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13/01/2013

Nem infância sem livro nem dia sem ramo de flor

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Minha mãe me penteava. Cabelos ondulados. Devia doer. Meus cinco anos fulminaram com um tapa o pente na mão dela. Vermelha frente aos sogros, a autoridade ameaçada, ela fez outro tapa esquentar a mão rebelde. Quando se avizinhava a tempestade, eu abrindo o berreiro, minha avó correndo para proteger a neta, meu avô interveio: Deixa, a mãe está certa. É de pequenino que se torce o pepino.”
Que frase mais repetida na crônica familiar. “Eu sou um pepino?” – devo ter perguntado.
Se não era, virei. E fui torcida desde pequena: cabelos penteados, mão comportada, corpo esguio, bem estaqueado para a planta produzir frutos mais bonitos, de aparência homogênea. Tão bem estaqueada fui, que me esparramei, alcancei outros terrenos, não parei de frutificar, multiplico-me em cascas lisas ou ouriçadas, de um verde feliz; por dentro, sementes e água, sou de vidro e alimento, como disse um menino a sua mãe.
Tinha algum tempo que eu desconfiava, mas só recentemente encontrei a informação: pepino precisa de abelha por perto para crescerConhece a história de que coco só dá água se estiver perto do mar? Pois pepino precisa de abelha para fazer a polinização cruzada, uma vez que suas flores são só femininas ou só masculinas. Tem agricultor que paga dono de apiário para botar suas abelhas a fabricar a crosta delicada da vida.
A mão que me torceu garantiu também as abelhas. Como a saber que me dava destino de buscar água por via do sal, minha mãe reconheceu a menina à beira do eu, a ponto de dar salto para o mundo. Pensou no objeto mais precioso de todos para acompanhar essa travessia mais corajosa de todas. E, acreditando que inaugurava o mundo, nomeou: livro. Abençoou a palavra, considerou, em algum lugar, um parentesco entre ele e as abelhas. Por causa de cera e mel, talvez.
A lembrança dos primeiros livros em minha vida dá-se aí pelos sete anos, mas memória é coisa que tanto trai. O fato é que não me lembro de tempo sem livro, na minha infância. Nem depois.
Livro acompanhava cada inquietação, cada alegria, me oferecia personagens e casas, infinitos modos de viver e de perguntar o tempo de ontem e o de amanhã. Para poder escrever bem as horas de hoje.
Pepino bem torcido que fui, cresci fértil e recitei versos, engendrei narrativas para desembaraçar os cabelos de minhas filhas. Regozijada pela lição de avô e mãe, decidi cultivá-las desde cedo, cuidando das estacas, adubando a terra, corrigindo a acidez do solo. As filhas ainda no ventre, trouxe as abelhas para dentro de casa. E fabricamos jardins.
Não nos lembramos, as quatro, de tempo sem livros ou de dias sem ramo de flor.
Nilma Lacerda é autora, entre outras obras, de "Manual de Tapeçaria" – Prêmio Rio de Literatura; "Viver é Feito à Mão/ Viver é Risco em Vermelho"; "As Fatias do Mundo" – Prêmio Jabuti e Prêmio Orígenes Lessa, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY); "Estrela de Rabo e Outras Histórias Doidas"; "Pena de Ganso"; "Bárbara debaixo da Chuva"; "Sortes de Villamor e Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio", obra teórica vencedora do Prêmio Cecília Meireles, da FNLIJ.
Tradutora, ensaísta, doutora em Letras Vernáculas com pós-doutorado em História Cultural e autora de inumeráveis artigos científicos, é professora da Universidade Federal Fluminense. Desenvolve o projeto Diário de Navegação da Palavra Escrita na América Latina, premiado com a bolsa Virtuose, do Ministério da Cultura.

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