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15/11/2012

Um professor inesquecível ...

Alexandre Mate: Doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Professor de História do Teatro do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Pesquisador de teatro e do Núcleo Nacional de Teatro de Rua. Autor do livro 30 ANOS DA COOPERATIVA PAULISTA DE TEATRO. Fonte
Fui aluna deste professor no último ano de faculdade. Até hoje lembro-me das suas aulas, do quanto era prazeroso participar (apesar das minhas limitações: vergonha, timidez, medo, ...). Pude colocar-me diversas vezes no lugar do aluno, sentindo o que a criança sente, enfrentando as barreiras que elas enfrentam. Mas em contrapartida, vivenciei a importância de um educador amoroso, dedicado, humilde, atencioso, competente, revolucionário, paciente, exigente, etc. Que me ajudou a superar tudo isso, a encontrar dentro de mim mesma, aquilo que eu nem imaginava que existia (a força, a coragem e a capacidade para contracenar). 
As atividades desenvolvidas eram relativamente simples (refiro-me aqui aos materiais utilizados e aos exercícios propostos), mas muito importantes para a formação de qualquer pessoa em qualquer idade (principalmente dos pequenos).
Dias atrás, pequei a máquina fotográfica da escola para selecionar algumas fotos para minhas postagens. Deparei-me com uma atividade bastante similar as que me referia anteriormente. Tratava-se de uma aula de educação física do professor Iurandi Lima Costa. Mas antes de comentar a atividade propriamente dita, veja abaixo que ideias legais Letras e números com posições do corpo humano
Veja também o relógio: clicando aqui
  Fotos da atividade na escola:
Esta atividade possibilita o desenvolvimento da:
1. criatividade;
2. cooperação;
3. orientação espacial;
4. lateralidade;
5. conceito de proporcionalidade;
6. tamanho / forma;
7. semelhança e diferença;
8. posição;
9. simetria / assimetria;
10. noção de espaço;
11. esquema corporal;
12. sentido de direção;
13. constância;
14. invariância; entre outros.
As crianças foram divididas em grupos de 6 ou 7 componentes em cada um. O professor solicitava que os alunos formassem, utilizando o próprio corpo, letras ou números. Vários conflitos tiveram que ser resolvidos pelas crianças. Os próprios alunos eram chamados para "avaliar" a "produção" dos colegas. O interessante foi que, os alunos passaram simultaneamente por dois processos: as decisões sobre sua própria atividade e a avaliação da atividade de outro grupo. 


