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12/01/2013

De olho nas penas - Ana Maria Machado

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Na postagem anterior citei o livro "De olho nas penas - Ana Maria Machado". Considerei importante realizar uma postagem sobre, por se tratar de uma obra importante e interessante. Veja premiações e resenha abaixo:
De olho nas penas
Prêmios:
1981 - Prêmio Casa de Las Américas, Casa de Las Américas, Cuba
1981 - Melhor Livro Infantil do Ano, Ass. Paulista de Críticos de Arte
1981 - Selo de Ouro, Fund. Nacional do Livro Infantil e Juvenil (Melhor Livro Juvenil do Ano)
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O pequeno Miguel, depois de ter vivido em vários países, acompanhando sua família militante de esquerda na fuga do regime militar e na busca de asilo político, encontra-se agora vivendo no Brasil, em função da Anistia (1979). Miguel está razoavelmente adaptado à nova situação, mas vive uma certa crise de identidade: em parte, por situação ambígua de filho que “tem dois pais”, uma vez que sua mãe se separou de seu pai biológico e casou novamente; em parte, por não saber bem qual sua nacionalidade, já que viveu em tantos países – Chile, Moçambique, Panamá, Bélgica, França e Portugal. Numa ocasião em que vai dormir na casa de sua avó por parte de “pai biológico”, Miguel vive, durante a noite de tempestade, uma curiosa e fantástica experiência, ocorrida entre os nebulosos limites do sonho e da realidade: é transportado para três lugares, onde, sempre na companhia de uma estranha personagem, que tem a capacidade de assumir as mais diferentes formas, humanas ou animais, o protagonista vai tomando contato com aspectos da história e da cultura de três realidades distintas, mas aproximadas por seu contexto histórico – a dos nativos da “América espanhola”, a dos nativos da “América portuguesa”, a dos negros africanos. Na classificação de Zilberman, O livro "De olho nas penas" de Ana Maria Machado traz uma visão emancipatória da família, pois não vê a criança como um ser desprotegido, já que a criança tem as rédeas da situação e os pais e a avó não precisam interferir nas suas escolhas. É ela que vai atrás da solução e das respostas para os seus questionamentos. É importante lembrar que as situações e viagens que Miguel viveu, foram fruto da sua imaginação e da sua vontade por aprender. É de grande importância o fato de que os pais de Miguel são divorciados e ele tem um padrasto que trata também como pai. Esta situação causa confusão ao menino, que, quando questiona a mãe sobre isto, não recebe lições sobre o amor paterno nem uma resposta clara a respeito. O que é sinal do caráter emancipatório da obra, já que os pais não tomam a situação e apresentam respostas claras ao filho, isto permite que Miguel passe a refletir sobre a vida e procure encontrar as respostas que quer e precisa. O exílio dos pais de Miguel faz com que ele tenha que morar em vários países e por isso, seja um pequeno cidadão do mundo, que quer descobrir-se e por isso, surge o amigo Quivira (nome conferido pelo próprio Miguel) que lhe apresenta a história da América Latina, e a exploração que os povos antigos, Incas, Maias e Astecas, sofreram do colonizador europeu. Depois é a vez da Amazônia com seus índios e suas lendas, suas histórias de sofrimento e exploração, iguais e diferentes ao mesmo tempo, como diria Quivira. Por último, Miguel conhece a África com seus animais selvagens e a história dos homens cor da noite, também explorados e escravizados, agora pelos ex-colonos europeus de uma América já dominada. Estas são “as penas do mundo” que Miguel conhece e lhe são apresentadas sem um julgamento adulto que possa orientá-lo a favor de qualquer opinião. É o menino que tira as suas próprias conclusões e reflete sobre a história das terras das quais ele é filho. Mesmo apresentando a história de alguns povos, o livro não pode ser considerado didático, já que não apresenta nem mesmo os nomes das terras que Miguel visitou. Só é possível perceber se o leitor tiver um conhecimento prévio. O texto é estético já que não tem uma preocupação didática de ensinar algo às crianças. Muitos podem erroneamente julgá-lo didático, pelo fato de Quivira levar Miguel às terras distantes e responder as suas perguntas. Mas é importante notar que Quivira deixa com que Miguel descubra as próprias respostas através da reflexão, não assumindo, por sua vez, um discurso autoritário adulto. O livro destina-se ao público infantil numa faixa etária a partir de 11, 12 anos de idade. Isso se deve porque a linguagem do livro é coloquial, mas puramente literária despertando assim a imaginação e curiosidade das crianças. A temática do livro também favorece leitores dessa faixa etária.
De acordo com a classificação das idades de leitura, feita por Richard Bamberg, a obra se enquadra na 3ª fase, pois é a idade da história ambiental e da leitura factual (9 a 12 anos). É a fase intermediária, em que persistem vestígios do pensamento mágico, mas a criança começa a orientar-se mais para o real. Via de regra, o leitor escolhe, neste período, histórias que lhe apresentam o mundo como ele é, através da percepção mágica de determinado personagem. A leitura vai facilitar-lhe a apropriação da realidade, sem romper com o estágio da fantasia, que ainda não abandonou de todo. (in BORDINI e AGUIAR, 1988)
Ela não é uma obra pré-moldada, que deixa o leitor no comodismo, no conforto, pelo contrário, ela desafia a compreensão, pois exige esforço do leitor. Ela é emancipatória porque busca a tomada de consciência, exigindo uma análise estética e ideológica. Para Jauss, a literatura é fonte de prazer e conhecimento. A experiência estética liberta dos constrangimentos e da rotina, proporciona a incorporação de novas normas. A literatura como arte reflete o conhecimento do ser humano, levando em conta suas fraquezas, misérias, dores e angústias. A literatura possui função transgressora, ou seja, de modificar o modo de ser, de pensar, através da emancipação, na qual o sujeito liberta-se de padrões que lhe foram impostos e a obra atinge essa função. O livro se enquadra no período de 1965 a 1985, quando a literatura infanto-juvenil passou a ser vista como arte, pedagogia e indústria e a tratar de temas tabus como: separação conjugal, extermínio dos índios, amadurecimento sexual, repressão social, emancipação da mulher-mãe, relação entre infância e velhice, degradação da natureza, desestruturação familiar, preconceito racial e marginalização dos idosos. É feita uma análise do comportamento do adulto pela criança. A literatura infanto-juvenil desvincula-se do compromisso com valores pedagógicos, autoritários e maniqueístas. Em vez disso, um universo mágico aparece questionando os valores. A ilustração é paralela ao texto, complementa o texto escrito. É dado um novo olhar às mazelas nacionais e às angústias pessoais. As ilustrações do livro são feitas em páginas inteiras, de forma colorida e submetendo-se à múltiplas interpretações. Segundo Ana Maria Machado, “...o papel da ilustração é iluminar o texto de uma maneira pessoal, própria...” E o ilustrador chileno Gonzalo Cárcamo consegue inventar a partir do texto, mas, ao mesmo tempo, não é autônomo, havendo uma dependência com ele. O trabalho do artista é provocador, mesclando registros realistas e fantásticos, fazendo com que a função texto x ilustração seja coordenada e adequada, dando margens à imaginação do leitor. Fonte

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