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11/01/2013

Leitura e liberdade

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No final do século XIX, vivia na Rússia um menino pobre chamado Alexey. Seu entorno familiar e social era povoado de pessoas incultas, pragmáticas e violentas. Os únicos interesses delas eram bens materiais, religião e sexo, e elas castigavam severamente quem quisesse fugir desse estreito quadro de valores. Ora, o menino Alexey era justamente uma das pessoas que sufocavam nesse meio. Escreveu ele mais tarde: “Hoje ainda, quando evoco o passado, tenho dificuldade de crer que tudo foi realmente assim; há tanta coisa que eu gostaria de discutir e negar, pois a vida obscura de uma ‘raça estúpida’ é demasiadamente fértil em crueldade”.
Se Alexey pôde escrever e publicar um dia o trecho que acabo de transcrever foi porque, nesse mundo cruel e inculto, ele havia achado um refúgio. Havia ele achado alguém que o compreendesse a apoiasse? Não. Seu refúgio era a leitura! Seu refúgio eram os livros e as brochuras que, quando o deixavam em paz, ele avidamente lia escondido. O que lia? Qualquer texto que lhe caísse nas mãos, qualquer livro que conseguisse emprestado.
A leitura não foi somente um refúgio para escapar da "raça estúpida à qual ele se refere". A leitura foi também sua alforria em relação a esse mundo no qual livros eram vistos como inúteis e até suspeitos. Foi por intermédio deles que Alexey descobriu que o mundo é muito mais vasto que as estreitas fronteiras dentro das quais vivia. Graças a eles, observou que as ideias criadas pelos homens vão muito mais além da parca ideologia de seus pares. Com os livros, Alexey encontrou amigos”, seja na figura dos autores, seja na figura das personagens por eles criadas, “amigosesses que dilataram sobremaneira o seu universo. E, um dia, um pouco mais velho, ele resolve sair de casa e andar por esse mundo anteriormente descoberto pela leitura. E se tornaria ele mesmo escritor com o nome de Maxim Gorki. 
Com a leitura pode-se ir a épocas nas quais não se pode mais viver. Com a leitura pode-se ir a lugares distantes e inatingíveis. Com a leitura entra-se em contato com pessoas que nunca serão conhecidas pessoalmente. E isso desde a mais tenra infância.
YVES DE LA TAILLE. Foto: Almir Cândido de Almeida
Yves de La Taille é professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo na cadeira de Psicologia do Desenvolvimento e Psicologia Moral. Entre várias publicações, destacam-se "Moral e Ética: Dimensões Intelectuais e Afetivas(Porto Alegre, Artmed, 2006) – Prêmio Jabuti 2007 de Educação, "Psicologia e Psicanálise e Formação Ética: do Tédio ao Respeito de Si(Porto Alegre, Artmed, 2009).

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