Reflexões sobre a linguagem corporal no ambiente escolar - Por: Profa. Martha Copolillo
Sem pretensão de indicar soluções, a intenção é de apontar para algumas questões, sobre de que forma o "corpo" do aluno é tratado dentro do contexto da escola, e ensaiar algumas sugestões com a preocupação de ajudar na construção de uma prática pedagógica da Educação Física, na busca de uma interdisciplinaridade curricular, e na formação global do aluno, inserido no seu contexto sócio-cultural.
Será que o "saber corporal" está incorporado no conteúdo da Educação Física escolar?
Na maioria das vezes observamos que dentro das escolas a práxis ainda se encontra presa aos primórdios da nossa história, quando com uma visão ainda cartesiana, se mantém uma separação entre o corpo e a mente.
"O corpo é apropriado pela cultura. vai sendo cada vez mais suporte de signos sociais. como dizem é necessária a preparação (do corpo) para o convívio em sociedade. é preciso aprender as regras sociais. Começa a divisão. Começa a educação. (Medina, 1990) 
O "corpo" é tratado no ambiente escolar, como se sua função fosse levar a "mente" para sala de aula, a fim de que pudesse ser passado para o aluno, o saber que a escola julga necessário adquirir. E o que vemos é um "corpo" mantido em imobilidade limitado e controlado em seus movimentos e expressões, sendo desprezada a história do saber corporal que cada indivíduo possui.
Como é comum ouvirmos: "Fulaninho não aprende porque não para quieto..." E o seu corpo está ali, inquieto e sinalizando outras necessidades de mobilidade e expressão, o que na maioria das vezes não é percebido.
O bom professor passa então a ser o que de alguma forma consegue "domesticar, aquele corpo, sedento por novas vivências, movimentos, espaços..., para que a escola avalie, ainda que de uma forma equivocada, que agora quieto e submisso será capaz de adquirir o saber institucionalizado. De certa forma quando se coloca a escola como mera reprodutora do modelo político-ideológico da nossa sociedade capitalista, isto bem seria verdade.
Dentro da própria Educação Física escolar, ao levarmos em consideração a sua história, nos defrontamos com influências da visão cartesiana de homem, quando por exemplo deparamos com práticas mecanicistas.
Na busca de uma nova perspectiva para essa disciplina e de uma identidade para o profissional dessa área, novos estudos vêm surgindo, e dentre as novas vertentes a questão do trabalho corporal está sendo abordada por muitos na busca de uma práxis que se caracterize pela harmonia entre corpo e mente.
Mas de que "corpo" estamos falando?
Devemos pensar no corpo não simplesmente como corpo-objeto, corpo-matéria, e sim num corpo-sujeito, que possui manifestações próprias, que é participativo, que possui uma consciência de si e do mundo que o cerca e que interage com as situações concretas vivenciadas no seu dia a dia. Em fim um corpo que possui corporeidade.
"A corporeidade é acima de tudo, uma presença, uma manifestação, uma visibilidade, talvez dito com maior precisão uma fisionomia. A corporeidade se estende para além dos limites da educação física e da biologia. Ela alcança a esfera da consciência e não exclui a possibilidade de transcendência. Podemos afirmar com certa segurança que a corporeidade é a condição humana, é o modo de ser do homem." (Santin,1993)
E o papel do professor de Educação Física?
Qual seria a sua contribuição dentro do ambiente escolar?
O trabalho do professor de Educação Física na escola deve ser o de buscar uma interdisciplinaridade  tendo como uma de suas metas não permitir que o "corpo" seja separado da "mente" (como se isso fosse possível), durante o processo de construção do saber. Cabe ainda ao mesmo valorizar a motricidade corporal do aluno, dentro do ambiente escolar.
Desmistificar regras já estabelecidas, como por exemplo que os momentos de liberdade de expressão só são possíveis no horário do recreio, e de não permitir que o conceito de uma Educação Física Militarista, se perpetue através de sua prática, assumindo o papel de disciplinador, daquele que simplesmente deve ajudar a manter a ordem .
O professor deve promover o diálogo, deixando de ser o centro do processo ensino-aprendizagem, o detentor do saber e um mero repassador de conteúdos, transformando sua práxis numa relação interativa e dialética.
O prazer e a ludicidade devem estar presentes em suas aulas, buscando resgatar os jogos e as brincadeiras da cultura infantil.
Deve reconhecer o aluno como um ser historicamente construído e influenciado pelo seu meio sócio-cultural. Portanto deve de uma forma lúdica ser o mediador entre as experiências corporais já vividas pelo aluno, e as novas possibilidades da linguagem corporal. Atuar como elemento facilitador para o estabelecimento de novas relações. Ajudar a desconstruir o conceito de segmentação do indivíduo, vendo-o como um ser integral inserido no seu contexto sócio-cultural.
Dessa forma se tornará mais fácil ajudar ao aluno avançar no processo de aquisição do conhecimento, passando a construir formas mais elaboradas de pensar.
Destaco como forma essencial para o crescimento do processo educativo a articulação de todas as formas de linguagem e expressão, sempre levando em consideração a história que cada aluno trás para o ambiente escolar, as diversidades entre as mesmas, vendo o indivíduo como um ser inteiro na busca do seu crescimento biopsicossocial
Perceber corpo e mente como indissociáveis, estabelecer a unidade do homem é fundamental para um novo paradigma da Educação Física.
Referências Bibliográficas
Freire, João Batista. Educação de Corpo Inteiro Teoria e Prática da Educação Física. São Paulo, Scipione, 1989.
Gonçalves, Maria Augusta Salin. Sentir, Pensar, Agir. Corporeidade e Educação. Campinas S.P., Papirus, 1994.
Medina, João Paulo S. O Brasileiro e seu Corpo. Educação e Política do Corpo. Campinas, S. P. Papirus, 1990
Medina, João Paulo S. A Educação Física Cuida do Corpo... e Mente. Campinas, Papirus, 1989.
Santin, S. Educação Física outros Caminhos, UNIJUI, 1993

4 comentários:

  1. Muito interessante esta postagem.
    Nas aulas de reforço, uma criança me disse:-Ainda bem que existe essa escola, acho que sem ela não aprenderia todas essas coisas importantes para minha vida.
    Fiquei tocada, e isso reforçou minha crença na fundamentalidade de bom professores, somos construtores de GENTE.

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    1. Concordo Ana!
      Há um texto de Rubem Alves que diz:
      "Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado". (postei certa vez neste blog). Se nós conseguirmos transformar nossa escola em "asas" posso me aposentar tranquila porque terei cumprido minha missão.
      Obrigado pela visita!
      Volte sempre!
      Rose

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  2. gostei da atividade! Eu também gosto desse texto do Rubem Alves....

    Paula

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    1. Eu também gosto muito!
      Alguns autores são muito especiais e o Rubem Alves é um deles... Há sempre uma citação, um trecho ou um texto que cabe bem em cada momento da nossa vida pessoal e profissional.
      Obrigado pela visita e volte sempre!
      Beijos
      Rose

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