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01/12/2012

Aniversário - Roseana Murray

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Para o teu aniversário 
o céu se arrumou inteiro: 
estrelas escreveram teu nome, 
cometas construíram um caminho 
com poeira de luz 
para que o teu destino, 
carruagem carregada de sonhos, 
pudesse passar. 

Para o teu nascimento 
os anjos inventaram palavras 
nunca antes pronunciadas, 
e os jardins secretos 
fabricaram flores desconhecidas. 

Para o teu nascimento 
o universo inteiro 
desfraldou suas velas.
Aniversário - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos 
era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, 
estava certa com uma religião qualquer. 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho...) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje 
(e a casa dos que me  amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, 
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, 
sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez 
com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, 
com melhores desenhos na loiça, 
com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas 
o resto na sombra debaixo do alçado 
As tias velhas, os primos diferentes, 
e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... 

Pára, meu coração! Não penses! 
Deixa o pensar na cabeça! 
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

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“Contei meus anos e descobri
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora....
Tenho muito mais passado do que futuro...
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas...
As primeiras, ele chupou displicentemente..............
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço...

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades...
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram.
Cobiçando seus lugares, talento e sorte.....
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos...
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos...
Quero a essência.... Minha alma tem pressa....
Sem muitas jabuticabas na bacia
Quero viver ao lado de gente humana...muito humana...
Que não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade....

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