre trabalhos solo e projetos –, o compositor é figura bissexta nos palcos ...

10/03/2013

Existe receita para educar os filhos?

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"A mim me dá pena e preocupação quando convivo com famílias que experimentam a “tirania da liberdade” em que as crianças podem tudo: gritam, riscam as paredes, ameaçam as visitas em face da autoridade complacente dos pais que se pensam ainda campeões da liberdade". (PAULO FREIRE)
Há poucos dias li um artigo o qual afirmava que: “educar um filho nos dias de hoje é uma tarefa de Hércules”. De fato, a educação do jovem no século XXI tem se tornado cada vez mais complexa. Parece que os filhos não podem ser frustrados, não sabem esperar, não se sentem realizados ou estão sempre insatisfeitos. Alguns creditam esse fato à ausência de modelos e referenciais educacionais; outros dizem justamente o contrário: estes são tantos que deixam os pais meio desnorteados. Mas pelo menos uma coisa é unanimidade: O jovem necessita, acima de tudo, de limites. Precisa entender os seus direitos e os seus deveres e compreender até onde estes chegam. Mas como alcançar essa tal geração tão politizada? Particularmente acredito que a educação pela e para a afetividade já é um bom começo e somente com uma boa educação familiar e escolar é possível alcançar tal objetivo. E nos tempos atuais, é mais importante a qualidade do afeto que a quantidade de tempo disponível aos filhos. As duas partes (escola e família) devem ajudar os jovens a se construir como pessoas, não só no que aprendem, mas na maneira como agem.

Inicialmente, cabe aos pais e responsáveis zelar pela condução de princípios básicos. É no seio familiar que são construídos os primeiros conceitos de respeito ao próximo, ética, cidadania, solidariedade, respeito ao meio ambiente e auto-estima, os quais levarão as crianças a serem adultos tranquilos, carinhosos, flexíveis; adultos que sabem resolver problemas e são abertos ao diálogo e às mudanças do mundo.

Para que se preserve a harmonia de uma vida em sociedade, é importante uma noção clara de princípios morais e sociais. É imprescindível que os pais saibam promover a reflexão sobre a ética da convivência e fundamentalmente sobre o outro, considerando-o parte de um mesmo universo e dotado de sentimentos. Isso se aprende no dia-a-dia, nas conversas do cotidiano, à medida que as coisas acontecem, ou nem é preciso oportunidade, esta também pode ser criada desde que a finalidade seja educar.

Educar também significa dizer “não” e geralmente este vem seguido do “por quê?” dos filhos e não devemos negligenciá-lo, eles têm direito a uma resposta. Ratifico que dizer “não” e ensinar limites não significa tirar a liberdade. Quanto mais cedo, os pais colocarem limites com afetividade e com firmeza de propósitos, menos problemas terão na puberdade e na adolescência, fase na qual os filhos costumam questionar e transgredir as imposições.

Para compreendermos melhor como utilizar os ingredientes dessa “receita”, antes de mais nada precisamos aprender a distinguir o limiar entre: Disciplina x Castigo :
- Castigo: não educa, estimula a violência e a baixa auto-estima.
- Disciplina: Ensina a ser uma pessoa melhor, desenvolve a auto-estima e a ética.

Em resumo, ter autoridade, sem ser autoritário. A autoridade torna-se uma manifestação de amor e afeto quando exercida com equilíbrio. O amor também se demonstra sendo firme no estabelecimento de limites e responsabilidades. Como diz Içami Tiba: Se castigo resolvesse todos os filhos seriam maravilhosos. O que educa é corrigir o erro na base da consequência. Se não aprender, tem que aplicar consequências. Mostrar o que ele provocou por não ter feito algo. Então vai corrigir pra não fazer outra vez. É preciso nunca ceder quando uma decisão tiver sido tomada.

Os pais não podem jamais se eximir do seu papel de educadores, para essa função não existe férias nem licença, muito pelo contrário, quando a tarefa é educar, devem fazer hora extra se necessário for. Mesmo assim não adianta só falar, é preciso educar pelo exemplo. O educador francês André Bergé, diz que: “Os defeitos dos pais são os pais dos defeitos dos filhos”. É preciso admitir que a maneira como traduzimos o mundo – nossas atitudes e noção de valores – ficam marcados em nossos filhos para sempre. Lembram dessa frase? "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Com esta, muitos pais repreendem os filhos e tentam ensinar-lhes limites, porém não deixam de continuar praticando seus atos excessivos.

