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10/01/2013

Traduzindo o Mundo

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Há poucos dias ocorreu-me um episódio que serve para expressar como a literatura infantil consegue tocar a criança e auxiliá-la em seu processo de desenvolvimento.
Passávamos de carro por uma zona triste da cidade. Usuários de drogas largados no chão, jovens equilibrando-se com dificuldade nas calçadas.
Íamos devagar, conversando. Minha mulher dirigia distraída e contava um caso. Gabriel, meu filho de seis anos, quieto no banco de trás. O farol fechou, figuras cinza como o entorno vieram em nossa direção. Não havia carros à nossa frente. Movido por uma sensação de vulnerabilidade que avançava pelas janelas, pedi para ela fechar o vidro. O tom saiu mais cortante do que devia. Ela continuava despreocupada, fiquei tenso com sua displicência e manifestei minha irritação.
Gabriel protestou:
— Para, pai!
Tentei justificar-me, mas ele foi preciso:
— Lembra do general falando do inferno? Você agora está como ele!
— Que história é essa?, minha mulher perguntou.
Enquanto minha animosidade baixava, resumi o conto infantil japonês que eu e meu filho havíamos lido juntos há uma semana.
— Um general famoso se aposenta e vai para as montanhas. Depois de dias caminhando com seu uniforme impecável, encontra um mestre zen e indaga se existe, mesmo, o céu e o inferno. O mestre olha-o com desinteresse e pergunta por que iria explicar isso a alguém vestido como um tolo. O militar fica irado e, espada em punho, parte para cima do mestre. “Está vendo? Essa é a porta do inferno!”, diz o monge. O general percebe seu descontrole, interrompe o movimento e humildemente pede desculpas pela agressividade. “E essa é a entrada do céu”, completa o mestre.
Estava ali, diante de nós, uma prova do poder da literatura dirigida à infância. Gabriel registrou o significado, identificou o “inferno da animosidade” no pai e ainda expressou seu desconforto, por intermédio da história.
O hábito da leitura aumenta o repertório das crianças, não apenas de palavras, mas de emoções assimiladas nas personagens literárias.
Vocabulário mesquinho, entendimento escasso”, resumiu Graciliano Ramos. O esforço da leitura desenvolve capacidades cognitivas como atenção e imaginação diferentemente de um filme, em que os conteúdos são recebidos já prontos. Os livros ajudam as crianças a reconhecer, dentro de si mesmas, monstros, príncipes e fadas que neles habitam. E as auxilia a inspirar-se na coragem de Pedrinho, na inteligência de Ulisses, ou a compreender que momentos de desânimo acometem até um herói como Aquiles.
O ritual das leituras diárias aumenta a habilidade da criança de exprimir-se sobre tudo o que a acomete, seja um pai estressado ou um canto assustador da cidade. A literatura ajuda a traduzir o mundo – ou a descobri-lo, como escreveu Clarice Lispector.
Paulo Bloise é psiquiatra (analista junguiano) com residência e mestrado na Unifesp, onde fundou e coordenou o Ambulatório de Crise Psiquiátrica até 2007 e o Anthropos: Núcleo de Integração Mente, Corpo e Espiritualidade. Analista membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.
Escritor autor de: "O Tao e a Psicologia" (Angra); "De Olho na Rua" (Dimensão); "Sobre Humanos" (Moderna) e "Surfando na Marquise" (Cosac Naif) − livro finalista do Prêmio Jabuti de 2009. Organizador e coautor do livro "Saúde Integral: a Medicina do Corpo, da Mente e o Papel da Espiritualidade" (Editora Senac, no prelo).

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