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12/01/2013

Para além do certo de ler: duas histórias de criança e leitura

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A história de Leon e Ana
Ana é uma mãe apaixonada por histórias e por seu filho, Leon. E vive com ele experiências maravilhosas de ser e de ler. Uma recente foi com o sítio de Lobato. Os dois pegaram as Reinações e começaram. Leon, fascinado, não encontrou paciência de esperar a noite para que ela lesse mais um pedacinho. Tratou de ler sozinho e logo passou a falar dos personagens o tempo todo, a contar a história para as meninas que cuidam dele e para os amigos, e para a mãe, e para o pai. Todos os dias diz suas aventuras lobatianas. Apaixonado pelo sítio, espera com ansiedade a chegada dos outros livros de Pedrinho e sua turma, já encomendados. Outro dia, Leon lia durante o almoço. Ao ser repreendido por isso, explicou-se, inteiro e honesto: “Mas é que meu olho não resiste à letra!”.
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A história de Alice e Val
Alice sempre sorri quando convidada para ler. Desde muito pequena, lê todas as noites com o pai. Uma vez, com oito anos, ouviu dele a explicação sobre ler com os olhos e ler com os ouvidos (quando outra pessoa enuncia em voz alta o texto para a gente que ainda não sabe as letras). Noutro dia, o pai, ocupado com uma visita, disse-lhe que fosse para a cama e que, se quisesse, lesse um pouco antes. Tinham começado na noite anterior "De olho nas penas", uma história da Ana Maria Machado, com que ela tinha se envolvido mais que normalmente. Ela vai, pega o livro, fica lá um tempo e, depois, volta e diz: “Val, eu estou tão cansada, me empresta seus olhos pra eu ler!
Essas duas pequenas crônicas põem em evidência uma das muitas possibilidades da leitura que vão além de qualquer dimensão pragmática ou objetiva.
Há nos gestos de Leon e de Alice a manifestação da leitura como mediadora das subjetividades e criadora de espaço de intimidade, de afeto, de interação.
As crianças vivem, além das histórias dos textos, a incorporação do pai e da mãe em sua forma de ser. Ler, para elas, além de descobertas, é uma forma de fazer em sua vida a vida daqueles com quem se identificam e querem.
O desejo de Leon é o desejo da mãe (cuja atitude leitora é fazer das letras algo irresistível para olhos da criança); o desejo de Alice é o desejo do pai (que lhe empresta os olhos, que também não resistem às letras).
Por isso, mais maravilhoso que o mundo de Monteiro Lobato e o de Ana Maria Machado é o mundo que, atravessado por esse maravilhoso, vivem Leon e Alice.
A literatura é grandiosa por ser isto: um lugar de transcendência do imediato e do utilitário, um lugar que permite que alguém se esqueça do que devia fazer e faça coisas erradas (como ler no almoço, o que pode prejudicar a visão e a digestão, ou não querer dormir e incomodar o pai ocupado com visitas) para indagar para além do certo.
Luiz Percival Leme Britto é linguista e educador, atuando principalmente no campo de educação e linguagem. Seus trabalhos enfatizam a necessidade de uma educação escolar que transcenda os limites do cotidiano e o senso comum; destacam também o valor da leitura literária como processo de conhecimento e de indagação da condição humana, o que faz com que não se possa percebê-la como simples entretenimento ou instrumento de prazer. Atualmente, é professor da Universidade Federal do Oeste do Pará.

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