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25/09/2012

Literatura para crianças, qual a dificuldade?

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A literatura infantil tem tido um destaque cada vez maior.
Embora seja um gênero crescente e que garanta às editoras uma boa vendagem, é um gênero que sofre constante preconceito do próprio meio literário.
Escrever para crianças parece fácil, mas não se enganem, é o público mais difícil e não é fiel. Gosta do que é bom e não de um nome específico.
Se não forem levadas pelo consumismo, ou seja, se não forem deseducadas, como crianças que são estimuladas a comprar livros com brindes, elas serão enfáticas: Gostam ou não gostam.
Aliás, já vi criança dizer para o autor que só gostou das ilustrações do livro dele.
Uma história fraca pode ganhar um toque especial com um bom contador. E se este tiver laços sentimentais com a criança, sendo pai, mãe, ou avós, melhor ainda.
Escrever para crianças não é falar de forma infantil, nem usar diminutivos.
É uma escrita que requer do autor um processo de resgate da sua infância, uma comunicação com um lado seu que muitas vezes ficou perdido, abafado pelo “mundo adulto”. É quase como virar criança novamente, a cada história.
A criança tem uma vantagem sobre os adultos, enxerga o mundo de uma forma diferenciada. Sua opinião é mais sincera, sua visão mais pura, sua imaginação é maior. A infância é regida pela fantasia.
A criança tem um aguçado senso de justiça. A vitória do bem é certa, mas as aventuras levadas com bom humor, também são bem-vindas.
Em 1978, o escritor Isaac Singer (falecido em 1991), ao receber o Prêmio Nobel de Literatura disse em seu discurso porque começou a escrever para crianças:
Senhoras e senhores: há quinhentas razões pelas quais eu comecei a escrever para crianças, mas para economizar tempo irei mencionar somente dez delas.
1) Crianças leem livros e não resenhas. Elas não dão a mínima para a crítica.
2) Crianças não leem para buscar sua identidade.
3) Elas não leem para se ver livres de culpa, para saciar sua sede de rebelião, ou para se desembaraçar da alienação.
4) Elas não vêem utilidade na psicologia.
5) Elas detestam sociologia.
6) Elas não tentam entender Kafka ou o Finnegans Wake.
7) Elas ainda creem em Deus, na família, anjos, demônios, bruxas, gnomos, lógica, claridade, pontuação, e outras coisas obsoletas.
8) Elas amam historias interessantes, não comentários, guias ou notas de rodapé.
9) Quando um livro é chato, elas bocejam descaradamente, sem qualquer vergonha ou medo da autoridade.
10) Elas não esperam que seu bem-amado escritor redima a humanidade. Jovens como são, elas sabem que isto não está sob o poder dele. Apenas adultos possuem tais ilusões infantis."
Acho que o discurso de Singer nos fornece alguns bons parâmetros do que é escrever para criança.
Um bom livro infantil não é só repleto de ilustrações. A ilustração diz sempre algo, assim como a palavra. Devem se complementar e de preferência, estarem no mesmo nível de qualidade.
Um bom livro infantil agrada também ao adulto.
E nem todo autor consagrado se sai bem na escrita para o público infantil.
Bom, dá trabalho, mas receber um sorriso de satisfação por terem, mesmo que por um breve instante, habitado a história que criamos nos dá uma alegria enorme. Afinal, esse público não mente. 
Texto publicado originalmente na edição de agosto/2011 do jornal Sobrecapa Literal 

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