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20/01/2013

Festa da Palavra - Ana Maria Machado

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Histórias que me contaram, histórias que me encantaram, livros que me formaram… Tudo isso se mistura quando analiso de onde vim. Mas a memória conservou tudinho, nos menores detalhes. Lembro-me das histórias sem livros que minha avó me contava, um tesouro de narrativas orais, do rico patrimônio de nossa literatura popular. Mas também guardo intactas as lembranças dos livros que meus pais liam para mim.
Bom, a bem da verdade, eu me lembro dos livros, das histórias e da voz deles a ler e mostrar as figuras. Mas com certeza a memória não guardou essas cenas da experiência inaugural, vivida quando eu era bebê, e sim da cena repetida mais tarde, com meus irmãos, pois sou a mais velha de uma ninhada de nove. Sempre vi meus pais contando histórias para nós, até que comecei a ajudá-los, compartilhando esse momento com os caçulas. Depois segui o exemplo, dividindo livros, narrativas e figuras com meus filhos, com meus sobrinhos, com meus netos. Desde muito cedo.
Me lembro de meu neto Henrique antes de fazer um ano, no meu colo, na hora de ir para o berço, escolhendo pela lombada o livro que queria aquele dia e que ele conhecia, distinguindo entre os que tinha em sua estante.
Me lembro de meu filho Pedro aos quatro ou cinco anos, a me pedir:
— Mãe, hoje estou meio triste. Não quero história, quero poesia.
Ou de Rodrigo aos três, ouvindo pela enésima vez o mesmo capítulo de Reinações de Narizinho que ele exigia toda noite, e dando gargalhadas gostosas com as primeiras asneirinhas que a Emília diz quando aprende a falar.
São lembranças amorosas e afetivas. Muito fortes. Não sei teorizar sobre isso. Mas tenho certeza de que esse deslumbramento compartilhado e maravilhado, diante da possibilidade que as palavras têm de abrir mundos ilimitados e nos expandir até o infinito, deixa marcas profundas em quem conta e quem ouve. Elas nos fazem ir além do que somos, viver outras vidas possíveis, sempre com a certeza de depois podermos voltar ao próprio ninho. No processo, vamos entendendo que fazemos parte de uma grande família, que inclui gente que nem conhecemos, mas que celebra em conjunto a festa da palavra, capaz de criar beleza e sentido com os sons que saem da boca humana mas podem ficar guardados em livros, passados adiante para cada um de nós.
Ana Maria MachadoConsiderada uma das mais completas e versáteis autoras brasileiras, a carioca Ana Maria Machado é membro da Academia Brasileira de Letras. Pelo conjunto de sua obra como romancista, ensaísta e autora de livros infanto-juvenis, ganhou o mais importante prêmio literário nacional: o Machado de Assis. Entre seus outros prêmios destacam-se o Hans Christian Andersen (do IBBY), o Casa de las Americas e o holandês Príncipe Claus, além de três Jabutis. Exerceu intensa atividade como jornalista e professora, tendo dado aulas na UFRJ, na PUC-Rio, na Sorbonne, em Berkeley e Oxford. Escreve há mais de 40 anos e é publicada em 18 países.

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