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18/01/2013

A formação de leitores pela fala e pelas páginas impressas

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Imaginar outras vidas e outros mundos é a grande aventura de multiplicar a existência única que nos é dada e nela encontrar um sentido. Ouvir narrativas e seguir histórias desde a primeira infância é o aprendizado das palavras, o estímulo para criar, pela fala e pela escrita, e dominar com arte a linguagem. Mesmo uma pessoinha de dois anos segue com atenção o tom emocionado do que lhe for contado. Lembro de uma velha senhora, na cozinha de meu avô, desfiando para a criança analfabeta que eu era as histórias de fada e de trancoso, que eu reconheci mais tarde, quando aprendi a ler, apenas aos sete anos, nos Contos tradicionais de Luís da Câmara Cascudo e nos muitos volumes de histórias da carochinha que fui ganhando. Somados aos mitos gregos, que meus pais contavam antes de eu virar leitora voraz e que impressos se tornaram chão fértil do meu léxico familiar, desencadearam o amor desenfreado pela ficção e a curiosidade da leitura.
Rodeada de livros desde que nasci, com um pai para quem ser herói significava ser escritor, encontrei na tradição oral, em particular a dos índios brasileiros, uma literatura, sem letras ainda, mas a ser inscrita no papel, para atingir públicos longínquos. Quem tenta escrevê-la descobre como mitos inéditos, só pela voz transmitidos em muitas línguas, levam a países infinitos.
Escritores como Tolstoi, Italo Calvino, Arguedas, Guimarães Rosa e tantos outros formaram-se na invenção narrada por quem não escrevia.
Os escritores verdadeiros devem ser, como meu pai talvez pensasse, seres mágicos nos quais mora uma espécie de fogo sagrado, porque fazem brotar o que não havia, mais real do que o que se considera que há. Mas os prazeres da leitura e da compreensão, a viagem que é conhecer, são também uma forma de escrever, aberta a todos, descortinando o que as línguas podem proporcionar para quem souber tratá-las com habilidade.
Vale a pena começar desde o primeiro choro, quando as mães acalentam as crianças e lhes cantam baladas.
Betty Mindlin, economista e antropóloga, trabalha desde os anos 1970 em projetos de pesquisa e apoio a povos indígenas. Escreveu em coautoria com narradores indígenas sete livros de mitos, como Moqueca de maridos (Record, 1997), e ainda outros, como Diários da floresta (Terceiro Nome, 2006).

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