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15/08/2012

Poesia e Prosa

Pode-se escrever em prosa ou em verso.
Quando se escreve em prosa, a gente enche a linha do caderno até o fim, antes de passar para a outra linha.
E assim por diante até o fim da página.
Em poesia não: a gente muda de linha antes do fim, deixando um espaço em branco antes de ir para a linha seguinte.
Essas linhas incompletas se chamam de versos.
Acho que o espaço em branco é para o leitor poder ficar pensando.
Pensando bem no que o poeta acabou de dizer.
Algumas vezes, lendo um verso, a gente tem de voltar aos versos de trás para entender melhor o que ele quer dizer.
Principalmente quando há uma rima, isto é, uma palavra com o mesmo som de outra lida há pouco.
Então, a gente vai procurá-la para ver se é isso mesmo.
A prosa é como trem, vai sempre em frente.
A poesia é como o pêndulo dos relógios de parede de antigamente, que ficava balançando de um lado para outro.
Embora balançasse sempre no mesmo lugar, o pêndulo não marcava sempre a mesma hora.
Avançava de minuto a minuto, registrando a passagem das horas: 1, 2, 3, até 12.
Também a poesia vai marcando, na passagem da vida, cada minuto importante dela.
De tanto ir e vir de um verso a outro, de uma rima a outra, a gente acaba decorando um poema e guardando-o na memória.
E quando vê acontecer alguma coisa parecida com um poema que já leu, a gente logo se recorda dele.
Geralmente, a prosa entra por um ouvido e sai pelo outro.
A poesia, não: entra pelo ouvido e fica no coração.

José Paulo Paes, grande poeta e tradutor brasileiro, que também escreveu para crianças, deixou como contribuição, na forma de versos livres e simples, sua concepção de poesia e prosa, tal qual deve ter imaginado que as crianças gostariam de ler.

O poeta se investe do papel de subverter a lógica das conceituações da língua e cria suas próprias definições para prosa e poesia, assumindo o ponto de vista infantil e deixando de falar como adulto, ao se colocar na dimensão da infância, ou dizendo de outra forma, de como, na infância, o sujeito melhor entenderia as noções abordadas. Desafiando o leitor infantil a também demonstrar que “sabe escrever” (expressão que se insere no título do livro), o poeta demonstra a tendência a enfatizar a poesia, ressaltando-lhe algumas características.
O ato de escritura e, consequentemente, o de leitura pressupõem uma certa incompletude, quando se lê. Acho que o espaço em branco é para o leitor poder ficar pensando. Isto é, o texto não tem que dar os conceitos arrumados, acabados. Isso fica para o leitor pensar, concluir, construir.
Além disso, cria efeitos de estranheza (BORDINI, 1986), pelas comparações feitas para prosa (trem) e poesia (pêndulo de relógio). Esse jogo de efeitos inesperados aguça a curiosidade e surpreende o leitor, ao mesmo tempo em que o prende ainda mais ao texto.
Em síntese, por essa breve análise de uma produção poética recente do autor, publicada em sua homenagem póstuma, observa-se o tratamento respeitoso do poeta à destinatária desse texto de qualidade estética: a criança, ser pensante, que está em pé de igualdade com qualquer pessoa de qualquer idade. (...)
Referências Bibliográficas
BORDINI, Maria da Glória. Poesia Infantil. São Paulo: Ática, 1986.

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