(...)

Definitivamente EDUCAR não é uma tarefa fácil, tampouco vem em forma de receita de bolo ou bula de remédio. Ninguém descobriu essa fórmula secreta. No entanto, pais têm obrigação de, se não souberem, partirem para aprender sempre. Devem ensinar a seus filhos que direitos vêm acompanhados de deveres e para ser respeitado, deve-se também respeitar. Estas sim, são regras universais insubstituíveis as quais irão garantir uma plena sensação de missão cumprida, com sucesso, no futuro

Christiane Lima

09/03/2013

Contardo Caligaris

Este psicanalista rodou meio mundo antes de se apaixonar pelo Brasil
Doutor Calligaris não é um intelectual de gabinete. Nascido em Milão, em 1948, este psicanalista de 54 anos rodou meio mundo antes de aterrissar — e se apaixonar — pelo Brasil. Viajante inveterado, Contardo Calligaris transita com igual desenvoltura pelas ideias, que expõe em comentados artigos na Folha de S.Paulo. Também é autor dos livros Hello Brasil! (Escuta, 1992) e Crônicas do Individualismo Cotidiano (Ática, 1996). O comportamento humano, as relações homem /mulher, a guerra no Oriente Médio e a cândida violência brasileira são temas que ele visita com o mesmo interesse com que morou em Londres, Genebra, Paris, Nova York e São Paulo. Nas duas últimas, fixou residência.
CRIANÇAS 
O Brasil me aparece como o paraíso das crianças. 
Estranha-me o sorriso do garçom de um restaurante luxuoso tragicamente atrapalhado no serviço por uma turma de meninos correndo entre as mesas. E também que nenhum cliente pareça se incomodar com o barulho do qual não dava para suspeitar que estivesse incluído no preço. 
Surpreende-me, durante uma festa em casa, a chegada de mais um casal convidado, com crianças pequenas implicitamente não convidadas. Aqui é uma graça. Na Europa, salvo laços de amizade férreos, seria uma imperdoável grosseria. 
Num hotel cinco estrelas é exigido que exista uma sala de jogos eletrônicos para as crianças e que sejam previstas atividades infantis. Assusta-me a insistência - pedagogicamente justificada com um requinte de rousseauísmo - sobre a necessidade do lúdico na aprendizagem. Em algumas das melhores escolas privadas decorar é considerado tortura. Assombra-me a importância que assume o programa das crianças na vida cotidiana: os pedidos alimentares de pratos e bebidas especiais, as saídas, as vindas dos amigos ... O adulto brasileiro parece constantemente preocupado com o prazer das suas crianças. 
Brevemente: a criança é rei. 
Curioso, tanto mais num país cuja reputação no estrangeiro está comprometida com legiões de crianças abandonadas na rua. 
(...)
Explico-me: foi-me contado que na infância de meu pai, as crianças, quando excepcionalmente tomassem as suas refeições na mesa com os adultos, precisavam ficar em pé, não lhes sendo permitido sentar. Pouco importa que esta história seja verdadeira ou falsa, de fato presumo hoje que já fosse, para o meu próprio pai, uma lenda do seu pai criança. Pouco importa também que ela possa parecer a testemunha de um costume bárbaro. Pouco importa, pois, separando a criança do adulto, esta lenda e outras similares constituem a mitologia possível de uma ordem de filiação necessária para a criança. Por exemplo, o que mais pesou na minha infância, ou seja, a subordinação de qualquer aspiração minha à paixão incondicional do meu pai para as obras de arte (subordinação que transformou os domingos e as férias da minha infância em passeatas artísticas e culturais quando sonhava com piscinas, Beatles, beisebol e quadrinhos), tudo isso não acredito que tenha sido trauma nenhum. Poderia alegar que devo a um tal aparente abuso de autoridade paterna o meu gosto ela arte. Mas, bem além disso, acredito que o efeito e um tal aparente abuso seja a sólida inserção num registro de filiação. O importante não é tanto poder não nadar, escutar música e jogar beisebol, o importante é dispor de um lugar a partir do qual poder pelo menos querer nadar etc., quer se possa ou não. De fato, parece que o preço de um tal lugar - necessário à vida - seja justamente uma interdição. O que me é proibido, os limites que me são impostos - como criança é justamente o que me outorga e me permite reconhecer o meu lugar, o lugar de filho.
(...)
Tudo isso para defender a ideia segundo a qual o que há de necessariamente reacionário numa educação é mesmo o que permite que ela tenha o seu efeito essencial: constituir uma filiação simbólica.
(...)
Para ver texto na íntegra:

