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16/01/2013

Arejando palavras: linguagem, literatura e leitura

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A linguagem humaniza. Pela linguagem podemos acessar a cultura, interagir com os outros, comunicar, educar e criar. Mas essa ferramenta poderosa é também delicada. A linguagem não é transparente, não é exata: ela se renova conforme a usamos, provocando sentidos diferentes. Apropriar-se da linguagem implica considerá-la em sua delicadeza, percebendo usos e combinações entre as palavras.

Palavras podem ser usadas de muitas maneiras.
Os fósforos só podem ser usados uma vez. (Arnaldo Antunes)

Na linguagem cotidiana valorizamos a comunicação, mas não estamos livres de mal-entendidos. Para ser bom entendedor, é preciso estar atento: conhecer a instabilidade da palavra. Nutrimos os bebês com palavras, apresentando-lhes o mundo. Logo de saída um alerta: “mama” pode ser mamãe ou mamar; “papá” pode ser comida ou papai. E então? Cantamos com as crianças, apresentamos adivinhas, parlendas, brincadeiras com as palavras. Oferecemos nossa bagagem da tradição oral: o alerta “não confunda” vem de boca em boca, de pai para filho, durante os tempos. Essa prática torna as crianças espertas, desconfiando sempre um pouco das palavras.

...bola, papagaio e pião de tanto brincar se gastam. As palavras não: quanto mais se brinca com elas, mais novas ficam. (José Paulo Paes)

Na atualidade é imprescindível apropriar-se também da linguagem escrita. É preciso ler, escrever, letrar-se. No entanto, a leitura que se valoriza no dia a dia é a leitura que permite o acesso à informação e à comunicação. É uma leitura necessária, mas o leitor crítico e transformador que estamos buscando deve também desconfiar das palavras: ler as entrelinhas, suspeitar um novo sentido. O que oferecer então para as crianças?
Uma ótima oferta é a literatura. O convívio sistemático da criança, desde muito pequena, com textos literários promove a apropriação da linguagem em toda a sua complexidade. Mas como ofertar? Além de ler para as crianças, desde sempre e para sempre, disponibilizar material de qualidade, comentar e brincar com os textos, é preciso trazer a literatura para perto de si, para casa, para nossa vida. A literatura não é paradidática; ela é a cúmplice, a companheira que diverte, emociona, atualiza nossas histórias pessoais. O texto literário dá poder ao leitor.
A literatura areja as palavras, faz animar a língua, criando novos sentidos. Com o sopro literário as palavras vão a outros lugares e cada leitor fica um pouco diferente, um pouco mais esperto, um pouquinho mais gente.
Lucila Pastorello é fonoaudióloga (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), mestre em Semiótica e Linguística Geral (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo ) e doutora em Educação (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo). Atua como fonoaudióloga clínica e assessora de linguagem e leitura em escolas, editoras e organizações de incentivo.
Autora de diversas publicações na área de saúde, linguagem e educação. Leitora pública com estágio de formação na Associação La Voie des Livres (Paris) e sócia fundadora da Companhia de Leitores Públicos, que realiza pesquisa, formação e apresentações de leitura em voz alta.

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