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03/02/2013

Sobre ideias e pães

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Em meados dos anos 70, dois caciques da nação xavante foram visitar a cidade de São Paulo.
Foram dormir em um hotel e, no dia seguinte, levados para passear.
A ida a um mercado tinha a finalidade de surpreendê-los com um cenário paradisíaco: alimentos acumulados em grande quantidade: pilhas e pilhas de alface, de cenoura, de tomate, de laranja, etc. 
De repente, um deles viu algo que nenhum e nenhuma de nós veria, pois não chamaria nossa atenção. Ele apontou e disse:
O que ele esta fazendo?
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“Ele” era um menino de 10 anos de idade, negro, pobre (nós o saberíamos, pelas vestimentas), que no chão catava verduras e frutas amassadas, estragadas e sujas, e as colocava em um saquinho plástico.
A resposta foi a “óbvia”:
- Ele está pegando comida. 
- Não entendi.
- Porque o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta coisa boa nas pilhas e nas caixas? 
Outra resposta evidente:
- Por que para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro. 
Insiste o xavante (já irritante, pois está escavando onde a injustiça sangra):
- E por que ele não tem dinheiro? Réplica enfadonha do civilizado: Por que ele é criança. 
- Torna o índio: E o pai dele? Tem dinheiro? Outra obviedade: Não, não tem.
Questão final: 
- Então não entendi de novo. Por que você que é grande tem dinheiro e o pai do menino, que também é, não tem? 
A única saída possível foi responder:
- Porque aqui é assim! 
Os índios pediram para ir embora, não apenas do mercado, mas da cidade. 
Para que pudessem aceitar mais tranquilamente o “por que aqui é assimteriam que ter sido formados e formadores da nossa sociedade, frequentado nossas instituições sociais e, também, nossas escolas; teriam que ter sido “civilizados
A intenção do relato anterior não é moralista nem deseja propor um “modelo indígena de existência”; é ressaltar aquela que, no nosso entender, é a maior tarefa dos educadores e das educadoras, na junção entre a epistemologia e a política: o esforço de destruição do “porque aqui é assim”. 
A ruptura do “porque aqui é assim” principia pela recusa à ditadura dos fatos consumados e à ditadura fatalista de um presente que aparenta ser invencível.
Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre.
Afinal das contas, por que somos educadores e educadoras? 
Há um ditado chinês que diz que, se dois homens vem andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um; porém, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando uma ideia, e, ao se encontrarem, eles trocam as ideias, cada homem vai embora com duas. 
Quem sabe é esse mesmo o sentido do nosso fazer: repartir ideias, para todos terem pão...
Mário Sérgio Cortella (1999)  

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