LEITURA LITERÁRIA NA ESCOLA

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É animador ver que a leitura literária está passando a ocupar espaços cada vez mais ampliados nos meios de comunicação e em fóruns da sociedade.
Num dos seus trabalhos, ao tratar do que chamou de “Algumas confusões sobre a leitura literária”, Colomer (2007) ajuda-nos a refletir sobre o desafio que subjaz às iniciativas de dezenas de educadores, (...) de construírem o lugar da leitura literária na escola pública (...). A autora assim se expressa:
[...] quando a sociedade se queixa de que os meninos e as meninas não leem, parece que se lamenta de não os ver sentados com uma obra literária nas mãos, mas o que se teme é que não dominem a língua escrita, de maneira que não tenham êxito na escola e comprometam com isso sua ascensão social. Pensa-se, pois, na função utilitária da leitura própria das sociedades alfabetizadas, um objetivo que inclui aspectos tão distintos como o uso cotidiano do escrito ou o acesso à informação e ao conhecimento ( p. 34).
Embora o compromisso da Rede seja com a democratização do acesso à cultura escrita, por meio de obras literárias, a partir de uma perspectiva teórico-metodológica que atenua o valor utilitário do ato de ler, não podemos desconsiderar a contribuição do trabalho das bibliotecas escolares e da mediação de leitura para o processo de alfabetização. A experiência com as escolas tem mostrado que ouvir o texto ou construí-lo através da leitura de imagens mobiliza as crianças para a descoberta do código e o consequente desenvolvimento das competências leitoras e escritoras. São recorrentes depoimentos delas na seguinte linha:
“Descobri que pelos livros posso conhecer muitas histórias e isso me fez ter vontade de aprender a ler do jeito da professora aqui da sala de leitura” (Pedro Henrique, 8 anos, aluno da Escola Estadual Hegésippo Reis – Mar./2011).
Bajard (2010, p. 22-23) chama a atenção para a diferença linguística de recepção entre o texto impresso e o sonoro: “o primeiro exige a longa aprendizagem da alfabetização, enquanto o segundo é entendido mesmo pelo analfabeto, se a língua do texto corresponde à sua cultura.” A tradição oral, o peso da língua falada, o ouvir o texto lido por outra pessoa não têm importância menor, antes pelo contrário. Manguel (1997, p. 132) conta o quanto era prazeroso a escuta do texto lido pela sua babá: “eu simplesmente gozava a sensação voluptuosa de ser levado pelas palavras”, provavelmente a mesma sensação que sentiam os operários – quase todos analfabetos – das fábricas de charutos de Cuba, durante as sessões de “leitura pública”, realizadas no século XIX. Os enroladores de charutos ouviam narrativas enquanto trabalhavam. O autor ressalta, ainda, diferentes situações, desde séculos atrás, em que se recorria à estratégia de uma pessoa ler para outra ou para grupos.
Nas escolas, tanto a contação de histórias quanto a leitura de livros em voz alta têm as suas importâncias, mas predominam quando persistem as fragilidades na condução do processo de alfabetização e/ou se adota um tipo de pedagogia de baixo investimento na autonomia e, portanto, centrada na reprodução de informações, histórias e textos escritos por meio da fala de quem domina o código, o professor.
Ao se evocar a relevância das escolas conceberem os seus projetos de promoção da leitura literária, há uma clara intenção de possibilitar o acesso, desde a mais tenra idade, à literatura, seja antes, durante ou depois da alfabetização.
Inicialmente por meio do contato com professores leitores que fazem da prosódia recurso de encantamento para a escuta de histórias contadas nos livros; acesso ao acervo cuidadosamente montado e a um ambiente mediador de leitura – a biblioteca escolar ou sala de leitura – pensado em detalhes.
Vimos que o aluno Pedro Henrique falou dos efeitos de um projeto de leitura, a partir da sua experiência pessoal, do movimento cognitivo para sair do lugar de quem ouvia o texto lido pela professora da sala de leitura para alguém capaz de conhecer, por si só, o texto desconhecido (BAJARD, 2010, p. 25), inaugurando o processo de alfabetização e letramento, pela consciência do papel social da leitura e da escrita.
Durante uma roda de conversa com quatro crianças de uma Escola Estadual, buscamos conhecer os reflexos dos dois anos do projeto de leitura da instituição. Essas crianças foram escolhidas por residirem próximo à Escola – era período de férias, no mês de fevereiro de 2009 – e serem assíduas às atividades da sala de leitura, desde 2007. Elas concordaram e a conversa foi gravada em vídeo. Bastou uma questão inicial para desencadear toda conversa.
Perguntamos: É possível vocês expressarem como se sentem ao ler um livro? As falas das crianças foram de uma riqueza ímpar, ensinamentos que nos fizeram progredir na direção do que parecia funcionar. “Quando estou lendo eu me sinto como se tivesse viajando dentro do livro. A gente pensa várias coisas através da leitura [...]. A gente inventa. Às vezes a gente fala pra professora o que inventou através do livro”, confirma Ana Beatriz Leite dos Anjos, 11 anos, a assertiva de que o ato de ler é atividade de sujeitos pensantes, por ser o leitor quem confere vida ao texto, com ele dialogando. Ela completa: “Assim, por exemplo: um livro que fala sobre a mentira, aí a gente inventa assim: que o menino viu o arco-íris e viu o pote de ouro. Então a gente já inventa que existe o pote de ouro, através do livro e vai inventando várias coisas.
Samuel Augusto da Silva, 9 anos, falou da vinculação afetiva entre leitor e livro: “Quando ainda estou no primeiro capítulo, eu já vou me sentindo bem com o livro. Quando a pessoa gosta do livro aí fica parecendo que é irmã do livro, porque a gente gosta do livro”, o que nos faz lembrar Clarice Lispector, em “Felicidade Clandestina”. Por outro lado, na sala de aula não é sempre que se escolhe um livro, Ana Beatriz, destaca: “Eu gosto de ler, mas de ler um livro, quando eu quero. [...] Às vezes a professora pede pra a gente ler um texto ou até um livro, mas a gente não gosta, não se sente bem lendo, mas a gente tem que ler para a classe ouvir a leitura.” Não é fácil gerir, na sala de aula, a dimensão da leitura didática, aquela que converge sempre para uma única conclusão, ou seja, uma resposta e a da leitura literária, aquela que deixa aberturas para o leitor concordar, discordar, reinventar o texto do autor. Vejamos o que ensina Ana Beatriz:
"Às vezes a professora pede pra ler um livro e às vezes a gente escolhe o livro que a gente quer e a gente gosta de ler. Quando a professora pede para ler um livro, eu me comporto como uma aluna e quando eu leio porque eu quero, eu me comporto como eu mesma. O meu comportamento como aluna é estudando, lendo os livros das matérias e sendo eu mesma é lendo os livros de qualquer tipo que for, tamanho, qualidade, de qualquer tipo".
A sala de aula, por natureza, sempre evocará, em maior ou menor grau, a postura de aluno (a) diante de um currículo acadêmico. Decorre dessa realidade a relevância de a escola ter o seu projeto de leitura, de formação de leitores que contemple o acesso ao texto literário
INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO (IDE)
Coordenação: Cláudia Santa Rosa

07/03/2013

A leitura literária como direito da criança

Algumas das obras do escritor Maurício Veneza.
Escritor e ilustrador de livros para crianças e jovens. Atuou também nas áreas de publicidade, como ilustrador e diretor de arte, e jornalismo. Possui trinta títulos publicados como escritor e cerca de setenta como ilustrador. Livros com suas ilustrações receberam prêmios como o Altamente Recomendável da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) e o da Academia Brasileira de Letras. Como escritor tem vários livros incluídos em programas governamentais de leitura, como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) e o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), e no catálogo da Feira de Bolonha. É membro da AEI-LIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil), onde atualmente exerce o cargo de vice-presidente.
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(...) Não proponho aqui uma desescolarização da literatura. Pelo contrário. Creio na necessidade urgente da criação de um espaço privilegiado na escola onde a leitura literária não seja vista como um meio para atingir um fim determinado e sim que seja bastante por si mesma.
Tivemos por muito tempo (e ainda temos) uma abordagem da literatura na escola em que o aluno era capaz de responder sobre estilos de época, escolas e movimentos literários, sem jamais ter lido sequer uma obra dos autores que mencionava. Formava leitores? Claro que não. Mas permitia um desempenho falsamente satisfatório numa prova ou exame, segundo os critérios estabelecidos. Vi numa livraria de Juiz de Fora, Minas Gerais, uma publicação que trazia os resumos prontos e acompanhados de comentários de obras indicadas para o vestibular. Como se gritasse: “não leia, não interprete, não entenda, não pense, o importante é passar!”. A cultura da enganação... Mas há também um lado positivo na questão da leitura literária. Nas últimas décadas, vimos, com entusiasmo e otimismo, o surgimento e proliferação de um sem número de iniciativas, projetos, programas e eventos, destinados à promoção da leitura e à formação do leitor. Há uma preocupação e uma mobilização intensa. Órgãos do governo, das três esferas administrativas, federal, estadual e municipal; setores da iniciativa privada; organizações não governamentais; associações de editores e livreiros; associações de escritores e ilustradores... São muitos os parceiros, todos com o propósito lobatiano de fazer um país com homens e livros. Muitas são também as iniciativas individuais ou pontuais, livros no açougue, em lombo de jegue, na borracharia, na sala de espera dos postos de saúde... É difícil mensurar com exatidão os resultados práticos de todas essas iniciativas.
Estatísticas recentemente divulgadas revelam um crescimento surpreendente na quantidade média de livros lidos por habitante anualmente no país. (...)
Para se tornar leitor, o indivíduo precisa, antes de tudo, ser alfabetizado. 45% dos entrevistados declararam não ter lido nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa. Segundo Galeno Amorim, que coordenou o trabalho, a pesquisa mostrou que depois da fase escolar há um distanciamento da literatura. A escola precisa trabalhar um pouco mais na tarefa de criar leitores que gostem de ler e que continuem a ler depois que saem da escola, para uma leitura não só pragmática. 
É verdade também que, apesar desses esforços, deparamo-nos no dia a dia com distorções, às vezes, difíceis de enfrentar. Todos conhecem as famosas bibliotecas escolares fechadas, onde o aluno não entra. Existe o espaço, existe o acervo, mas o leitor fica de fora. (...)
Como mudar este quadro, como transformar esta realidade? Difícil responder. Certamente não existem fórmulas mágicas. Nenhum procedimento infalível. Mas ouso dizer que as respostas passam necessariamente, além do acesso aos recursos materiais, pelo elemento humano. Refiro-me aos mediadores de leitura. Pais, bibliotecários, mas, principalmente, professores. Serão estes os construtores das pontes entre os livros e os leitores. Para que a criança tenha, não somente reconhecido, mas efetivado seu direito de acesso aos livros de literatura, necessitamos de mediadores comprometidos com estes livros, pessoas capazes de apresentá-los ao leitor, que é seu complemento natural. Capazes de tomar o leitor pela mão e mergulhar com ele num mundo de experiências incontáveis. Capazes de mostrar como, com a literatura, os horizontes alargam-se e os limites dissolvem-se. Como o irreal torna-se real e o absurdo torna-se verossímil. Como é possível estabelecer vínculos de proximidade, quase intimidade, entre um escritor que viveu no século XIX e um leitor contemporâneo.
Talvez a escola tenha se afastado da literatura por razões de ordem prática, pela dificuldade de exercer poder e controle sobre algo que é tão dinâmico, fluido e rebelde por natureza. Como atribuir notas ou conceitos de forma objetiva a algo que é tão carregado de subjetividade? Mais fácil é decorar listinhas de datas e escolas literárias...
Mas essa mesma escola pode mudar o seu papel. É preciso que a instituição escolar reflita e assuma uma opção clara e consequente. Que se pergunte: que tipo de leitor queremos, que tipo de aluno queremos, que tipo de cidadão queremos? Maurício Veneza

INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO (IDE)
Coordenação: Cláudia Santa Rosa
Entrevista com Élie Bajard - Leitura Literária